O mel e o fel da ajuda

Me preocupar com os fracos ou novos (que se escandalizam até com o que não é escândalo) atualmente tem sido menos importante do que me preocupar com os que não conhecem a paz de espírito que Deus pode dar, mas que também precisam de uma ajuda rápida para o que é mais necessário no momento: salvar a vida e a saúde. Nem tudo é doença, mas há vários exemplos de grandes homens de Deus sofrendo de doenças, inclusive mentais, temporárias ou não. O profeta Elias foi um que enfrentou estado depressivo por esgotamento. Não sei qual resistência tinha Elias para enfrentar um desgaste emocional e físico como o que estava passando, ou qual descarga de adrenalina ou outros hormônios Deus permitiu para que Elias corresse do jeito que correu adiante de Acabe, que ia em carro puxado por cavalos, até a entrada de Jizreel (I Re 18: 45,46). Só sei que isso esgota!

Obra 'O sonho de Elias' de Philipe De Campanhe, 1650.

Obra ‘O sonho de Elias’ de Philipe De Campaigne, 1650.

Com o esgotamento surgiu um episódio de crise depressiva e Deus mandou um anjo para o alimentar, deixar que ele descansasse e alimentá-lo novamente para que recobrasse as forças. Deus sabia que garantir a vida e a saúde era necessário para que o profeta continuasse a caminhada. Deus sabia que a caminhada era o mais importante mas recuperar a vida e a saúde, naquele momento, era urgente. Muitos interpretam somente como uma tristeza muito grande sentida por Elias, mas a anedonia (incapacidade de sentir prazer pela vida), a prostração física e o desejo de morte juntos são provas de que não era tristeza, era um episódio depressivo, uma condição de adoecimento.

“Ele, porém, foi ao deserto, caminho de um dia, e foi sentar-se debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte, e disse: Já basta, ó Senhor; toma agora a minha vida, pois não sou melhor do que meus pais. E deitou-se, e dormiu debaixo do zimbro; e eis que então um anjo o tocou, e lhe disse: Levanta-te, come. E olhou, e eis que à sua cabeceira estava um pão cozido sobre as brasas, e uma botija de água; e comeu, e bebeu, e tornou a deitar-se. E o anjo do Senhor tornou segunda vez, e o tocou, e disse: Levanta-te e come, porque te será muito longo o caminho.” I Reis 19:4-8.

Quando as pessoas se dispõem a ir ao hospital ou em uma residência visitar um doente, não devem ir somente para dar apoio espiritual, devem ir preparados para dar apoio emocional e muitas vezes físico, no sentido de suprir necessidades como alimentação, remédios ou outro tratamento qualquer. Lembrando que transtornos mentais também são doenças, o ensinamento de Atos 20:35 também é válido para alguém que está em sofrimento mental, necessitando de tratamento, apoio e compreensão. Não importa o tamanho da sua ignorância sobre o assunto, não importa sua desinformação acerca da condição do doente. O que importa é que se há uma disposição em prestar assistência, também deve haver a atitude de gastar um pouco de tempo e neurônios buscando informações sobre o que fazer ou não fazer, o que falar ou não falar. Isso também é se doar e amar, é mais dar do que receber. Apoio errado ou pela metade não é demonstração de amor, é demonstração de uma tentativa de cumprir com convenções sociais. Isso não serve pra quem está sofrendo e não deveria servir pra ninguém, pois convenções sociais mais subtraem do que somam.

“Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é necessário auxiliar os enfermos, e recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber.” Atos 20:35

Note-se que o anjo mandado por Deus para cuidar do profeta Elias não confundiu a mente deste mais do que já estava confusa, não prejudicou suas emoções com julgamentos e nem fez com que se sentisse na obrigação de falar algo. O anjo foi completamente compreensivo pois Deus o mandara com as instruções e isto se observa bem quando da primeira vez que o anjo mandou o profeta levantar. Foi somente para comer pois ele ainda não estava em condições de fazer nada além. Primeiro o anjo proveu o que Elias mais precisava, que era a recuperação do corpo. O organismo estava prejudicado e dessa forma não poderia reagir. Mas note-se também que depois de perceber que Elias estava se recuperando o anjo cobrou-lhe uma atitude de levantar, se alimentar novamente e continuar com sua caminhada: E o anjo do Senhor tornou segunda vez, e o tocou, e disse: Levanta-te e corpo molecome, porque te será muito longo o caminho (I Re 19:7b). É preciso dar o mel quando o doente está muito mal, mas o fel é necessário quando o doente não tem atitude de levantar e buscar o tratamento que é preciso para melhorar.

É preciso ter muito cuidado para saber identificar quando a pessoa está lutando mas não consegue e quando ela simplesmente não está querendo lutar, está se escondendo atrás da doença, se aproveitando para não ter de encarar a vida de novo. Quantos acidentados se recuperam mas continuam puxando uma perna, andando de cadeira de rodas, usando muletas etc, para permanecer sem trabalhar mas recebendo benefício do INSS? São incontáveis. Uma atitude de “Sou doente e coitadinho“, “Não posso fazer nada“, “Não posso encarar a vida“, “Cuidem de mim“, “Sejam legais comigo e não me magoem pois eu sou doente“, se vê em todo tipo de condição médica e até em gente saudável. Porque não aconteceria em doenças mentais? Normalmente esse tipo de intenção se observa em quem está morrendo da doença mas não quer tratamento e também não dá motivo algum que justifique essa recusa em se tratar.

