De volta à jaula

E lá vamos nós de novo! Irritabilidade desmedida desde o dia 13/10 (dia em que completei mais um ciclo de 365 dias de vida). Inventaram uma surpresa que, pela graça de Deus, eu descobri a tempo. É porque essas pessoas com quem eu convivo ainda não entenderam que não podem me surpreender. Não pela incapacidade deles em fazer algo escondido, mas pela minha incapacidade de enxergar surpresas como algo bom, ainda que sejam boas para a maioria das pessoas. Essas pessoas ainda não entenderam que essa pessoinha aqui não pode tomar sustos, não pode se surpreender, nem da maneira boa nem da ruim e não gosta de honrarias ou de ser o centro das atenções em datas comemorativas. E se existe uma coisa que odeio mesmo, é que façam coisas pelas minhas costas. Se soubessem o mal que me fizeram…

Enfim, estou até hoje com um excesso de coisas no sangue, no peito, na cabeça, na garganta…Reunião de diretoria que me deixou irritadíssima, cara de bunda a tarde inteira, mal humor, tentativa frustrada de interagir como um ser humano normal com os seres humanos normais quando tudo que eu queria era esfolar todos eles. Maquiagem borrada durante o culto. E lá vamos nós pro banheiro limpar a cacaieira preta de debaixo dos olhos. Banheiro ocupado. Daí um pessoa sai e pergunta. As pessoas sempre perguntam, sempre querem saber o que foi, sempre querem que haja algo pra contar porque, supostamente, ninguém chora por nada. Chora sim!

Chora porque as pessoas perguntam, e chora porque ninguém tá nem aí. Chora porque está irritada porque foi contrariada, e chora porque sofreu indiferença quanto às opiniões emitidas. Chora porque todo mundo é cego demais e ninguém percebe que você está em crise. Chora porque percebem mas são burros demais para saber o que fazer. E sempre querem um motivo, uma razão. Sempre querem que seja a vida espiritual, a família, o emprego, os estudos, os amigos, o namorado (ou a falta de um), quando na verdade nada disso explica a maquiagem borrada no meio do culto. Nenhum desses motivos é razão para a maquiagem estar borrada de lágimas, o peito doendo, tudo se partindo por dentro. Nenhuma dessas coisas é problema na  sua vida. Aliás, o problema está tão lá dentro, tão fundo que não dá pra tirar de maneira delicada. Ele quer sair rasgando, explodindo, arrebentando tudo. Acabando com a minha vida e com a vida dos outros ao redor. É por isso que se chora. Por tudo e por nada.

Talvez seja preciso uma lâmina afiada para arrancar de dentro, uma dose cavalar de remédios para fazer parar de doer, ou um salto para um rio qualquer. Talvez assim matasse essa dor. O porém, nesse caso, é que isso destruiria essa morada, a parte boa, aquela que Jesus disse pra cuidar e onde habita o Espírito, e isso não seria bom, porque ainda há pessoas que não gostariam de não me ver mais por aqui. Uma mãe preocupada e com saúde abalada, uma irmã que talvez precise da minha companhia e ajuda pra cuidar da mãe, uma avó que talvez não durasse muito tempo sem mim por aqui. Para todo o restante das pessoas não faria diferença. Talvez no dia do acontecido, depois do velório etc, as pessoas ficariam se perguntando o porquê e especulando coisas que não tem nada a ver com o real motivo (porque são burras e nunca percebem o que está acontecendo ao seu redor). Depois seria esquecimento total, a vida continuaria, ninguém lembraria mais e tal. Deve ser bom ser normal.

Ninguém ouse chamar um potencial suicida de egoísta ou não digam que ele só tem arranque quando existe a postergação do ato do suicídio. Se a pessoa demora muito pra tomar essa atitude é porque está pensando nas pessoas que fazem sentido pra sua vida, que sentiriam falta ou precisariam dela.

As pessoas se acham tão cheias da razão que se não fosse pecado eu já teria matado pelo menos umas 2 no meu trabalho e umas 5 na minha igreja. Pelo menos com 3 delas eu estive hoje à tarde. Deus me livre de minha enfermidade e me proteja de mim mesma, e aos outros também! Mas o impulso de fazer isso (ou de pelo menos quebrar a cara de alguém com uma cadeira) ás vezes demanda um esforço hercúleo para segurar. Não ponho pra fora na forma de violência, dessa ira encubada, logo, enfio tudo pra dentro e a coisa vira doença, derruba minha pressão arterial, me faz chorar sem controle, faz minha imunidade baixar, apaga minha memória, me faz perder o sono. No meu caso sofrer pelos outros é isso. E ninguém valoriza nada disso, tudo que você segura por causa dos outros, todas as vezes que você adoece pra não magoar ninguém. Ninguém te vê como você realmente é, ninguém considera que você está prestando um bom serviço deixando de conviver junto dos outros. Mesmo que isso lhe cause sofrimento e solidão, você sabe que é necessário se isolar, se afastar, pelo bem daqueles que ama e que, mesmo amados, não te entendem.

Talvez eu crie coragem hoje, talvez não. Mas um dia eu vou ter que fazer algo pelas pessoas à minha volta. São todos tão ignorantes, nunca saberão o que fazer. No máximo chegam pra mim dizendo: “Estou orando  por você!” ou “Eu vou orar por você!”. Dãããã! Me digam algo que eu não saiba, me digam algo que eu precise ouvir, não o que eu já sei. Me digam algo que surta efeito, algo produtivo. Oração é produtiva quando ela é feita e não quando é dito que será ou que está sendo feita.

Vão estudar e aprender como lidar com isso, porque eu já cansei de fazer de conta que sou igual a todo mundo. Cansei de vestir cara de festa, de sociabilidade quando tudo que eu preciso é mostrar minha cara de louca. Quero poder vestir minha camisa de força e ser aceita e amada pelas pessoas de dentro da jaula de minha anormalidade e de incerteza da minha doença. Mas isso nunca vai acontecer.

}ï{

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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