A depressão é falta de Deus?

O artigo abaixo, de Giselle Fachetti Machado, foi enviado pelo amigo, colaborador e, também bipolar,  João Carlos. Vale a pena ser lido pois é bem esclarecedor. Somente omiti alguns termos (como ‘endógena’), se referindo à depressão para não causar uma certa confusão na mente dos leigos e fazê-los pensar que exista algum tipo de depressão que não seja doença, porque não existe. Meu diagnóstico é de bipolaridade do tipo II, então eu passo pela depressão com mais frequência do que pela hipomania, então sei bem o que é isso. Os destaques em negrito no texto são meus. Obrigada mais uma vez João Carlos, amigo e solidário das mesmas lutas que eu, por compartilhar o texto. Leiam com carinho:

As pesquisas científicas mais recentes são categóricas em afirmar que a fé religiosa interfere positivamente na capacidade de recuperação de um doente. Por outro lado, existem pessoas que atribuem à sua fé religiosa seu estado de saúde plena.

Sem dúvida, a fé é um recurso transformador da mente, porém, sem discernimento ela deságua no fanatismo e no preconceito, o que é sempre pernicioso. Os bens espirituais não são materiais ou físicos, por isso, as bênçãos divinas não podem ser medidas pelo sucesso financeiro ou pelo vigor físico de um indivíduo.

Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam.” Mateus 6:20

O que pretendemos discutir neste artigo é o outro lado da moeda. Será o doente um indivíduo sem fé, sem Deus? Será que o otimismo, o pensamento positivo, a boa vontade, a fé em Deus são suficientes para que tenhamos saúde?

Todas as doenças têm causas multifatoriais. Existe um componente físico, um emocional e outro espiritual. A conjunção dos três níveis de desequilíbrio é que abre as portas do organismo humano para a instalação de doenças.

Choca-me a forma recorrente e incisiva com que pessoas esclarecidas, atuantes dentro de comunidades religiosas das mais diversas, afirmam que para elas a depressão é falta de Deus. Como se se tratasse de uma questão de escolha. Chegam a cogitar que os medicamentos antidepressivos seriam os responsáveis pela doença. É lastimável que essa visão distorcida seja tão presente em nossa sociedade.

Trata-se de questão relevante, pois o doente com depressão tem ao seu lado, em sua família, pessoas com esse pensamento. O que resulta em um retardo no diagnóstico, prolongamento do sofrimento do deprimido e sabotagem de seu tratamento. Essa visão se transfere ao doente e ele sente-se ainda pior. Considera-se fraco, incapaz ou indolente.

As pessoas que assim pensam cometem vários erros do ponto de vista médico e outros tantos do ponto de vista evangélico. Elas assim agem por interpretarem os sintomas dessa doença como puramente emocionais ou como falhas de caráter. Desconhecem os mistérios da mente em sua interação complexa envolvendo o universo biológico, emocional e espiritual.

O religioso precipitado julga o doente ignorando o verdadeiro mecanismo da sua doença, que é expressão de anomalia física e não de anomalia de caráter. Assim como o diabetes traduz a falta de insulina, a depressão reflete déficit de neuro-hormônios no cérebro.
Existe, logicamente, um intricado emaranhamento entre questões emocionais e o curso mais ou menos favorável dessa condição, como em qualquer outra situação de desequilíbrio orgânico.

Portanto nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não só trará à luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações; e então cada um receberá de Deus o seu louvor.” I Coríntios 4:5

É interessante como a humanidade repete, incansavelmente, os mesmos erros de seu passado. Os hansenianos contemporâneos de Jesus eram tidos como malditos e pecadores, como vítimas do castigo divino.

Sob o prisma da medicina sabemos que humor é uma função da mente regulada por neuro-hormônios. A pessoa com distúrbio do humor não está triste ou alegre. Ela está deprimida ou eufórica. Em medicina não são sinônimos, podemos ter uma pessoa deprimida e alegre e uma pessoa em euforia e triste. A tristeza é um sentimento em reação a um fato exterior. A depressão não depende de causa externa.

Quando ocorre uma diminuição da produção de neuro-hormônios, especialmente da serotonina, ocorre alteração do humor no sentido da depressão. A euforia é mais rara e, associa-se a um distúrbio da mente mais severo conhecido como doença bipolar.

