Devaneios, lembranças e sonhos – parte V

Pode parecer estranho eu demorar tanto para dar o desfecho dessa coisa de ‘Lola sonhadora’ (soou novelístico), mas os acontecimentos justificam eu ter ficado fora do ar tanto da internet quanto da minha vida mesmo (pra variar). Pra começar tivemos a maior enchente que meu estado já viu. Na minha casa a água ficou quase na altura da cintura. Computador desmontado, mudança pra o apartamento, escassez de muitas coisas, menos de cansaço e preocupação. E para arrematar a situação eu ainda sofri um acidente de moto. E não, eu não caí sozinha. Sou habilitada há 10 anos, motoqueira há 9 (inclusive meu irmão diz que eu dirijo e piloto como homem, o que pra mim soa como elogio). Porque algumas mulheres me perguntaram se eu caí sozinha? Já os homens perguntaram se eu bati em alguém ou se alguém bateu em mim. A última opção e que é a verdadeira.

Fui atingida pelo motoqueiro fantasma. Fantasma mesmo, porque não vi o dito cujo, não lembro dele nem do acidente, devido à “pancadinha” na cabeça que me fez ter uma concussão e só acordar na ambulância tentando lembrar meu nome e outros dados pessoais. Ficaram uma lacuna na memória, um lombo na minha testa que me deixou a cara do Cérebro (parceiro do Pinky) e uma cicatriz na perna que ainda dói. Penélope Zula (minha moto) também foi hospitalizada na oficina mas o serviço não foi de meu agrado. Sempre fico na oficina enchendo o saco do mecânico quando tem revisão ou troca de pneus mas, como não podia sair de casa, Penélope Zula ficou sem meu apoio. Eu queria estar lá pelo menos segurando a luva da direção, passando a mão na carenagem e expressando todo o meu apoio à minha companheira de alegrias, corridas, tristezas e pneus furados.

Enfim, parece até uma brincadeira de mal gosto mas não é. Quando pedimos para ter paz aí é que as batalhas começam. Mas é o método que Deus emprega às vezes para nos fazer aprender. Cada ser humano aprende algo com as lutas, dentro daquilo que necessita aprender. Infelizmente alguns não aprendem. Amolecem e continuam pedindo que outros façam para eles. Ou pior, endurecem e azedam pro resto da vida. É como cenoura, ovo e café. Quando passados pela prova da água fervente cada um reage de maneira diversa: a cenoura, mimada que é, amolece e solta a casca com facilidade demais; o ovo, ranzinza, endurece por dentro e continua de casca dura; já o café, mesmo com o amargor da vida, dá um jeito de encontrar a doçura em algum lugar e se aperfeiçoa virando algo apreciado. Sejamos café! De preferência com leite porque eu detesto café puro e leite puro, mas os dois juntos formam uma dupla imbatível.

Bom, deixemos de contar as bênçãos de enchente e acidente (pois são águas que fervem e realmente são bênçãos, mas falo sobre isso depois) e vamos ao que interessa e que nem a concussão me fez esquecer: meu 3º e último sonho antológico dos dias em que estive na desgraçada-maldita-inacreditavelmente-sofrida-crise-maníaco-depressiva (com direito a psicose e atitudes involuntárias de auto-destruição, típicos do desequilíbrio bioquímico do cérebro de todos nós transtornados mentais).

Considerando meus sonhos naquele momento difícil eu acho que entendi porque meu inconsciente, o meu córtex cerebral (ou seja lá qual for a área do cérebro responsável pelos sonhos) ficou me mandando imagens, situações e até sensações pós despertar, e também porque eu não esqueço deles nem dos detalhes. Primeiro sonhei com alguém querido velando meu sono em um momento no qual eu via tudo ao meu redor totalmente cinza, sem colorido, alegria ou esperança, e no qual eu me via tão vulnerável e desprotegida. Depois, no dia seguinte, sonho com uma vontade inconsciente, que depois veio à tona, de desistir do meu mundo, das minhas pessoas, da dádiva da vida e me hospedar em um hotel onde tudo parecia iluminado, tranquilo, alegre e sem todo aquele sofrimento mental, só luz.

Isso aconteceu nos dias 17, 18 e 19 de Dezembro de 2011. O sonho da noite do dia 19, pra mim, tem a ver com a maneira como acordei nesse dia e com os dias anteriores. Nesse período fazia mais de duas semanas que eu estava com medicação nova. O efeito de  psicofármacos costumam variar de pessoa pra pessoa. No meu caso a medicação nova começou a me dar um pouco mais de vida a partir da 2ª semana, e como um cérebro que está entupido de psicotrópicos funciona diferente de um que não está, eu creio que meu subconsciente foi reagindo aos estímulos à medida em que o meu cérebro recobrava o equilíbrio bioquímico e a regularização dos hormônios cerebrais.

