Quando as pessoas simplesmente se vão

Às vezes as coisas acabam, as pessoas se vão e temos que lidar com isso, sofrer. O segredo pra não sofrer seria não se apegar? Mas e quando precisamos fazer de conta que ali estão conhecidos (ou amigos em potencial), para podermos desmontar a armadura e poder trabalhar algo com alguém? Quando fazemos de conta que temos conhecidos para se ter uma boa conversa, um bom bate-papo, e depois somos surpreendidos (odeio surpresas) com o fato de que nossa mente pensou errado, o sofrimento é inevitável. Precisamos fazer de conta para poder desparafusar a armadura. O consciente sabe disso, mas o inconsciente não. Este puxa as perdas recentes (ou até as mais antigas) e joga tudo na perda atual. Seria uma perda realmente? Seria só um motivo que o corpo pediu para passar a tarde toda em depressão, chorando, e ter um ataque de pânico à noite?

Dar beleza a coisas que talvez não devessem ter, dar alto valor a coisas que tem um baixo custo e dar muito peso à leveza de uma pluma de passarinho, pode ser interpretado de maneiras distintas pelo consciente e pelo inconsciente. Queremos dar flores amarradas com cordãozinho azul à mãos delicadas, quentinhas e suadas que não estão lá para recebê-las de verdade, estão lá para trabalhar. Mas estas mãos seguram as nossas de maneira tão carinhosa que, ao percebermos que elas estão partindo, puxamos as nossas como se dissessemos: Já que vão embora então não me peguem pra que eu não me apegue. Mas isso é só como desligar o fogo quando o café já derramou. Quando alguém sente carências com relação a amizades, acaba vendo amizade em tudo que é lugar, até onde não deveria ver.

Mãos suadas, delicadas e que batem um bom papo. Foto by Lola.

Quando se sente falta de conversas que fogem do lugar comum, quando se sente falta dos ouvidos aguçados, quando se quer ouvir algo mais, demora pra digerir o fato de que não se terá mais isso, não se terá mais alguém que sabe trocar figurinhas com você perfeitamente. Outros podem trocar, mas não é a mesma coisa. Não foi para os outros que você desparafusou e desmontou a armadura da repelência, da resistência. Foi para uma só pessoa. Há várias armaduras e cada uma será (ou não) desparafusada e desmontada por aqueles que tiverem a sensibilidade de achar seus lugares mais vulneráveis. Quando alguém acha, desmonta e depois se vai, o inconsciente se confunde, talvez se irrite. Como assim? Já vai? Fique mais um pouco, vai ter bolo!

Não fique como o encanador que veio ajudar a arrumar a pia, ou como o eletricista que mexe na fiação. Fique como convidado, porque vale a pena ter você como convidado. Fique como ser humano, como amigo (ou conhecido), porque, embora o profissional tenha lido as instruções que eu passei, eu também olhei nos seus olhos e li o ser humano que ali estava. E é um belo ser humano, apesar de todas as mazelas que todos nós temos. Não preciso de encanador ou eletricista para as coisas que posso fazer sozinha, lentamente, me molhando ou pegando um choquinho. Preciso de seres humanos e talvez eles precisem de mim, não sei. Pena que os belos e inteligentes seres humanos sempre se vão de mim, e às vezes é porque precisam manter a coisa toda bem profissional. É consertar a pia, a fiação e partir, sem comer do bolo que eu fiz. Ces’t la vie!

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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