A depressão, portanto, reflete déficit de neurotransmissores e a etiologia desse déficit por sua vez é multifatorial. A influência genética é bastante evidente. Trata-se de condição mais frequente na mulher em função da flutuação hormonal que ela sofre. A progesterona, hormônio da segunda fase do ciclo e, da gravidez, predispõe à depleção de serotonina, por isso a tendência feminina para alterações do humor na fase pré-menstrual.

Trata-se de doença com caráter cíclico e recorrente. Os episódios de depressão costumam ser longos durando entre seis meses e dois anos. Em suas formas graves pode levar a uma profunda apatia, sensação de intenso pesar que pode levar o deprimido até extremos como o do suicídio.

As formas leves muitas vezes são negligenciadas, pois tem manifestação de algo diferente. A pessoa fica irritada, ansiosa, intolerante, pode desenvolver pânico ou comportamento obsessivo compulsivo. Mesmo em sua forma leve a depressão compromete bastante a qualidade de vida do seu portador, compromete ainda seus relacionamentos profissionais e pessoais. São pessoas tidas como chatas, arrogantes, perfeccionistas, intransigentes ou cheias de manias.

A Distimia é um distúrbio crônico do humor, uma forma mais leve de depressão que se caracteriza por persistir por períodos maiores que dois anos e por manifestar-se com humor mais irritável do que depressivo.

Os exercícios físicos liberam endorfinas na corrente sanguínea as quais tem ação antidepressiva natural. O chocolate, fonte de triptofano, um precursor da serotonina, também tem ação antidepressiva. Atualmente existem medicamentos seletivos e seguros para o tratamento da depressão. São os antidepressivos, que não devem ser confundidos com sedativos, hipnóticos ou tranquilizantes. Estes últimos causam dependência química, o que não acontece com os medicamentos específicos para depressão.

Infelizmente, drogas ilícitas e lícitas, como o álcool, também têm algum efeito antidepressivo transitório. Isso leva, comumente, ao seu uso abusivo pelos doentes em função de um busca por alívio instantâneo do desconforto que os consome, especialmente, naquelas pessoas que não se sabem ou não se admitem doentes.

Assim, o risco de desenvolvimento de dependência química entre os deprimidos é aumentado. Não é incomum que o diagnóstico de depressão só seja feito após a instalação de uma dependência química, especialmente entre os adolescentes.

Os antidepressivos ainda que bastante eficientes devem ser associados a exercício físico e ao suporte emocional para que se obtenha um bom controle das crises depressivas. Tal medicação pode ser usada por extensos períodos, de acordo com a forma da doença e a necessidade de cada doente.

O suporte espiritual é também fundamental para o depressivo. Reduz ainfluência exterior negativa (obsessão) e, aumenta a capacidade de reagir à doença através da busca serena de soluções seguras. Quando afirmamos que a depressão é falta de Deus estamos julgando um doente como um simulador ou como um auto-agressor. Estamos julgando o doente como fraco e sem vontade. E pior, como distante de Deus. Quantos enganos em relação ao Evangelho do Cristo? Ele, O Cristo, nos conclama a não julgarmos, a sermos compassivos e misericordiosos.

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;” Mateus 5:7

Todas as doenças enfrentadas com o auxílio divino são mais leves e tornam-se instrumento de educação do espírito. Tendo fé a nossa dor tem um sentido, faz parte de um conjunto de bênçãos do Criador em favor de nossa evolução rumo aos parâmetros celestiais. Com fé lutaremos pela vida e pela disposição, sem revolta e com inteligência.

Tendo fé usaremos todas as armas terapêuticas em nosso benefício e pelo tempo necessário conforme essa necessidade se imponha. Caso não precisemos de medicação, usaremos apenas os exercícios físicos e o apoio emocional como alternativa suficiente, já que múltiplos são os tratamentos eficazes em relação a essa doença.

A premissa que depressão é falta do que fazer, falta de Deus, chilique… é desinformada e cruel. A informação sobre essa condição permitirá que pessoas saudáveis acolham respeitosamente as necessidades dos doentes com os quais convivem. E, para finalizarmos, levantamos uma evidência óbvia de que a depressão não tem como causa, em hipótese alguma, a falta de Deus: os índices dessa doença são iguais entre ateus e teístas.

}ï{

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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12 respostas para A depressão é falta de Deus?

