Histórias que contam história

Faltei o trabalho ontem, de novo. Estou depressiva e já melhorando mas anteontem eu de novo tangi o limite da sanidade. Sempre fico com medo de postar algo quando estou em crise hipomaníaca ou depressiva, ou melhorando de alguma das duas, porque nunca sei o que vai sair e posso me arrepender. No fundo eu tenho até medo de sair de casa, ir trabalhar, ir à igreja, ir à aula, cursinho ou qualquer outra coisa que envolva colocar o corpitcho pra fora de casa e interagir com os humanos “normais”.

Mas, sinceramente, se eu criei um blog com o principal objetivo de escrever o que vai na minha cabeça, desabafar as coisas que não tenho com quem na maior parte do tempo (embora eu ache que, ocasionalmente, alguém que me conhece vai ler, mas e daí?), então vou usar o meu blog do jeito que eu preciso usar. Da última vez que lembro de ter escrito muita coisa durante fase hipomaníaca foi um apocalipse pra mim. Na época eu e o médico achávamos que eu era só distímica, mas já apresentava sinais de bipolaridade ainda que não notasse e não dissesse nas consultas. Sobre o que, a quem ou como escrevi asneiras… abafa! Quero falar da explosão que ocasionou esse pequeno ‘fim dos tempos’.

Aconteceu durante uma viagem para visitar uma família missionária em um certo fim de semana há alguns anos. Realiza! Viagem de ônibus que dura o dia inteiro, lá pra onde o Judas bateu as botas com a corda no pescoço, em uma estrada esburacada cuja poeira, de tão fina, seria capaz de  fazer lama com os neurotransmissores, e esta transtornada aqui presa com um monte de jovens amigos barulhentos naquela lata de sardinha, enjoando até ficar verde. É um abuso contra a resistência mental de um ser humano psiquiatricamente complexo. Até que comecei a tal viagem bem, conversando alegremente. Mas o estresse de me sentir presa naquele ônibus somado ao cansaço físico e mental e à irritação pela bagunça dos outros foi aumentando e aumentando até parecer que todos estavam gritando, gargalhando e bagunçando dentro da minha cabeça.

Foi simplesmente incontrolável! Um amigo pegou um objeto meu sem me pedir. Pronto! Algo banalíssimo, mas foi o suficiente pra empurrar a bola de neve morro abaixo. Eu, estressada e irritada, pedia de volta meu pertence, e chamava, e falava, mas todos falavam mais alto que eu, todos gargalhavam mais alto do que eu conseguia falar e estavam tão eufóricos nas suas gargalhadas e diversão que ninguém me ouvia. Abriu-se a porteira do vespeiro sem querer.

Daí eu já não ouvia mais nada, nem sentia mais nada, só aquilo vindo de dentro da cabeça incontrolável e rápido. Tão rápido que já tinha me tirado o ar antes que eu pensasse em respirar fundo. Como se eu estivesse caindo em um buraco com todo mundo ao meu redor gritando e rindo e me irritando. O esforço pelo alto controle foi hercúleo (como sempre é) mas não o suficiente. Um grito meu que fez o motorista estancar no meio da estrada me deixou fazer as vezes de esquentadinha, explosiva, descontrolada, histérica ou sei lá o que mais que tenham falado ou pensado. Tudo acontece com uma velocidade tão absurda que escrevendo assim nem parece. E às vezes nem consigo lembrar de tudo.

Depois disso foi depressão o fim de semana inteiro. Na primeira noite até que passei bem. Chorei um pouco (caladinha pra não acordar ninguém) mas dormi. No dia seguinte organizaram algumas atividades para todos, mas eu não tinha ânimo, não conseguia nem sorrir de verdade. Depois do culto da manhã ficava deitada chorando dentro do quarto a tarde inteira enquanto todo mundo brincava e se divertia lá fora. Em uma manhã consegui sair e ir com o restante do povo visitar uma aldeia onde eu tomei uns bons goles de caiçuma (bebida indígena) vomitando tudo em seguida. Quem mandou? Minha curiosidade me mantém viva às vezes mas às vezes quer me matar.

À noite comecei a chorar e acabei acordando uma amiga. Decidi sair pra varanda e ficar lá chorando sem incomodar ninguém, sem acordar ninguém. Não sei quanto tempo fiquei, mas o dia já estava quase clareando, e eu lá chorando. Até que o cansaço me venceu, as lágrimas já não saiam mais, acho que tinha secado a remessa da noite. Nem precisa dizer que no dia seguinte eu tinha um par de olhos de sapo-boi na cara. “Teu olho tá horrível!”, me disse a moça que eu acordei de noite. Não foi vingança por tê-la acordado, meus olhos estavam mesmo horríveis, impossível não notar o inchaço. Mas quem disse que eu ligava? À tarde, mais atividades e mais uma vez eu não saí. Fiquei tentando cortar cenouras na cozinha e findaram tirando a faca da minha mão pra eu não me cortar pois eu estava cega de lágrimas. Chorava cortando cenoura, chorava tomando banho, o pouco que comia era chorando, chorava até dormindo e acordava de manhã querendo chorar.

Uma das coisas que mais lembro foi a indiferença da grande maioria. Parecia, para alguns, que eu nem estava lá, ou que eu era só alguém que destoava do grupo de pessoas felizes e por isso merecia ser ignorada de todo ou tratada com hostilidade. Pedidos de desculpas de quem me provocou ou me tratou mal, interesse em saber se eu precisava de algo, compaixão e presença são coisas que teriam ajudado. Infelizmente nesses quesitos eu, como sempre, fiquei no limbo. Afinal, eu é que era “a histérica, descontrolada, chata e insuportável ”.

