Espelho, espelho meu!

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.

 Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.

 Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

— Em que espelho ficou perdida

a minha face?

(Cecília Meireles)

Não estou velha, tenho só 27. Sou velha demais para algumas coisas, coisas de criança e adolescente por exemplo; e nova demais para outras. Para certas coisas eu diria que estou ‘no ponto’. E não, casamento e filhos não entram na lista de coisas para as quais eu estou no ponto. Não porque me ache imatura, porque quando as coisas precisam acontecer, se falta alguma maturidade, Deus faz aflorar naturalmente. Mas esse poema da Cecília me cabe bem nas coisas para as quais acho que sou nova demais, pois os últimos 10 anos passaram e eu nem vi. Como se eu tivesse deitado pra dormir uma bela noite aos 17 anos, sonhado todos os acontecimentos e acordado agorinha, aos 27 (quase 28). Sou nova demais pra envelhecer, engordar, adoecer.

Me olho no espelho e não reconheço esses olhos mais fundos e escuros do que de costume. Não sei de quem é esse corpo mais largo. Cadê minha cinturinha fina, meus braços finos mas definidos, meu quadril firme? Minha saúde e disposição foram pra onde? De onde veio tanto cansaço no olhar? Essa retenção de líquido não é minha. Se esses remédios que eu tomo foram presente, podem levar de volta! Não quero nenhum deles! Nada disso é meu. Não lembro quando ganhei nenhuma dessas coisas esquisitas. E pra esse tipo de esquisitice eu sou nova demais.

Os acontecimentos desses 10 anos parecem ter sido somente visualizados por mim, de fora. Não sinto nenhum deles de forma positiva pois foi como não ter vivido. Passou voando! Lembro das alegrias e sei que foram momentos alegres, mas por causa da lembrança das situações, dos rostos sorridentes que vejo na minha mente, e não por causa dos sentimentos que possam acompanhar a lembrança. Não vem nenhum sentimento. Já dos momentos tristes, consigo lembrar e sentir com detalhes. Isso não é sempre assim. Mas a memória às vezes é ativada ou desativada de acordo com aquilo que se vive no momento. Comigo é assim. E como estou mentalmente cansada talvez esteja com a memória das coisas boas desativada.

Com relação a passagem do tempo e a estranha que vejo no espelho, ainda fico me perguntando de onde ela veio e porque não se fez notar. Pensando bem, acho que ela estava lá todos os dias no espelho, me acenando, dando bom dia e boa noite. Veio de fininho pra que eu não me assustasse, pra que eu me acostumasse. Nem a percebi. E eu me preocupava tanto com as pessoas ao meu redor, com o que elas achavam de mim, dos meus hábitos alimentares, da minha forma física, do comprimento do meu cabelo etc, que acabei nem notando aquela que estava ali se transformando bem na minha frente, virando algo que faz mal à minha saúde e que faz meu corpo reclamar. Verdadeiramente o que a maioria esmagadora das pessoas à minha volta (na família, na escola ou faculdade e na igreja) achavam das coisas que eu falava, de como me alimentava, de como levava a vida e de como eu me expressava, só mostra a incapacidade de certos grupos de compreenderem pessoas de mente macarrônica e pensamento mais livre de convenções. Meu erro foi querer ficar igual, me ajustar. Isso afetou minha saúde também e minha aparência.

Agora tento recuperar a antiga imagem que me agradava e que está ligada ao meu interior. Mas temo que eu tenha metamorfoseado exatamente para o que as pessoas queriam. A culpa é minha e talvez as pessoas ao redor estejam felizes de me ver assim: inchada, larga, com olheiras, indisposta, pesada. Noto isso pelos comentários (geralmente de mulheres mais gordas e feias ou de homens comprometidos com mulheres mais gordas e feias): “Ai menina, você tá tão bonita assim!” “Nossa você era magra demais, precisava ganhar uma carninha!” “Que emagrecer o quê? Tá bom desse jeito, cheinha e fofa!” “Não tô vendo olheira nenhuma nos seus olhos, nem cansaço”. Claro! Não passaram noites em claro chorando ou virando bicho comigo, não sentem a indisposição que eu sinto, nem tomam remédios controlados há 8 anos, tampouco engordaram sem querer.

Essa imagem não me agrada nem um pouco, não faz bem à minha saúde, meu organismo reclama. Estou cheia de perguntar para o Sr. Espelho onde foi parar a Lola de verdade, aquela que era bem saudável, que tinha pele sadia e descansada, olhos vivos e disposição física. Mas como a culpa pelo sumiço dela foi minha também, quem precisa batalhar pra tê-la de volta e expulsar essa estranha doente daqui sou eu, sem palpite de amadores, e sem medo do espelho.

“O coração alegre aformoseia o rosto, mas pela dor do coração o espírito se abate.” Provérbios 15:13.

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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