Lucubrações

Estrelas na cabeça

Starry Night (Noite Estrelada). Obra de Vincent Van Gogh, que também tinha doença bipolar e pra quem foi feita a música ‘Vincent (Starry, Starry Night)’ de Don McLean. <Vídeo abaixo>.

O BipolarCharts.com é um perfil do Facebook que gosto muito e hoje compartilharam algo que amei. Poucos sabem que a bipolaridade dá ao portador dessa doença super poderes características como criatividade, sensibilidade, capacidade imaginativa, inteligência e curiosidade acima da média geral da população. Talvez essas estrelas na cabeça sejam uma compensação pelo sofrimento que a doença nos causa. Coloquei o texto original (tirado do livro Life is What You Make It de Preeti Shenoy) e embaixo a tradução. O texto, bem como o perfil, é em inglês, mas eu fiz uma tradução assim de cabeça mesmo. Acho que dá pra entender. Enjoy your gift!*

“Creativity is closely associated with bipolar disorder. This condition is unique . Many famous historical figures and artists have had this. Yet they have led a full life and contributed so much to the society and world at large. See, you have a gift. People with bipolar disorder are very very sensitive. Much more than ordinary people. They are able to experience emotions in a very deep and intense way. It gives them a very different perspective of the world. It is not that they lose touch with reality. But the feelings of extreme intensity are manifested in creative things. They pour their emotions into either writing or whatever field they have chosen” (pg 181).

“Criatividade está intimamente associada com Transtorno Bipolar. Esta condição é única. Muitas figuras históricas famosas e artistas tem tido isto. Ainda assim eles tem tido uma vida plena e tem contribuído muito para a sociedade e para o mundo. Entenda, você tem um presente. Pessoas com transtorno bipolar são muito muito sensíveis. Muito mais do que as pessoas comuns. Eles são capazes de experimentar emoções de uma maneira muito profunda e intensa. Isto lhes dá uma perspectiva muito diferente do mundo. Não que eles percam a noção de realidade. Mas os sentimentos extremamente intensos são manifestados em coisas criativas. Eles despejam suas emoções de maneira diferente no que escrevem ou em qualquer outra área que tenham escolhido.” (pg 181).

*Aproveite seu presente!

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Confissões, Vlogs

Sem lítio por um dia, noite de hipomania

Minha hipomania aparece de levinho aqui e acolá, durante eventos ou visitas, quando preciso interagir com outras pessoas, no trabalho, em reuniões de padeiros(as) etc. Mas quando eu passo da hora de dormir ou simplesmente esqueço de um remédio (como o lítio que serve para conter crises maníacas) a dita cuja vem bater mais forte na porta. Se eu não abrir ela mete o pé e vai entrando, passando por cima de mim e fazendo a festa. Me deixa ligada a noite toda sem conseguir dormir. Isso quando minha cabeça não desliga de vez lá pelas tantas da madrugada, me obrigando a cair desmaiada pra um lado da cama. Fico taquilálica em algumas ocasiões, ou seja, falando muito e muito rápido. Quando estou sozinha falo como se estivesse conversando com alguém que, evidentemente, não está ali. Mas diferente do esquizofrênico, eu sei disso. Fico exagerada e impulsiva em risadas, gestos, respostas e normalmente não meço palavras. É energia demais querendo sair.

Quando isso acontece na frente de pessoas que não me conhecem ou não entendem minha condição (leia-se todo mundo que eu conheço) é uma vergonha, pois só vou me dar conta do que aconteceu quando adrenalina e Cia se aquietaram. Às vezes despejo zilhões de palavras praticamente ao mesmo tempo, tenho umas sacadas irônicas, ou falas sarcásticas que a maioria não consegue acompanhar. Isso assusta as pessoas e as faz achar que eu quero chamar atenção. Odeio ser o centro das atenções (tire pelo ódio de festinha surpresa e a vergonha de microfone que me faz perder a voz). Mas que pessoa extravagante assim não chamaria atenção? É um terror pra quem gosta de ficar quieta. A mania (mesmo a hipo) vem, dá sua festa, revira minha casa, me derruba, me faz passar vergonha, me chuta na cara e no estômago e vai embora. Daí vem a depressão, igual um lutador de MMA, e senta em cima de mim pra que eu não tenha chance de levantar pra arrumar a bagunça. Fico só arquejando no chão!

Minha cabeça parece o parque de diversões do meu transtorno. Tem gangorra, montanha-russa, trem fantasma. Acho que isso define bem minha situação. É um sobe e desce, é uma reviravolta, é um desce e sobe, é náusea, é risada, é susto, é pavor, é risada de novo, é sensação de queda, é medo…É UM HORROR! E pra aliviar esse horror, eu preciso de remédios. Os remédios não curam, por isso tem esse nome. Só servem para re-me-di-ar a situação. A cura acontece em alguns casos, mas não no meu caso. Até hoje não se descobriu cura para bipolaridade. Some-se à bipolaridade vários sintomas do transtorno de personalidade limítrofe e temos um pequeno caos apocalíptico acontecendo dentro de uma cabeça só, fazendo uma só pessoa sofrer.