  1. Gislaine Lima disse:

    Muito bom Fa!!! Bjo…

  2. Nadja Reis disse:

    As últimas linhas são fato incontestável.Tenho Depressão(meu psiquiatra diagnosticou como Transtorno Bipolar,mas eu costumo chamar de Depressão porque é esta parte da doença que está me afetando com mais força)há aproximadamente 6 anos e sou ateia.E o fato curioso,é que,antes de eu desenvolver essa doença eu acreditava em Deus.

    • Lola disse:

      Oi Nadja! Obrigada por ler o blog e obrigada pelo comentário. A verdade é que, com relação às doenças, não importa em que ou em quem acreditamos. Nada nos fará ser imunes às doenças pois estamos todos sujeitos a elas e a outros males desse mundo. Fiquei curiosa pra saber o que te fez deixar de crer em Deus, mas isso é muito pessoal né?! E sobre seu transtorno, talvez você seja como eu, Bipolar do tipo II, que sofre mais crises depressivas do que crises maníacas, o tipo II tem hipomania. O sofrimento não é menor, mas quem tem crises maníacas em maior quantidade (Bipolar do tipo I) às vezes faz e fala mais besteira do que nós, põe em risco a própria vida e dos outros com mais frequência e de vez em quando precisa ser hospitalizado. Não é regra geral, mas acontece muito. Beijão! E boa sorte com o tratamento! =)

  3. Nadja Reis disse:

    Oi,Lola! Tenho lido seu blog há algum tempo(só desta vez com este texto que resolvi comentar algo rs).Cheguei até ele por meio do YouTube,até comentei num vídeo seu.
    Então,me interessei pela sua história,pela forma como você vê as coisas,sua sensibilidade,sua coragem de se expor(muita gente não tem),enfim…
    Sobre o que me fez deixar de crer em Deus? Olha,eu não digo que foi 100% por causa da doença,mas uns 80% foi.Inicialmente foi a doença mas,depois com o tempo,eu fui me aprofundando sobre temas como a Bíblia,religião,ateísmo,vendo os argumentos de ateus e agnósticos e isso tudo me levou a conclusão que eu cheguei.Ser ateu não é uma escolha(como muitos pensam)é uma conclusão a que algumas pessoas chegam,e comigo foi assim.Eu acreditava muito em Deus,sua existência para mim era algo inquestionável,eu rezava/orava todas as noites antes de dormir,e quando não fazia isso me sentia em falta com ele.Ocorre que,a medida que a doença foi se instalando,a tristeza,o desamparo foi tão grande(e ainda é)que a ideia de Deus parou de fazer sentido para mim.Eu pedia,pedia,pedia,incessantemente para que ele me curasse,para que me tirasse da situação na qual eu estava,e como eu continuava doente,eu fui parando de pedir,parando,parando,até que minha ligação com ele sumiu de vez.Foi um processo lento e gradual(nada do dia para noite),no começo eu não queria admitir,mas com o tempo eu fui vendo que era isso mesmo.
    Prefiro acreditar que ele não existe do que pensar que ele existe e não faz nada para me tirar dessa situação porque não quer.Entende? Isso é aquilo que os filósofos do ateísmo chamam de O problema do Mal.Como um Deus que é infinito amor e infinita misericórdia(e que tem todo poder para fazer o que bem quiser)deixa pessoas sofrendo,permite tanta dor e sofrimento no mundo? Enfim…são apenas coisas que eu penso.Espero que isso que eu falei não te irrite(alguns cristãos não gostam muito de ler/ouvir o que os ateus pensam que logo se zangam rs).

    Sobre o tratamento que estou fazendo,tomo dois remédios(fluoxetina 20 mg e lamitor 100 mg).Minha trajetória em busca da cura já me faz dizer que sou uma veterana,estou desde 2008 de porta em porta de psiquiatra,psicólogos,enfim…os remédios parecem não fazer muito efeito(e já troquei muitaaas vezes)…mas é isso,continuar tentando.No mais…

    Obrigada pelas palavras! Boa sorte no seu tratamento também!

    beijos

    😀

    • Lola disse:

      Hahahaha! Claro que não fico irritada nem me zango. Livre arbítrio é para cada um escolher o que quer crer, fazer, ter, ser etc. E respeito existe para conseguirmos conviver com nossas diferenças. Não concordamos, mas convivamos! Sobre tratamento eu sou mais veterana que você: me trato desde 2003 e já surtei, já tentei me matar, já tive trilhões de crises nas quais pensei que fosse morrer e troquei tanto de medicação que nem sei mais. Mas é assim mesmo viu! Tenha paciência porque tratamento psiquiátrico é como um quebra-cabeça a ser montado ao longo dos anos.