Mas isso é o que eu sinto e observo em mim mesma. Afinal, são quase 10 anos de tratamento, consultas, crises, remédios e uma vida inteira de loucura que primeiro todo mundo pensou que era extroversão e alegria, depois todo mundo pensou que era frescura e chororô pra chamar atenção. <Início da lembrança chata> Acho que a medicação só não fez efeito mais depressa nesses dias e os ataques de pânico apareceram porque nesse período eu tive certos aborrecimentos, estresses emocionais e mentais, críticas e cobranças sem razão e encarei situação de tensão sozinha e sem condições mentais ou emocionais para me defender adequadamente.  E ainda me vieram com conselhos não solicitados tentando me coagir a não mais escrever como escrevo no meu próprio blog. Ou conselhos molestos de pau mandado que não sabe resolver nada só. Simplesmente não tiveram dó, não consideraram minha situação e mandaram bala. Eu era uma cachorra morta e alguém estava me chutando. <Fim da lembrança chata>.

Bom, chegou enfim 19/12/11 e nesse dia minha mãe, como nos dias anteriores, me acordou mais cedo com algo pra comer e os remédios da manhã. Eu comia e tomava a medicação praticamente dormindo, virava e ferrava no sono de novo. Às vezes nem lembrava que ela tinha ido ao quarto me alimentar e medicar. Graças a Deus pela minha mãe! Mas nesse dia 19 acordei me sentindo um pouco mais positiva, um pouco mais viva, mais disposta, conseguindo me alimentar um pouco melhor e até com vontade de sair do quarto, tomar banho, escovar os dentes e pentear o cabelo. Acordei com menos sensação e desejo de auto-vitimação e auto-destruição (características de um cérebro deprimido ou maníaco-depressivo). Ainda me sentia abatida e fraca mas eu sentei na cama e orei, lembro vagamente. Na verdade nem foi uma oração pensada, com palavras definidas (nesse período nenhuma era).

Simplesmente elevei meu pensamento a Deus com uma leve sensação de vida, paz, gratidão e um certo alívio. Não disse nada, nem pensei em palavras. Só chorei um pouco antes de me levantar e entendi que se eu estava viva eu deveria lutar pela minha saúde e pela minha vida. Deus me fez nascer por alguma razão e ainda não havia me deixado morrer. A vontade dEle estava posta ali na minha cara, no meu corpo, no meu coração que batia, no meu cérebro que, bem ou mal, funcionava, nos meus olhos que viam, ouvidos que ouviam e na minha respiração por vezes profunda ou pesada.

Eu não precisava perguntar se Ele queria que eu me esforçasse e lutasse contra a minha doença. Deus estava me mostrando isso nos cuidados da minha mãe, na manifestação de apoio dos meus tios, no fato de minha irmã me arrastar pro banheiro e me dar banho, no fato de as medicações estarem surtindo algum efeito devagarinho, no fato de eu ter condições de ir ao psiquiátra e comprar os remédios. Não é só na Bíblia que eu tenho minhas respostas. Quando eu sofro, quando passa, quando eu oro e sinto paz eu sei que Deus indica os caminhos. Nessa noite eu deitei e dormi tão tranquila, sonhei e lembro.

O lugar era algo como um deserto seco de dar gosto, com um sol tinindo, um calor horrível que eu acho que nem era desse mundo e uns barrancos altos. Ao lado de um dos barrancos havia uma tenda precária, feita de galhos tortos e um grande pedaço de couro todo esburacado que servia de cobertura e parede. Havia homens gorduchos lá dentro, com roupas meio esfarrapadas, dentes meio sujos, em alguns faltavam uns incisivos ou caninos. Um deles usava um avental e estava afiando uma arma branca, só vi faíscas. Por trás do barranco dava pra ouvir um som como se ouve naqueles filmes de guerra. Gente gritando, cascos de cavalos, espadas retinindo mas nenhum tiro ou explosão. Era uma batalha das antigas: na lança, no bastão, na espada, no machado, na flecha. Haru! Haru! Haru!

Eu vinha chegando na tenda e o velho gorducho de avental me perguntava se eu não ia escolher minha arma e dizia que eu estava atrasada. Ele me mostrava uma mesa com armas brancas. Lembro de punhais e espadas de vários tipos: de lâmina larga, fina, de ponta curva, com gume de um só lado e dos dois também. Vi também vários tipos de empunhadura. Peguei um punhal e larguei. O velho gorducho me mostrou uma espada longa com empunhadura em forma soqueira que eu testei mas não gostei. Enfim achei uma que me agradou.

