Devaneios, lembranças e sonhos – parte III

Enquanto melhoro da queda livre do sistema imunológico (com direito a febre, dor no corpo e ataque de afta) devido à crise depressiva com seus sustos e surtos, volto ao meu humilde cantinho de escrita pra terminar de libertar da cabeça a jornada de brincadeirinhas do meu cérebro comigo. Por enquanto farei muitas algumas considerações. No dia 18/12 fazia uma semana que eu havia retornado de uma viagem rápida (3 dias) para comparecer ao casamento do meu irmão. Era um domingo e eu planejava ir à igreja à noite, porque de manhã as drogas simplesmente não me deixam fazer nada. Passei o dia praticamente sozinha. Coisa do tipo: mãe trabalhando, irmã maior dormindo o dia inteiro e irmã menor jogando no notebook o dia inteiro. Ou seja, eu sozinha.

Por algum motivo, que eu ignoro, comecei a ficar com os pensamentos agitados e como estava na internet escrevendo, pesquisando coisas que gosto e lendo, foi nesse meio que eu descontei uma energia que começava a ficar descontrolada. Fui escrevendo e lendo sobre várias coisas com cada vez mais irritação. Aquela irritabilidade que só quem é bipolar entende do que eu estou falando. Aquela que vem com direito a falta de ar, aperto no peito, enrijecimento de todos os músculos do corpo, dor de cabeça instantânea e queimação no estômago e na cabeça. Não necessariamente nessa ordem e não necessariamente todos juntos. Mas uma raiva contida que parece um vulcão com uma tampa gigante em cima.

Até que no fim da tarde, comecei a achar que tinha gente fazendo barulho na cozinha, há 3 passos de distância de onde eu estava. Levantava e ia ver. Nada. Voltava pro computador, ouvia barulho de cadeira arrastando, gente andando, mexendo na pia, e levantava pra ver mas não havia ninguém. Fiz isso umas 3 ou 4 vezes e deixei pra lá. Minutos depois comecei a sentir como se um monte de bichinhos comessem minha cabeça. Como se houvesse bichinhos pequenos correndo entre meu cérebro e meu crânio, fazendo bagunça na minha cabeça, incomodando até eu não suportar mais o sangue fervendo, a baderna mental, e desabar em um ataque de choro.

Cinzas do vulcão chileno Puyehue causando tempestade

Tudo bem que um pouco antes aconteceu de alguém se irritar com algo que eu escrevi por aí e retribuir na medida do que seu julgamento achou necessário. Sem saber, claro, que eu estava entrando em crise maníaca e nada mais era controlável: fala, escrita, atitude, movimentos e especialmente pensamentos.  Não foi nada que fizesse diferença na vida de um ser humano normal. Mas na vida de um ser humano que é quase normal, esse tipo de situação é suficiente para terminar de ferrar tudo e fazer com que as lavas do vulcão explodam sem medo de serem felizes. Imagine uma tampa gigante voando pelos ares e caindo lá na Ilha de Páscoa! Foi assim que eu senti. Mas a mania entra em casa na ponta dos pés e não percebo que é ela chegando. Só vejo que era ela devido ao caos que ela deixa.

Bom, eu não me lembro de ter ido pro quarto, só lembro de estar lá. Lembro de ter aberto meu cofrinho com uma fúria de ladrão chapado. Lembro de ter pego moedas na mão e depois só lembro de estar na frente da vendedora da mercearia e pedir uma gilete. Na hora eu não conseguia perceber pra que era aquela gilete. Eu sei pra serve uma gilete e o que ela faz, mas naquele momento eu não entendia porque eu precisava dela. Na verdade eu nem pensei muito, eu só agi. É tão mecânico, automático, que sempre fico meio receosa depois. Daí há lacunas que eu chamo de lacunas de deslocamento (eu que inventei esse nome), pois eu não lembro como fui nem como voltei pra casa, como subi pro quarto ou se fiz algo mais durante esse trajeto. Queria poder lembrar acordada de todas as coisas em detalhes como antigamente. Agora só em sonhos mesmo.

Enfim, lembro de estar sentada na beira da cama com um incômodo mental e uma irritação que parecia entalhada nos ossos do crânio, daquelas que faz um ser humano querer matar outro ou se matar, sei lá, não consigo imaginar nada mais drástico pra tentar explicar. Lembro do primeiro corte no braço, que depois vi que foi um pouco mais fundo, não lembro dos demais cortes, simplesmente não lembro e odeio não lembrar. Olhando as cicatrizes parece que eu quis brincar de jogo da velha no braço. Por um segundo lampejou na minha cabeça que meu corpo morada do Espírito. Esse lampejo de lucidez junto com as posteriores dúvidas ecoam na minha mente até agora.