      E se eu sou corajosa o crédito não é meu. Minha coragem vem do alto! Se eu não me agarrasse tanto ao Deus nO qual eu creio eu não teria tido coragem de me expor e eu não estaria fazendo contato com tantas pessoas que passam por situação de saúde como a nossa, não estaria compartilhando experiências, trocando figurinhas, dando e recebendo palavras de amor e compreensão. Isso tudo é muito bom! Pense que se não fossemos bipolares, esta conversa não estaria acontecendo. E eu não conheço você de verdade, mas nossa condição nos assemelha e nos aproxima, pois um doente mental sempre vai procurar alento em alguém que saiba o que ele sente. E pra saber tem que passar.

      Devo dizer que encaro as coisas de um jeito diferente (notório por tudo que escrevo e compartilho). Pra mim Deus tem Seus propósitos, que são inatingíveis pelo meu entendimento humano e limitado. Só isso já me faz perceber como Deus é grandioso e sábio. Ele vê lá na frente, no futuro, e conhece como ninguém as criaturas que fez, incluindo nós. Essa é a minha posição! Mas também já passei por momentos de dúvidas, períodos tenebrosos que só me faziam ter o sofrimento mental avolumado.

      Mas no final das contas, depois de muita luta espiritual, entendi que Deus não me deixou adoecer à toa. Nada do que Deus deixa acontecer é de graça e nada passa despercebido aos Seus olhos. Nenhuma folha de uma árvore cai sem que Ele veja (lembra dessa?!). Deus não quer o sofrimento, mas não interfere em larga escala (digamos assim) porque os propósitos são maiores do que nós podemos compreender. Nós só vemos o que está posto: amargura, descrença, desamor, morte, miséria, violências mil… Ele vê o que nós não vemos, o que não conseguimos ver, saber, compreender.

      Só queria dizer que, depois de uma vida inteira de sofrimento mental (pois a doença e outras coisas começaram a me comer viva já nos primeiros aninhos de vida) é que eu pude perceber que se não fossem as dores da vida eu não teria me aproximado de Deus, eu não me esforçaria pra ser humana e compreensiva com as dores alheias, eu seria uma mulher orgulhosa e cheia de mim, eu seria muito impafiosa em dizer que transtornos mentais são frescura, eu ainda estaria dizendo que quem se mata não tem Deus na sua vida ou é um fraco, eu não teria nem um pingo de humildade, não seria sensível às dores dos outros, me acovardaria diante de todos os males e perigos e muitas coisas que aprendi eu não teria aprendido. Em meio a um turbilhão de sofrimento e dor eu tenho certeza do amor de Deus por mim e confio que tudo que Ele faz é o mais correto.

      Deus me conhece e sabe qual método usar pra me amaciar, pra me adoçar, pra me manter sob Seus cuidados, pra me manter na linha, pra não permitir que eu me destrua nessa vida. Isso me lembrou de um artigo que escrevi em outro site (vou deixar o link no final pro caso de você querer ler).
      Então, se o único jeito que Deus achou pra me amansar foi a dor, que seja! Tem um hino que diz: “Mais perto quero estar meu Deus de Ti. Ainda que seja a dor que me una a Ti.” Ter a certeza do amor de Deus em meio a dor é a sensação mais maravilhosa do mundo. Nada se compara. E se minha doença é difícil de encarar e dolorosa com Deus me consolando, sem Deus ela me tornaria alguém totalmente sem amor, amargurada, impossível de amar, impossível de sorrir e realmente sem cura. Essa é a minha experiência pessoal. Nem você nem ninguém são obrigados aceitar.
      Beijos Nadja, com muito amor! 🙂

      http://vivendocidade.com/saude-pra-dar-e-vender-episodio-final

  4. Nadja Reis disse:

    Bom saber que você é uma teísta tolerante.A maioria deles nos recebem com quatro pedras nas mãos! rsrs
    Respeito é fundamental.Minha mãe é evangélica,e apesar de ela não aceitar meu ateísmo eu a respeito e tento entender o ponto de vista dela(até,recentemente,comprei pra ela de presente de Dia das Mães um livro de devocionais).Exemplo de coisas que ouço dela ”quanto mais você se afasta de Deus mais doente você fica” ”você tem que pedir com fé” ”você não deve questionar os desígnios de Deus para sua vida”. Enfim,essas coisas…me desculpe,mas penso que o comportamento de muitos cristãos em relação às doenças mentais é muito errado e cruel(ainda mais para quem se diz seguidor de Jesus).Devo confessar que isto me irrita muito e me afasta ainda mais do Cristianismo.

