Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar

Quem já vivenciou ou viu vídeos de terremotos nos quais podem ser observados, além de pessoas sacolejando enquanto correm, uma infinidade de objetos sendo lançados ao chão depois de rodopiar pelos ares? É aterrador. Muitas vezes prédios desabam soterrando as pessoas, matando alguns ou muitos. O cenário que fica depois poderia ser descrito como um campo de batalhas. Quantas coisas para colocar nos seus devidos lugares, quantos corpos, quantas pessoas desaparecidas, quantos canos estourados vazando água ou gás, estruturas para reerguer, sujeira para limpar, doentes para tratar. Quanta dor, desolação e sensação de impotência!

Enfim, mudando de pau pra cavaco, eu sempre gostei de cestos, estojos e caixas. Tenho cestos cheios com produtinhos de beleza, cosméticos, material de manicure e pedicure, esmaltes, estojos para canetas e miudezas, caixas para maquiagem, caixa para colares, caixa para brincos, caixa para anéis e por aí vai. Se eu pudesse, tudo na minha casa seria organizado em estojos, cestinhas e caixas bem coloridas, bonitas e organizadas. Ok! Mas o que tem a ver um cenário pós abalo sísmico com meu gosto por caixas? Já chego lá.

Bom, gosto de pensar que minha mente é como um quarto bem grande, rodeado de armários com portas, nos quais há muitas prateleiras. E tudo ali dentro é organizado em inúmeras caixas. Há caixas para guardar as pessoas amadas, as pessoas próximas, caixas para guardar colegas de trabalho, caixas para guardar os conhecidos e parentes mais distantes, caixas para guardar o trabalho, caixas para os serviços domésticos, caixas para as atividades físicas, que aliás, estão praticamente vazias.

Tenho caixas para sentimentos bons, que eu sempre me esforço para manter cheinhas até a tampa, e tenho caixas para sentimentos ruins, que eu vivo esburacando o fundo pra ver se seca logo. Tenho umas caixas preferidas que deixo mais à mão, mas não digo o que elas contém, pois são coisas só minhas. Tenho uma caixa especial, que quando aberta irradia Luz, Consolo e Vida de maneira que extrapola os limites do quarto. Esta fica guardada na prateleira mais central, especial e segura, e por mais que tudo bagunce ela nunca sai do lugar e eu posso abri-la sempre que quiser e mostrar pra todo mundo.

Tenho outras que ficam lá no canto do armário mais escondido, em local de difícil acesso, só acumulando bolor, poeira e teia de aranha. Essas eu não gosto de pegar, abrir e nem revelar seu conteúdo em detalhes (algumas pessoas até sabem mas tem a hombridade de não ficar comentando sempre). Se perguntarem eu posso até contar, mas me enoja muito só de olhar pra elas e eu já tentei mas não consigo jogar fora. Simplesmente estão coladas. Muitas coisas, pessoas, espaços de tempo, acontecimentos, certezas, datas, dúvidas, lembranças. Tudo em suas respectivas caixas, tudo organizadinho. Com armários de porta sempre fechada pra ninguém bater com a testa e pra nenhuma caixa cair do chão. Sempre fui organizada, até demais. Mas talvez o THB tenha me deixado um pouco mais bagunceira, pela indisposição talvez, mas eu não gosto disso.

Eu não vou esquecer a data da última postagem, 29/11/11. Não só porque meu desalento está escrito aí, mas porque foi quando meu terremoto aconteceu. Eu já vinha sentindo pequenos tremores. Sabia que minhas placas tectônicas estavam se movendo. Eu deveria ter me prevenido, passado fita crepe nas portas dos armários, pregado com madeira. Eu deveria ter me prevenido, ter me escondido embaixo da mesa ou debaixo da moldura da porta. Eu poderia ter diminuído o ritmo ou simplesmente corrido pra rua pra avisar a todo mundo que um terremoto estava vindo. Será que alguém ia acreditar que eu estava no limite? Que tudo ia tremer?

E ele veio. Outro surto aconteceu, outro terremoto na minha cabeça. Chegou lentamente durante o dia, me fazendo passar  simplesmente por indisposta. Até que, no encontro das placas, uma mísera pedrinha que se aguentava entre ambas se soltou, deixando uma bater na outra com tudo. Essas míseras pedrinhas também são chamadas de gotas d’água. São o empurrãozinho nas costas de quem rolou morro abaixo por semanas e parou se equilibrando à beira do precipício.

Chacoalhou, tremeu, abriu e bateu todas as portas dos meus armários e minhas caixas foram derrubadas, espalhando e misturando seus conteúdos. Durante esse abalo sísmico mental apareceram algumas pessoas, aconteceram coisas. Não lembro tudo, mas lembro o suficiente. Lembro de ter ficado desesperada com a idéia de suicídio e ter tentado chegar à casa de um casal de amigos. Eles não me deixariam fazer isso, talvez. Não consegui chegar e lembro de dois homens no meio da rua ligando pra PM e não me deixando sair dali. Eu não conseguia pilotar a moto, eu queria meus remédios. Todos eles.