No caso de quem está em sofrimento mental mas não demonstra desejo de melhora (que talvez queira se aproveitar da situação) é bom ser mais enérgico de vez em quando, como o anjo foi com Elias da segunda vez, mandando-o levantar, comer e encarar o longo caminho. Muitos transtornados protelam o tratamento e colocam culpa no psicólogo, no psiquiatra, nos remédios, nas demais terapias, na família, nos amigos etc, com a intenção (muitas vezes inconsciente) de adiar a melhora. Muitas vezes se ressentem quando alguém cobra que se tratem. Já quem está em sofrimento mental mas quer melhorar, ter uma vida produtiva e encarar a selva lá fora, está desesperado para se tratar e para que o tratamento surta efeito logo. Alguém assim quer ajuda, busca todos os meios e às vezes acaba confiando em quem não tem disponibilidade ou conhecimento para ajudar. Acaba desabafando com qualquer um, pedindo colo a todo mundo e, frequentemente, sendo taxado de insuportável. Porém aquele que quer usar a doença como muleta também pede colo. Daí o cuidado, sensibilidade e consciência que devem existir ao se tentar estender a mão. Como ouvi de alguém uma vez: “Amor sem consciência machuca!”

Mas não quer ajudar? Então pelo menos não julgue nem atrapalhe. Quer ajudar? Então vá primeiro se informar para não causar mais dano a alguém que já está danificado. Nunca A-força-vem-de-Deusdiga “Me ajude a te ajudar“, pois quem está doente não tem condição de ajudar a si mesmo e nem de dizer ao outro o que fazer para ajudar. Quem está doente da mente não concatena as ideias direito, está com os pensamentos e as emoções vulneráveis e muitas vezes não consegue nem dizer o que está sentindo direito. “Me ajude a te ajudar“, “Se cuida” ou “Nos diga o que fazer” são frases prejudiciais a um paciente de transtornos mentais que está em crise aguda e não consegue cuidar de si mesmo. Acho que essas frases deveriam ser consideradas criminosas quando dirigidas a um doente mental em crise, tamanho é dano que elas causam. O doente pode se sentir obrigado a falar algo que não tem condição no momento, pode se expressar mal, pode se sentir culpado por não saber uma maneira de ser ajudado. Isso maltrata e piora o quadro. Experiência própria não se discute.

É preciso muita paciência (muita mesmo!), amor e perseverança. Isto é, se realmente quer ajudar, se realmente acha que esse transtornado mental vale a pena. E eu pessoalmente acho que todos valem a pena. Por mais difícies que sejam de conviver e conversar, por mais que eles próprios coloquem dificuldades para o tratamento, por mais que testem os limites da paciência de qualquer um com sua visão distorcida deles mesmos e dos outros, todos contam. Todos são seres humanos e todos precisam de ajuda. Seja o mel do suporte a quem está lutando, seja o fel do estímulo a quem não está. Tudo é ajuda. Digo isso não só como alguém que teve muitas crises, que esteve no limite, que quase morreu, que confiou em quem não devia, que desabafou com quem não entendia, que já se escondeu atrás da doença, que se conscientizou e que está lutando para se manter bem. Mas digo também como alguém que quer e se esforça para ajudar outros com os meios que possui.

favo de melConheço os dois lados: o de quem precisa de ajuda e o de quem quer ajudar. Garanto que nenhum dos dois é fácil. Sei que às vezes é preciso dar o pão, a água, deixar descansar, afagar, dar colo, ouvir… dar o mel. Mas sei também que às vezes é preciso dar o fel, ser mais ríspido e dizer: Levanta e come pois o caminho é longo! O problema maior é entender a que horas é que se deve dar o remédio doce e a que horas o remédio amargo. Eu sinto que a incompreensão e a dureza fora de hora de muitas pessoas me fizeram sofrer muito quando eu estava em situação crítica e precisando realmente de apoio. Ainda me fazem sofrer até hoje pois a ignorância nunca acaba. Mas eu sou muito grata a Deus pois sinto que Ele tem usado ternura e firmeza, cada uma no seu tempo, para me carregar quando eu preciso, mas me mandar andar sozinha quando é necessário.

“Levantou-se, pois [Elias], e comeu e bebeu; e com a força daquela comida caminhou quarenta dias e quarenta noites até Horebe, o monte de Deus”. I Reis 19:8

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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4 respostas para O mel e o fel da ajuda

  1. Bianca Panini disse:

    Belíssimo texto Lola. A comparação com um trecho bíblico para elucidar as necessidades humanas diante do sofrimento foi maravilhosa. Como psicóloga atuante na área de saúde mental reconheço bem quais são os momentos mais adequados para o mel e para o fel. Compreendo bem o “esconder-se sob a doença”, o que chamamos de ganho secundário e o quanto é difícil, mas necessário respeitar os que assim escolhem (inconscientemente).

    • Lola disse:

      Olá Bianca! Obrigada pela visita e obrigada pelo comentário. Realmente é difícil quando um cuidador ou as pessoas ao redor não conseguem identificar o momento em que o doente está incapacitado ou quando ele está mesmo “fazendo corpo mole”. É preciso paciência, consciência, convivência e muita busca por informações para discernir as fases da doença mental. Fico feliz que tenha gostado do texto. Abraço!

  2. Claudair Saar disse:

    Fantástica reflexão querida. Parabéns pela criatividade e desenvoltura.. Você consegue fazer ciência sem desprezar a fé. Sem dúvidas isso é talento.

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