Não era muito longa, tinha gume dos dois lados mas de um lado a lâmina era reta, do outro a lâmina era curva o que fazia a espada parecer mais um facão. Mas como brilhava aquela lâmina! Eu poderia fazer aquela espada de espelho se eu quisesse. Mas o que me chamou atenção foi a empunhadura: era curta, larga, arredondada na ponta e lisa. Ou seja, eu  talvez não conseguiria segurar bem firme e ela poderia escapar facilmente da mão. Na verdade eu amei aquela espada e fiquei sorrindo com ela, dando golpes no ar. No primeiro movimento ela quis escapar da minha mão e o gorducho perguntou se eu tinha certeza de que era aquela. Eu tinha certeza! Saí dali provavelmente pro meio da batalha, com aquela espada afiada, de um lado reto, do outro curvo, mas difícil de segurar.

Acordei sem mais detalhes, mas lembro de tudo isso. E de tanto tempo considerando e pirando na batatinha eu acho que posso dar meu parecer, que pode estar certo ou ser só doidice, sobre a minha vida nesse período. Primeiro me senti desprotegida, sem cor, sem vida, sem esperança, contando apenas com uma pessoa que me velasse de longe pra eu sentir calor humano. Isso porque achava que não poderia contar com a compreensão de meus familiares. E durante todos esses anos eu praticamente mendiguei compreensão, apoio e carinho nos lugares errados, nas pessoas erradas, enquanto minha família estava bem ali. Acontece! Foi um aprendizado.

Depois quase desisti. Três vezes (uma recente e duas há alguns anos) minha insanidade foi maior que a razão e deu lugar à vontade de largar tudo, partir para glória, me jogar nos pés de Deus, ou nos Seus braços. Onde tudo é luz, onde tudo é claro, iluminado, alegre e tranquilo. Onde há paz. Mas minha mansão celestial talvez não esteja pronta, talvez já esteja mas eu ainda não posso morar lá. E não há hotel lá por perto para ficar esperando que Jesus bata na porta e me dê a chave. O hotel é por aqui mesmo e nem sempre é tão iluminado e bonito. Nem sempre eu vou usar vestidinho esvoaçante como em propaganda de perfume. Alguns dias eu nem banho vou querer tomar, nem comida vou querer, e vou chorar muito. Não acabou a luta. É todo dia.

Isso me leva à terceira consideração. Já que a luta é todo dia, então eu preciso escolher minhas armas. O Senhor mesmo permitiu que eu tivesse lutas desde pequenininha. Entendo que isso foi pra que eu aprendesse desde cedo a lutar, a me proteger, a me cuidar e ajudar a quem atravesse meu caminho com lutas semelhantes. Nem sempre o treinamento foi pro lado certo, nem sempre as lutas foram ganhas e muitas vezes deixaram feridas tão fundas que chegaram a rasgar a alma. E isso deixa cicatrizes feias.

Cicatrizes na maneira de abrir o coração para os outros, na maneira de confiar nas pessoas e me relacionar. Muitas vezes criando naturalmente um personagem, uma casca, pra me proteger. Mostrando armadura, lança, espada, risadas, simpatia. Verdadeiras, mas inseguras: “Se eu falar algo errado fulano(a) não vai mais querer ser meu/minha amigo(a)”. “Se eu fizer algo errado vou perder essa amizade”. Pensamentos de uma criança que só foi brincar com outra pela primeira vez aos 5 anos de idade. Pensamentos de quem confiou em muitas, mas muitas pessoas erradas durante quase 29 anos de vida (tô ficando velha). Pensamentos de quem ferrou muitas amizades por ser pecadora em primeiro lugar e maníaco-depressiva sem saber.

Dacidi lutar e já mandei meu recado no primeiro dia do ano quando em vez de desejar Feliz Ano Novo eu desejei a todos uma Feliz Armadura Nova. Todos precisamos de proteção. Mas foi só eu fazer isso e a guerra começou (pânico, enchente, acidente). Mas agora eu tenho uma espada que parece a minha saúde: tem dois lados diferentes, é difícil de segurar, escapa facilmente do controle, mas se eu for cuidadosa eu posso lutar até o fim. E quando eu esquecer o motivo pelo qual O Senhor quer que eu continue lutando e não desista da batalha, da minha vida, da minha saúde, da minha família, daqueles que amo, eu posso virar a espada reluzente e ver meu rosto refletido na lâmina. Como um espelho pra que eu me veja e me lembre o quanto eu sou preciosa pra Deus e quanta dor e humilhação Jesus  sofreu pra salvar minha vida.

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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