    Sobre tratamento,de fato,você é mais veterana,além de mais forte(ao menos pelo que já li e vi de você).
    Já fui em 3 psiquiatras e em uns 4 psicólogos(se não me engano).Remédios já tomei uns 6 tipos diferentes(Pondera,Rivotril,Carbolitium,Lamitor,Velaxin,Fluoxetina).Mas é isso,continuar tentando e tentando.

    Bom,eu fico feliz que você tenha um apoio,um amparo.Eu invejo os que acreditam,porque eu,não acredito mais.Não porque eu não queira,mas porque não consigo mesmo.Muitos dizem que é nos momentos de dor que nos aproximamos mais de Deus.Já ouvi dizerem assim ”fulano só é ateu porque está bem de saúde,quando ficar doente rapidinho volta a acreditar em Deus”.Pois comigo foi exatamente o contrário.

    Quanto ao contato entre os que sofrem de doença mental,sim,é muito bom conversarmos uns com os outros,termos contato.Não só porque sabemos o que outro está passando e pelas palavras de afeto e compreensão que nos damos,mas(pelo menos a meu ver)porque assim nos sentimos menos sozinhos.A doença nos faz sentir isolados do mundo.

    Desculpe,mas este argumento de que é prova de Deus,desígnio de Deus,mistério de Deus não me convence.A mim tudo isso é apenas uma justificativa dos cristãos para continuarem acreditando.
    Interessante que você falou que pode usar a Bíblia para refutar os argumentos dos ateus,citando como exemplo a Física,mas eu,não vi até hoje,nada na Bíblia fazendo referência,por exemplo à Teoria da Evolução(a qual diz que possuímos um ancestral em comum com o macaco e que,ao longo dos anos mais e mais a ciência vem provando ser verdadeira),ou mesmo,à Teoria do Big Bang(que trata do início do universo,falando que o universo está em constante expansão),ou mesmo sobre os dinossauros,ou mesmo explicando porque,até hoje,um deus faria um universo de um tamanho tão monstruoso como o nosso e que colocou(ao menos até onde se sabe)vida apenas na Terra.Enfim,isso e muito mais coisas.

    Mas o assunto da conversa não é esse.Desculpe,mas é que quando tocam no tema Deus e ateísmo eu fico empolgada! haha

    Sobre a questão da doença mudar nossa comportamento,mudar nossa forma de ver o mundo.De fato,isso ocorre mesmo.Não que antes eu não me importasse com as pessoas,mas eu era um tanto quanto egoísta.A doença fez com que meus olhos se abrissem para as dores do mundo.Agora quanto ao comportamento de um doente ”sem Deus”,eu me considero uma pessoa humilde(procuro ser justa com todos à minha volta,pedir desculpas quando necessário e tudo mais).

    Sobre como estou hoje? Amargurada eu não diria,mas triste,profundamente apática,mais arredia ao contato dos outros,isso estou mesmo.Mas a capacidade de amar,esta eu não perdi.Amo muito.Mesmo não acreditando mais,se tem uma coisa que eu levo a sério nesta vida,esta coisa é o amor.

    Bom,eu estou assim porque,basicamente,me sinto só.Não tenho esperanças.Embora eu continue tentando,no fundo sinto que esta é uma luta perdida(talvez seja a doença falando por mim).

    Em 2008 eu passei num faculdade federal para Psicologia,mas larguei o curso porque não sentia condições de seguir com ele.Quase não saio do quarto,passo a maior parte do tempo lá,só saio à noite para comer,isso quando muito,não tenho ânimo nem energia para nada,quase não saio de casa(só pra ir ao psiquiatra mesmo),fico dias sem conseguir tomar banho,pentear o cabelo,escovar os dentes,minha cama vive bagunçada,quarto idem.O que para as outras pessoas é algo fácil,corriqueiro,para mim é um esforço digno de Hércules! Não consigo me concentrar.Qualquer coisa me põe pra baixo.Enfim…tudo parece ter perdido o sentido.Apesar de não ter coragem suficiente para me matar,eu te digo,todas as noites eu vou dormir desejando no outro dia não acordar.Essa é minha vida.