Não sei porque eu não consegui me cortar mais fundo ou mais vezes. Ou a gilete escorregava, ou eu tremia, ou não tinha força, não sei. Sei que meu irmão ligou láááá de longe e eu não entendi nada do que ele dizia. Talvez nem ele. Pelo que me contaram ele ligou mais de uma vez e eu só lembro de uma, mas não sei o que disse a ele nem o que ele me disse. Minha irmã destrancou meu quarto com a chave reserva e só lembro de depois vê-la trazendo vinagre e algodão para parar o sangramento. Minha mãe apareceu rápido e eu fiquei imaginando se tinha saído do trabalho cedo. Daí comecei a ficar mais lúcida, mais calma e depois resignada com a retirada de todos os objetos perfurocortantes do meu quarto. Não me sobrou nem uma espátula de unhas, nem sequer espelho me deixaram.

Porque eu me cortei, meu Deus? Fico aqui só pensando e pirando com os meus botões. Será que foi o gasto da energia que eu não tinha que me deixou zuada das idéias? Será que minha mente entendeu que se eu não posso machucar quem me contraria ou irrita eu tenho que me machucar? Eu queria passar a gilete em alguém? Era alguém que eu amo e por isso eu fiz em mim o que não podia fazer nesse alguém? Será? Porque que quando eu me irrito muito ou me canso demais eu fico logo doente? Será que meu cérebro acha que eu preciso dar vazão à energia descontrolada de forma violenta?

Por favor, Senhor, que eu não desconte nunca nos outros e nunca mais no meu corpo, que é morada do Espírito Santo! Em meio às dúvidas, essa é uma das poucas certezas que eu tenho. Não há força ou doença nesse mundo que me tire essa certeza, apesar de meu episódio de auto-escarificação ter sido nomeado até de “opressão satânica”. Nem me perguntaram nada antes. “Opressão satânica” e ponto. Pra quem tem as convicções que eu tenho isso chega até a doer.

Mas às vezes dá até vontade de rir quando as pessoas não sabem de algo e ao invés de procurar saber, investigar, pesquisar, já vão tirando conclusões baseadas em aparências e na sua ignorância. Não sinto raiva, pois eu também sou ignorante em muitas coisas, mas eu tenho a vantagem de ser curiosa e gostar de investigar tudo antes de bater o martelo. Acho que é o mais sábio também. Me dirigem essas conclusões falhas, eu me sinto mal na hora e acho graça depois. Mas preciso me esforçar pra não sentir pena de quem é assim. Dizem que às vezes a ignorância é uma bênção. Pode ser, mas nesse caso a ignorância foi, na falta de palavra melhor, tragicômica.

Queria tanto entender tudo e preencher as lacunas! Como eu fiz tudo, como as pessoas começaram a aparecer do nada, de modo que no início da noite a casa estava cheia de família. Meu tio sentado na beirada da minha cama me mostrando que a família sabe da minha situação, não me julga e no final são eles que contam na minha vida antes de qualquer outra pessoa ou grupo de pessoas. Minha irmã de 10 anos nunca tinha suspirado de alívio de maneira tão profunda. Ela chorou e não conseguia falar. Tive que perguntar. Eu disse: “Só balança a cabeça tá?! Tá com medo?” Ela balançou a cabeça pra um lado e pra outro. “Tá triste?” Dessa vez foi pra cima e pra baixo. “Ficou com medo que eu morresse?” De novo ela mexe a cabeça pra cima e pra baixo.

Eu a abracei pensando por um momento que ela deveria ter sido poupada disso tudo. Mas sei que é melhor ela saber que tem uma irmã mais velha que é quase normal (ou quase louca), que existem doenças físicas e mentais estranhas e sem cura, que a vida às vezes é complicada e que ela, uma hora ou outra, vai ter que engolir o choro, levantar e continuar andando como todo mundo. A meu ver, poupar as crianças de todo e qualquer sofrimento não deixa espaço na vida delas pra que aprendam a superar sozinhas. Expliquei o que aconteceu de um jeito que ela entendesse pelo menos alguma coisa. O episódio pode tê-la traumatizado ou não. Mas eu estou aqui de olho, orando pra que tudo dê certo. Depois desse momento todo mundo foi embora, tomei meus remédios e dormi.  }ï{

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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2 respostas para Devaneios, lembranças e sonhos – parte III

  1. Alice disse:

    Olá Lola! depois que li o que vc escreveu acho que consegui ver as coisas um pouco diferentes, meu marido tem um transtorno de personalidade,e é muito difícil para ele e para mim também, estamos tentando entender isso tudo, mas vc colocou de uma forma que me mostrou como é estar do outro lado e como é difícil ter o controle das ações , meu marido já havia me dito isso e eu não tinha conseguido entender. Não perca a fé em vc mesma! bjs Alice!

    • Lola disse:

      Olá Alice!
      Muito obrigada por ler o texto e por estar adquirindo essa compreensão. É extremamente importante que se entenda ou ao menos respeite o estado de sofrimento mental das pessoas com quem convivemos. Esse entendimento já é um grande passo para uma melhora. Abraço!

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