Ninguém liga pra essa tua berrice, pra tua frescura!” ou “Nem te dei moral durante essa viagem!” ou ainda “Para de chorar! Chorar é bom mas demais assim fica chato!”, foram as coisas mais delicadas que escutei depois. Me mostraram que eu incomodava, mas apesar de tudo eu tento não guardar mágoa de ninguém nessas horas. A desinformação é um “privilégio” de muitos e as pessoas às vezes não tem culpa de serem ignorantes nesse assunto. E confesso que eu também já joguei nesse time.

Mas nem tudo foi indiferença ou hostilidade. De todos ali uma amiga vinha ver de vez em quando como eu estava, orava do meu lado e chegou a me ajudar a recolher minhas coisas na hora de ir embora, pois eu não aguentava fazer mais nada. Por essa eu agradeço a Deus, e também pela outra que veio e orou comigo uma vez. Quando não se sabe o que fazer com um deprimido ou o que falar, só o fato de ficar ali por perto da pessoa, disponível para o que ela precisar, já ajuda. A pessoa, que já está carente e fragilizada, vai saber que existe alguém que se importa e que ela não está abandonada por aqueles que ama. Orar pela pessoa deprimida é de grande valor e também surte muito efeito, mesmo que demore. Os ouvidos do Senhor nunca estão fechados e Suas mãos nunca estão atadas, mesmo que pareça.

Percebi depois que no meio de muitos cristãos vi pouco cristianismo, justamente quando eu mais precisava do amor, suporte e compaixão que Cristo ensinou. Às vezes a culpa é do egoísmo que se fantasia de diversão e de alegria da juventude, ocupando tanto espaço, em certas ocasiões, a ponto de não deixar ninguém se atentar às necessidades alheias. Às vezes a culpa é da falta de informação, da ignorância na qual nascemos e vivemos até que algo novo e estranho aconteça, e nos mostre o quanto somos fracos e necessitados.

Mas pra todos esses males há remédio, e não há melhor tratamento do que aquele que Deus pode dar e que produz crescimento e sabedoria. Então, ainda que a alma esteja se partindo, o espírito esteja gemendo de dor e o corpo esteja abatido, eu dou graças a Deus, pois todas as sementes que se partem o fazem para que a árvore nasça, cresça e produza seus frutos!

Versículos para conferir: Mt 22:39, Jó 6:14, Sl 69:20, Mt 9:36, Mt 14:14, Tg 5:13-15, Pv 25:20, Jó 16:20,Sl 38:11, I Pe 3:12a, Sl 119:71, Jó 42, Is 59:1, Jó 14:7, Jó 42:2, Jó 42:10, Sl 40:17, Tg 5:16b, Jo 12:24.

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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6 respostas para Histórias que contam história

  1. Diário de uma Dismorfia Corporal disse:

    Oi. Li seu post. Tb tenho depressão. As vezes as pessoas não falam com a gente quando estamos chorando justamente porque acham que a gente não quer conversar com ninguém. Algumas pessoas pode ser indiferença, mas outras são por não saber como lidar com a situação. Vc já falou com o seu psiquiatra pra rever o seu remédio? Se vc toma medicação mas ainda está tão deprimida talvez seja preciso aumentar a dose ou trocar de remédio. Isso aconteceu comigo. Eu tomava uma medicação mas eu continuava chorando muito, então foi trocada a medicação e aumentada a dose. Deu certo. Não sou uma pessoa feliz mas não choro, pelo menos não frequentemente. Qualquer coisa conte comigo. bjo

    • Lola disse:

      Na verdade essa história aconteceu há uns anos, logo que comecei o tratamento. E como só tratava a distimia mas não a bipolaridade, eu meio que comecei a entrar em parafuso. Mas apesar de estar tendo muitas crises ultimamente (ao ponto de haver desconfiança de uma personalidade Borderline) até que consigo fazer minhas coisas e não choro sempre. O choro vem mais com o estresse e perda de sono. Mas muito obrigada pelo apoio. Sempre me sinto muito sozinha por não ter com quem trocar figurinhas.

      • ma disse:

        Lolaaa, vc não menciona se para o tratamento por isso q entra em crise, ou se entra nestas crises fortes mesmo tomando remédio.
        Se for tomando remédio, precisa contar ao seu psiquiatra ou trocar de profissional.
        Pelo que li vc conta a tua vida, como se fosse seu dia-a-dia.
        E aí o negócio da russo….eu fico deste jeito só quando não estou tomando o depakene (controlador do humor) não garante 100% mas pelo menos, dá pra eu segurar a onda quando percebo q estou em uma das duas crises mesmo q for bem leve precisamos aprender a nos perceber logo de imediato.

        abrçs
        ma

      • Lola disse:

        Olá Ma! Obrigada pelo comentário! Na verdade quando aconteceu isso eu ainda não tratava bipolaridade porque o médico achava que eu era só distímica, mas até eu achava que era só uma depressão crônica e que a extroversão e tagarelice eram parte da minha personalidade, que eu realmente tinha ficado mais impulsiva com a idade. Mas assim, hoje em dia eu tomo Carbolitium pra estabilizar o humor e só tenho crises quando passo por períodos de estresse físico ou emocional. Se o meu meio ambiente não estiver tranquilo, se estiver muito cansada, trabalhando ou estudando muito eu acabo tendo crises. Não conheço Depakene, mas vou conversar com o médico pra saber se é melhor que o Carbolitium. Obrigada, e força aí!

  2. Diário de uma Dismorfia Corporal disse:

    Pow Lola, agora que li o título do blog que vi que é vc. Pq o post tava no navegador de tags. Vou reinterar a minha frase então. Conta comigo pro que precisar ta? Bjo grande e fica bem. Qualquer coisa to aqui. ♥

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