Lembro da chuva fina, porque meu pijama estava úmido. Lembro que tinha um PM estúpido que esbravejava: ELA FICA AÍ GRITANDO QUE NEM UMA DOIDA! Isso martela na minha cabeça até hoje. Lembro da minha mãe choramingando e do meu pai. Que raios ele estava fazendo ali? Lembro da amiga da minha mãe no hospital. Desse lugar eu lembro melhor. Lembro que fiquei deitada de lado naquela maca de hospital, com um tubo enfiado através do meu nariz, descendo até o estômago, na tentativa de diluir todos os comprimidos com seis tubos de soro, pelo que ouvi alguém falando.

Lembro da minha fragilidade e da sensação de desproteção. Familiares ou amigos não podiam ficar lá. Me senti tão vulnerável quanto um bebê. Nunca choro nem fico nervosa em procedimentos médicos. Tomo injeção batendo papo com a enfermeira. Mas naquela situação, ouvi somente o meu próprio choro enquanto todo mundo ficava em silêncio. Lembrando agora, eu chorava feito um bebê com medo. Lembro que procurei aflita por uma mão para segurar (nunca faço isso embora às vezes queira), mexendo o braço pra cima até que achei uma mão quentinha que segurou a minha gelada o tempo todo.

Wilson Simonal (como o nome do cantor, ele disse). Um técnico em enfermagem gentil que não largou minha mão até que eu saísse da emergência. Totalmente o oposto da enfermeira, que não quis dizer o nome, que nem sequer me olhou nos olhos e que ainda resmungou: “Se não quisesse nada disso não era nem pra ter vindo pro hospital”! Eu não fui nem queria ir. Me levaram. Estranhos na rua me viram e chamaram alguém pra me levar. O que essa enfermeira estava pensando? Que eu estava em minha plena lucidez? Que eu planejava ficar vomitando sangue? Que eu sabia o que estava fazendo? Como ela muitos por aí são estúpidos e sem afeição com quem está exposto por alguma situação que a sociedade possa ver como vexatória. Tentativa de suicídio por exemplo. Não sabia direito o que estava fazendo. Sempre fui boa com detalhes, mas não lembro deles. Lembro de alguns nomes e lembro da minha irmã chorando, e ela nunca chora, nunca! E sei agora que precisava de ajuda e não de gritos ou hostilidade.

Passou o tremor. Agora eu entro no meu quarto, na minha mente. Olho pra bagunça que o abalo deixou e me dá vontade de chorar porque eu estou tão cansada, tão exausta. Já vi essa bagunça antes, e é o tipo de bagunça que quando arrumada me dá uma sensação de dever cumprido. Só minha caixa de Luz, Vida e Consolo não saiu do lugar. E é essa caixa que eu preciso abrir todo dia para poder ter forças renovadas e ir organizando tudo novamente. Preciso devolver cada coisa e pessoa para sua caixa e cada caixa para a sua prateleira. E fechar as portas dos armários, se não alguém bate a testa. Mas o que ficava onde? Onde eu ponho o que? Minha mente está uma zona e eu queria poder ficar só deitada no meio da confusão olhando pro teto ou contratar uma arrumadeira. Mas não posso fazer isso porque isso não é sábio, não é maduro e não me aperfeiçoa em nada como ser humano. Tenho que começar a arrumação sozinha, e lentamente achar os lugares de cada coisa e colocar cada uma no seu devido lugar. Mesmo que esse processo seja cansativo, sofrido e longo, é assim que eu vou ter a sensação de dever cumprido.

mudança

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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2 respostas para Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar

  1. Milca disse:

    Já estive no epicentro de um terremoto, e ainda sinto pavor ao me lembrar. Só me recordo de alguns fragmentos, mas acho que o mais assustador foi que ao acordar e tomar consciencia que ainda estava viva pensei ” merda, ainda estou aqui”. Tenho vivido os dias a pisar em ovos, a espera de uma nova crise, ando a sorrir e a fazer de conta que ja estou a ultrapassar a depressão, pois a familia e os amigos não tem paciencia pra aturar uma depressiva, chata e chorona todos os dias, mas tenho medo, muito medo que o terremoto volte e destrua tudo novamente. As vezes é dificil aguentar, e pior é ter que sorrir.

    • Lola disse:

      Oi Milca! Concordo com você. Quando estamos mal sorrir se torna algo penoso. A sensação interna é de medo mesmo. Medo de ter crise, medo de não melhorar nunca, medo de as pessoas nos abandonarem. Seria muito bom contar com a compreensão das pessoas nessas horas. Que as pessoas entendessem que nossa tristeza não é só tristeza, que a agitação não é só agitação, tudo é sintoma de males maiores. Mas que Deus te dê força querida, pra suportar e dê abençoe pra que melhore. Beijão!

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