“Chorai com os que choram”

Ontem fiquei me perguntando se seria pecado não explodir de alegria quando se recebe algo que nitidamente é uma bênção, um presente, algo que deveria te reacender a esperança.

A cada mês ou a cada bimestre faço uma visita ao psiquiatra e antes que alguém fique com medo, eu não sou maluca! Quem é normal vai ao psiquiatra também, ou pelo menos deveria ir. Pois bem! Estava eu na sala de espera, sentadinha lendo uma revista feminina talvez de 2005, com mais de 20 pacientes na minha frente, com aquela placidez que se apodera de mim nesse tipo de situação (Sério! Sem ironia), quando entra e senta ao meu lado uma jovem mulher muito bonita. Estava trêmula e segurando o choro a todo momento. Começou a conversar com quem estava na sala, falando um pouco mais alto, coisa que aqui nessa região é muito comum. É normal engatar conversas na fila do banco, no supermercado, na sala de espera do consultório.

A mulher me pareceu familiar e eu perguntei se ela já havia estudado na mesma instituição de ensino que eu. Bingo! Foi só lembrar de mim e perceber que tínhamos em comum mais outra coisa além de doença mental que se iniciou  uma troca de experiências que, para alguém que é mais sadio mentalmente, pareceria papo de doido. Coisas como o diagnóstico, remédios, tempo de tratamento, as sensações, efeitos colaterais, sintomas, as inúmeras crises, o apoio de familiares e amigos (ou a falta dele), como se vira pra trabalhar, estudar, cuidar da casa, enfim… como se vira para continuar vivendo são coisas que só quem passa por isso é quem vai entender perfeitamente. Nem um psiquiatra ou psicólogo conseguem compreender. A menos que tenham adoecido disso também. E há profissionais destas áreas que sofrem de transtornos mentais e são excelentes no que fazem. Como meu médico diz sempre: A doença mental é democrática. Pode pegar qualquer pessoa.

Mas voltando à situação da moça no consultório. Quando ela  descruzou os braços sem querer deixou aparentes as cicatrizes queloides resultantes de automutilação no pulso, na parte interna do braço, no antebraço. Em meio a tremedeira, vez por outra ela engolia e respirava fundo, tentando não chorar copiosamente, mas o rosto estava molhado e os olhos vermelhos de chorar. E ela começou a desabafar, o que ninguém censurou pois só nós que temos sofrimento mental sabemos o quanto somos carentes em meio a crise. Queremos colo e ouvidos de todo mundo, mesmo que esse “todo mundo” não entenda. A moça falou do vidro de xampu bebido por ela até a metade durante uma crise de sonambulismo. Falou do marido que não dorme direito pois fica monitorando o sono dela às vezes. Falou dos dois filhos pequenos, dos quais ela precisa se esconder de vez em quando para que não a vejam chorando. Falou da pressão de ter que trabalhar e estudar sem ter condições mentais, físicas e emocionais para isso. Falou da culpa de não poder controlar nada disso e sentir-se um peso morto para todos. Sei como é sofrido. Nos chamam de loucos e desajustados enquanto sofremos e desejamos a morte.

Depois de umas ligações, ela conseguiu com o marido o dinheiro para completar o pagamento da consulta, pois o desespero em procurar socorro médico não a deixou lembrar de passar no banco para sacar dinheiro. Lembro que enquanto ela ligava, vendo seu desespero, levei um copo d’água para ela, sentei ao seu lado, fechei meus olhos e orei. Pedi a Deus por ela, por essa desconhecida que me entende melhor que os meus conhecidos. Enfim, ela foi encaixada na fila de espera e ninguém reclamou por ela passar na frente de quem estava ali há horas e horas esperando. No fundo acho que todos ali sabiam bem o que é estar em condição semelhante.

Ela entrou antes de mim, passou um bom tempo no consultório. Eu, já inquieta pela espera de uma tarde inteira e parte da noite, sentei lá fora no corredor. Quando ela saiu já veio chorando e de braços estendidos pra mim e me deu um abraço tão confortador, tão familiar, tão sincero, tão cheio de alívio que pareceu que nos conhecíamos anteriormente. Talvez por eu ter demonstrado interesse pela situação dela, por eu ter-lhe feito companhia naquele momento, por ter pelo menos conversado para ela se distrair um pouco, por tê-la ouvido, por ter levado água ou simplesmente por eu entender sua dor. Disse algumas palavras olhando nos olhos dela e depois ela foi embora.

Quanto à minha consulta, o médico falou que quer começar a retirar uma das minhas medicações e devo retornar lá daqui um mês para ver como eu me saí. Foi um presente, uma bênção, uma notícia maravilhosa! Motivo pra eu sair do consultório soltando fogos com um sorriso de orelha à orelha, como foi da vez em que o mesmo médico diminuiu a dosagem de uma medicação anteriormente. Significa que estou melhorando. Mas a situação daquela mulher me afetou tanto, e eu conheço tanto o calvário que ela está passando que não tive condições de me alegrar por mim, pela minha bênção. Será que é pecado não me alegrar pela bênção recebida porque há mais alguém precisando de uma?

Grata eu sou, mas alegre na hora não fiquei. Mesmo não havendo lágrimas escorrendo no meu rosto fui para casa com um nó na garganta e com o coração chorando por aquela moça, como se me visse nela. E eu já estive onde ela estava. E lembrei de Romanos 12:15, “Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram”.

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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2 respostas para “Chorai com os que choram”

  1. Diário de uma Dismorfia Corporal disse:

    Lindo post. Tb tomo medicação e as vezes parece que minha cruz é mais pesada do que eu posso carregar.

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