    Nossa,como eu escrevi! :O haha

    Desculpe o tamanho do texto,mas não tive como resumir. ;/

    Ah,e li seu texto. 😛

    beijos e fique bem,viu? 🙂

    • Lola disse:

      Não se preocupe com o tamanho do texto. Gosto que as pessoas escrevam. E de novo, eu não sou forte.
      Como diria o esquartejador, vamos por partes e rápido:
      Meu guarda-roupa está bagunçado desde mil novecentos e guaraná de rolha; meu cesto de roupa suja está transbordando; minha cama está toda bagunçada (até porque eu estou todo tempo deitada e só vim pro pc porque não aguentava mais ficar deitada, já já tenho que voltar pra cama); o piso do meu quarto é só poeira; também já passei 3 dias sem querer comer, sem tomar banho e sem escovar os dentes e de cabelo bagunçado; estou com infecção renal, ferida no colo do útero, um corpo estranho intra-uterino que parece ser um cisto, um carocinho na mama, suspeita de virose e infecção intestinal; estou sentindo dores abdominais que eu não sabia que existiam; estado febril e o abalo do organismo está me dando leves ataques de pânico durante a noite; de todos os remédios que você já tomou eu só não tomei um; estou afastada do trabalho desde que tentei me matar pela 3ª vez no final de Novembro do ano passado (com algumas poucas visitas ao meu setor). Mas eu sinto no fundo da alma que isso tudo vai passar.

      Quando falei sobre refutar os argumentos ateístas, não falei que poderia usar somente a Bíblia (apesar de poder), falei que poderia refutar com os próprios argumentos da ciência; se você nunca achou referências científicas suficientes na Bíblia é porque ainda não a estudou com cuidado: lá está física quântica, astrofísica, dinossauros, muito de medicina, muito de biologia, muito de química, muito de filosofia, bastante de psicologia e muito mais.

      Me perdoe mas sinto que a doença está falando por você (sou veterana lembra?!) e que você ficou amargurada por ter adoecido. Estamos com dor (de vários tipos) mas vai passar e vamos sempre renascer quantas vezes forem necessárias. A dor nesse mundo é inevitável, mas com Deus segurando a nossa mão ela se torna bem mais suportável. Mais uma vez, obrigada por ler o site e não se ofenda com nada do que eu responder, é com todo amor do mundo. Tenha paciência e aguente essa crise firme e forte. Eu sei que é devastador, eu sei! Mas aprendi que às vezes a gente mata a depressão no cansaço.
      Beijão!

  5. Nadja Reis disse:

    Por tudo que li e vi a seu respeito,eu te considero forte.
    A falta de energia e ânimo muitas vezes me leva a entrar em desespero.Desespero por não conseguir fazer as atividades mais triviais do dia-a-dia.Desespero por não ter uma vida normal.Desespero por ter muito forte dentro de mim a sensação de que nada,nunca vai mudar.Que as coisas ruins sempre vão acontecer comigo,que tudo que eu tentar estará fadado ao fracasso.Enfim…
    Sei que isso aqui não é uma competição do tipo ”quem sofre mais,quem tem mais problema”,mas só pra você ter uma ideia.Você fala em ficar 3 dias sem conseguir tomar banho,escovar os dentes,pentear o cabelo,etc…eu já cheguei a ficar 2 semanas sem conseguir tomar banho! Minha média é de 1 banho por semana e olhe lá,escovar os dentes idem,pentear o cabelo idem,sair de casa idem(tanto que minha família,quando me vê comparecendo à algum coisa,algum reunião familiar eles dizem ”nossa,a Nadja veio!”)Eu nunca saio.Sinto como se minhas pernas pesassem cada uma,uns 80 kg!Sinto meu corpo pesado o tempo todo.Pesado e lento.

    Lamento pela sua saúde física e espero sinceramente que você fique bem o mais rápido possível para que você possa ter mais energia para conseguir cuidar da saúde da sua mente.

    A Bíblia falando sobre dinossauros e astrofísica? Poxa! Disso eu não sabia…
    A mim aquilo tudo me parece um livro que só pode ser compreendido por meio da fé.

