“Qual é a realidade de qualquer sentimento?”

Há um tipo especial de dor, exultação, solidão e pavor envolvidos nessa classe de loucura. Quando se está para cima, é fantástico. As idéias e sentimentos são velozes e frequentes como estrelas cadentes, e você os segue até encontrar algum melhor e mais brilhante. A timidez some; as palavras e os gestos certos de repente aparecem; o poder de cativar os outros, uma certeza palpável. Descobrem-se interesses em pessoas desinteressantes. A sensualidade é difusa; e o desejo de seduzir e ser seduzida, irresistível. Impressões de desenvoltura, energia, poder, bem-estar, onipotência financeira e euforia estão impregnadas na nossa medula. Mas, em algum ponto, tudo muda. As idéias velozes são velozes demais; e surgem em quantidades excessivas. Uma confusão arrasadora toma o lugar da clareza. A memória desaparece. O humor e enlevo no rosto dos amigos são substituídos pelo medo e preocupação. Tudo que antes corria bem agora só contraria você fica irritadiça, zangada, assustada, incontrolável e, totalmente emaranhada na caverna mais sinistra da mente. Você nunca soube que essas cavernas existiam. E isso nunca termina, pois a loucura esculpe sua própria realidade.

A história continua sem parar, e finalmente só restam as lembranças que os outros têm do seu comportamento — dos seus comportamentos absurdos, frenéticos, desnorteados — pois a mania tem pelo menos o lado positivo de obliterar parcialmente as recordações. E então, depois dos medicamentos, do psiquiatra, do desespero, depressão e overdose? Todos aqueles sentimentos incríveis para desembaralhar. Quem está sendo educado demais para dizer o quê? Quem sabe o quê? O que foi que eu fiz? Por quê? E o que mais atormenta: Quando vai acontecer de novo? Temos também os lembretes amargos — remédios para tomar, para se ressentir por ter tomado, para esquecer; tomar, ressentir, esquecer, mas sempre tomar. Cartões de crédito cancelados, cheques sem fundo a serem cobertos, explicações devidas no trabalho, desculpas a serem pedidas, lembranças intermitentes (o que foi que eu fiz?), amizades cortadas ou esvaziadas, um casamento terminado. E sempre, quando isso vai acontecer de novo? Quais dos meus sentimentos são reais? Qual dos meus eus sou eu? O selvagem, impulsivo, caótico, vigoroso e amalucado? Ou o tímido, retraído, desesperado, suicida, cansado e fadado ao insucesso? Provavelmente um pouco de cada lado. De preferência, que grande parte não pertença a nenhum dos dois lados. Virgínia Woolf, nos seus vôos e mergulhos resumiu essa história: ‘Até que ponto nossos sentimentos extraem sua cor do mergulho no mundo subterrâneo? Quer dizer, qual é a realidade de qualquer sentimento?

 O trecho acima é do livro Uma mente inquieta, de Kay Redfield Jamison, psiquiatra e maníaca-depressiva (ou bipolar, whatever). Os destaques em negrito são meus.

Estou lendo esse livro e simplesmente me vejo lá. Ela descreve e explica tudo com uma perfeição que só um médico psiquiatra E doente bipolar poderia fazer. Interessante é que o povo ignorante sempre diz que médico psiquiatra é ‘tudo doido’. Não é verdade. Muitos deles só se identificam com a área por que já vem de uma história pessoal e/ou familiar de doença mental. Mas também há exceções. Enfim, amei esse livro e me emociono lendo. É tocante como faz parecer que não estou sozinha, que outros sofreram e sofrem tanto quanto eu para conviver com a doença, que alguém que nem me conhece entende tão bem a minha situação. Para baixar o livro, que é interessantíssimo e vale a pena ser lido, tem esse link aqui http://goo.gl/TRwD6. }ï{

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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