Borboleta quer voar

A doença mental nos come vivos. São tantos remédios, são tantas consultas. Mês a mês, voltando e voltando. Ontem, depois de uns 3 anos com um mesmo esquema de medicação (que não estava funcionando bem) o doutor decidiu mudar tudo. Sei que ele busca sempre o melhor. Vai aos congressos, se recicla, se informa sobre o que há de mais avançado para tratamento em saúde mental. Mas ele não consegue abraçar o mundo de pacientes que tem só com as duas mãos. Não estou disposta a fazer mais isso. Não aguento remédios e mais remédios. Com esse novo esquema sei que estarei medicada com o que há de mais eficiente, mas serão no final 10 comprimidos diariamente e durante um longo tempo.

Eu sei que Lamitor, Quetiapina, Lítio e Eutonis formam um bom grupo de cuidadores pro meu caso. Saíram de cena a Paroxetina e a Tradozona. Mas eu sei também que vou ficar igual a um zumbi por um bom tempo e eu não quero isso. Tenho correções para fazer na monografia antes de imprimir a definitiva, tenho uma prova da faculdade de Letras amanhã, tenho dois amigos-secretos para participar, tenho um cursinho de espanhol para frequentar, tenho o casamento do meu irmão para ir, tenho a bandeja de processos para esvaziar no trabalho. Tenho família, tenho ainda alguns amigos. Tenho tanta coisa pra fazer e pessoas a quem prestar contas.

Mas tenho também uma vontade enorme de colocar um fim nessa montanha-russa. Talvez seja a doença falando. Talvez eu esteja sendo egoísta. Talvez um monte de coisas que eu não estou conseguindo pensar direito agora. Mas mais egoístas são as pessoas que querem que eu fique e continue levando uma vida sem qualidade desse jeito. Egoístas os que dizem: “Não faça isso! Lute! Continue!” Esses aí, se trocassem de lugar comigo talvez não durassem uma semana vivendo nessa esteira psicodélica mental. Correndo, cansando, caindo na esteira, levantando, tomando remédios, correndo de novo pra cansar mais na frente, e cair, e levantar, e chorar, e pirar e tomar remédios pro resto da vida.

Deus! Meu cérebro tem limites, minha mente está exausta. Eu sei para onde eu vou e é isso que importa. Okay! Dar um fim nisso sozinha é pecado, mal testemunho e o escambau. Mas não consigo pensar em nada além disso no momento. Tudo de ruim que acontece quando eu estou em crise só me arrebenta mais. Mas as circunstâncias da vida são só gotas d’água. São só o empurrãozinho que precisa pra eu voltar à montanha-russa novamente. Pra eu subir nas maiores alturas e em seguida cair com todo o peso e velocidade no fundo do poço de novo. Quem quer viver assim meu Deus? As pessoas que me mandam não desistir tem saúde mental perfeita. Como poderiam saber o que é isso?

Seja lá quando for (e se for hoje?) o dia em que eu vou dar um fim nessa loucura, só queria que ninguém culpasse a Deus, Ele não tem culpa. Que ninguém culpasse o evangelho do Senhor, pois também não é culpa dele. Não é só pelas pessoas que se faz ou deixa de fazer certas coisas. Às vezes precisamos ter uma pontinha de individualismo e fazer algo por nós também. Se eu fizer isso é por mim, pra acabar com o sofrimento, para fazer esse monstro parar de me comer viva e pra não ter que viver drogada pelo resto dos meus dias. Sei lá mais o que eu tô dizendo. Não tô entendendo mais nada hoje. Sei que ontem à noite estava ligadona, acelerada. Escrevi um monte de coisas que vieram na minha cabeça.

Tenho coisas a resolver. Vou tentar resolver e ver como fico. Não sei se estou curiosa para saber o que acontecerá amanhã. E olha que eu sou muito curiosa! Mas sei que não há nada novo debaixo do céu (Ec 1:9). Tudo é uma grande esteira rolante na qual corremos e tentamos fazer algo novo. Não me falta mais nada, além talvez, de ver minha família convertida. Não espero nada do futuro além daquilo que já tenho. Não sou como os bobos que vivem falando em sonhos e sonhos como um bando de amebas. Planos a longo prazo não são parte da minha vida. Tanto faz o que vai acontecer. Empregos melhores, serviços a Deus, casamento, filhos, moradia em lugar melhor, viagens de férias para lugares bonitos… Tudo isso se esvai e deixa de ter importância quando se tem um bicho comendo seu cérebro. Nenhuma dessas coisas é indispensável ou planejada quando se vive nessa ciranda de doido que eu vivo.

Talvez não seja hoje pois tenho coisas a resolver. Mas sei que um dia vai chegar a hora em que eu vou tentar de novo. Infelizmente eu sei disso porque nem sempre estarei estável. Em alguns dias terei surtos psicóticos e perderei a razão de novo. Como disse meu psiquiatra uma vez: Se você não se tratar você vai se matar! Eu entendo o que ele disse, e ele sabe do que está falando, pois já viu acontecer muitas vezes em sua carreira. Mas vamos lá, nos arrastar por mais uma tarde, dar satisfação no trabalho, tentar resolver algo nessa vida. Sem condições pra isso, com uma discoteca de loucura dentro da mente, uma montanha-russa de emoções e pensamentos malucos, mas sempre tentando parecer normal, lúcida e saudável. }ï{

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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