    Sim,eu não creio.Como já disse,não porque eu não queira,mas porque não consigo.Eu não sinto mais Deus,entende? Eu não sinto nada.Apesar de ter conhecimento de vários e vários argumentos de ateus e agnósticos,eu te digo,nada do que eles dizem causa em mim uma impressão tão forte,quero dizer,me convence tão bem que Deus não existe do que o fato de eu não sentir a presença dele.Isso pra mim é que é o mais determinante.

    Engraçado que quando eu comecei a adoecer,eu comecei a rezar/orar com mais freqüência,e ficava repetindo pra mim mesma e para todos com quem eu falava que sabiam da minha doença ”Deus não dá uma cruz maior do que possamos carregar”.Isso no início,bem no início.Então eu fui sentindo como se nada mais me ligasse ao mundo,nem a nada.Primeiro pensei que ele tivesse me abandonado,depois,muito depois foi que fui percebendo que entre meu problema e eu,eu só podia contar com as pessoas,com a ajuda delas mesmo.

    Sobre o livre-arbítrio na Bíblia:ele não existe.Porque basicamente o deus cristão diz: ”Ou você me segue e fica bem,ou você vai para o Inferno padecer por toda a eternidade” ora,ISSO não é livre-arbítrio,isso é coação! Desculpe a franqueza,mas é isso.

    Sobre eu ser/estar amargurada,talvez sim,talvez eu esteja mesmo.Sei lá…a doença fez uma revolução tão grande na minha vida que eu nem sei mais definir como eu me encontro.A revolução foi tão grande,que como você vê mexeu até na minha fé.

    Muito poética essa sua visão de Deus.É a visão que a fé te dá. 🙂
    Sobre a dor: sim,a vida é dor(já dizia Schopenhauer).Entendo isso,porém,para tudo há que se ter um limite.E a Depressão ultrapassa isso.A meu ver,a Depressão é um câncer na alma das pessoas(metaforicamente falando,claro).Um câncer que em mim só tem crescido mais e mais.

    Não eu não me ofendo com o que você diz,sei que você fala com boas intenções.Você fala pelo prisma de quem crê.Normal.
    Sobre ser forte.Eu tenho aguentado,viu? Muito mesmo,tenho feito um esforço IMENSO para conseguir viver minimamente bem.Tenho lutado e lutado.E estou orgulhosa de mim mesma por não estar cedendo tão fácil. 😀

    Ainda mais porque eu tenho o fator de não ter fé.Enfim,cada dia é uma batalha nova,um sacrifício novo.É como uma queda de braço,de um lado eu,do outro a doença.Tem dias que eu ganho,tem dias que ela ganha…mas no geral eu estou dando trabalho pra ela! haha

    Ah,mas uma coisa,me adiciona no Msn pra gente poder conversar? Gostaria de poder manter contato com você.

    beijoss 🙂

  6. Evandro disse:

    Muito bom, parabéns pelo seu Blog. Sou médico e faço mestrado em psiquiatria. Descobri por um vídeo seu no youtube. Fico feliz pelo seu altruísmo em compartilhar uma intimidade sofrida na esperança de ajudar outras pessoas. Vejo também que é muito bem informada e fico pensando se você é profissional da área ou jornalista. Parabéns também pela forma como escreve e pela sensibilidade. Pergunto se posso compartilhar alguns trechos de seu blog em aulas na faculdade de medicina e divulgar seu blog com pacientes ou se é algo mais caseiro. Felicidades pra você e sucesso em seus objetivos sempre!

    • Lola disse:

      Olá Evandro!
      Muito obrigada por ler o blog e pelo comentário. Não sabe como eu fico feliz com seu comentário, pois até hoje você é o primeiro especialista da área a comentar aqui, o primeiro médico. Obrigada pela atenção!
      Sobre minha área de trabalho, sempre me perguntam isso! Mas eu não sou jornalista (embora escreva além da conta rs), nem da área da saúde. Sou só muito curiosa e gosto de ler e aprender sobre o máximo de coisas que eu conseguir.
      E você pode sim compartilhar trechos do blog (dando os créditos, claro) e pode divulgar para seus pacientes sim. Vai ser ótimo compartilhar com mais pessoas. Mais uma vez muito obrigada pelo contato e obrigada por escolher a psiquiatria que, para mim, é a mais nobre área da medicina.
      Sucesso!

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