E os remediadores da situação só servem pra eu não chorar por uma semana e por fim morrer desidratada, pra não me cortar ou furar, pra não sofrer de derrame por tanto bater a cabeça na parede, pra não quebrar os móveis do trabalho ou os de casa, pra não romper a prega vocal de tanto gritar, pra não sair arrebentando todo mundo no trânsito e ser detida pela polícia, pra não berrar para os colegas de sala calarem a boca, pra não levantar no meio do culto e dar umas porradas no pastor, pra não esfolar viva uma pessoa que me trate como menininha de 12 anos (Então, boniiiiitas!!); pra não estrangular alguém que diga “oi” com um sorrisinho de canto de boca parecendo uma Barbie, ou pra não escalpelar alguém que não faça nem isso. Trocando em miúdos, pra não me matar nem matar ninguém. Deus me ajude, mas até crianças bagunceiras me fazem respirar fundo pra não dar um chute.

Enfim, os remédios servem pra eu conseguir sobreviver a mim mesma e deixar que os outros sobrevivam a mim. Alguém poderia até questionar o porquê de Deus não me libertar disso tudo, sendo que eu creio tanto nEle. Mas meu Deus já me curou e livrou da única coisa que remédio nenhum daria jeito: o inferno. Perto dele qualquer apocalipse mental não passa de uma cosquinha. E Deus dá propósito pra tudo nessa vida, até pra essa bagunça que eu sou. O meu propósito talvez seja ter a doença e conviver com ela, simplesmente. É, talvez o propósito seja só esse: continuar eu viva pra mostrar aos outros que é possível viver, sorrir e ser feliz mesmo no meio dessa zona de guerra.

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Confissões

Amor tarja preta

O que eu tomo é branco e redondinho, mas também pode causar dependência.

Amor 2mg. Este medicamento não pode ser vendido, mas pode ser doado. Deve ser administrado com cuidado e deve haver acompanhamento do paciente pois, sem a presença do cuidador, o paciente poderá evoluir para um quadro de adoecimento severo conhecido popularmente como Saudade. Não é necessário tomar todos os comprimidos de uma vez. Basta um por vez, mas é importante que seja diariamente. Não suspenda o uso. Ainda que a melhora demore, ainda que a cura não aconteça e ainda que os efeitos colaterais sejam arrasadores. Não pare o tratamento jamais! No final das contas você vai ver que o importante não é a cura em si, é o próprio tratamento.

Alguém aí quer me dar uma caixa?

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Confissões

+ ou -?

Mais ou menos. O que existe entre os dois? A resposta engraçadinha seria : O ‘ou’. Mas mais ou menos nunca está bom, nunca é bom o suficiente. Só é mais ou menos. Mas, pensando em estado mental, o que há de fato entre o mais e o menos? A normalidade? A estabilidade? A felicidade? A regularidade? A estagnação? A mesmice? A linha da morte? Talvez a linha da morte ilustre bem o que existe entre o mais e o menos.

Ao ver alguém doente no hospital, com aquela telinha mostrando a frequência cardíaca na forma de um gráfico que qualquer bipolar facilmente associaria às variações de sua mente, vem ao pensamento a ideia de que quando aqueles altos e baixos estabilizarem no meio e se tornarem uma linha reta será a morte. É melhor ficarem subindo e descendo. Esses dias tivemos um acidente horrível na família. Quatro familiares ainda estão com suas linhas subindo e descendo (graças a Deus). Infelizmente um amigo da família que estava no carro agonizou por mais de 24 horas e por fim sua linha ficou reta. A linha naquela tela parou de subir e descer. Foi-se uma vida e talvez tenha ido sem arrependimento, sem confissão, sem salvação, sem Deus. Não pude fazer nada. Ninguém me deixou ir ao hospital pela cirurgia de retirada da vesícula que fiz recentemente. Ficaram com medo de infecção etc. Enfim…

Deus sabe que a estagnação de pensamento, o lugar comum e a mediocridade me matariam. Talvez por isso eu varie pra cima e pra baixo, para o mais e para o menos, para o voo e para o mergulho, para as nuvens e para o poço o tempo todo. Sim, porque mesmo minha “estabilidade” é instável e mesmo quando pareço estar “normal”, não estou de fato. É complicado de explicar, é tão sofrido e é difícil de gerenciar isso. As pessoas não sabem, não percebem, mas eu sinto o tempo inteiro. Ou estou hipomaníaca ou estou depressiva, mesmo que seja só um pouquinho de cada coisa. Às vezes me sinto o Bruce Banner, que está sempre com raiva e assim controla o Hulk dentro dele. Não estou sempre com raiva mas estou sempre mais ou menos, em todos os sentidos que o “mais ou menos” possa ter. E talvez isso não seja ruim. Talvez, aceitar minha condição seja uma forma de superá-la.

Não tenho a opção de ficar olhando para o meu copo tentando decidir se ele está meio cheio ou meio vazio. Ou estou mais da metade ou estou menos da metade. Sempre estou mais ou menos. Me perco nisso, mas depois de ler o livro Uma Mente Inquieta da Dra. Kay Jamison, percebi que estar mais ou menos é o que eu sou, é o que eu tenho a oferecer. Ser hipomaníaca e depressiva é estar ou mais ou menos o tempo inteiro apesar da medicação (que aliás, só me impede de subir nua no telhado e tentar voar ou de rasgar o pescoço desesperada com a faça da cozinha). Mas se Deus chegasse e dissesse pra mim: “Você vai ter só uma doença. Mas será crônica, porém te dou o direito de escolher. Escolha uma doença para carregar pelo resto da vida.” Eu não teria outra resposta além dessa: Senhor, eu escolho o que o Senhor já escolheu pra mim. A doença é esta que aqui está desde minha infância. Porque o Senhor só me dá o que eu consigo suportar e é Misericordioso para me dar forças para superar isso todos os dias.

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