Confissões, Lucubrações

Últimas impressões

memória emocional borderline

Para o border quem fica não é a primeira impressão, é a última emoção. Se as últimas emoções com relação a um indivíduo forem boas, o border se apega demais e se torna emocionalmente dependente. Mas se as últimas emoções forem ruins, elas maltratam muito porque geram mágoa e hostilidade contra o indivíduo causador dessas emoções desagradáveis. As duas situações estão interligadas. Se eu me apego a alguém de maneira doentia, evidentemente ficarei doentiamente decepcionada com as atitudes erradas desse alguém para comigo.

Pra mim a solução no caso do desapontamento é fazer a memória emocional exercitar o perdão e a compreensão com relação às falhas dos outros, até que as lembranças desagradáveis sejam só lembranças e não rancores. E como é difícil fazer isso! Pode levar muito tempo até conseguir um resultado. Para o caso do apego exagerado e da dependência emocional, às vezes eu tento forçar o desapego e me bastar sozinha sem necessidade de aprovação, companhias constantes ou reconhecimento. Achar o equilíbrio entre o apego e o desapego é muito difícil. O exercício precisa ser diário e o esforço é muito grande, pois é um processo emocionalmente sofrido.

Sei que muitos interpretam meus exercícios de desapego como falta de comunhão, isolamento, atitudes anti-sociais, mau humor ou falta de educação. Mas por causa do meu exercício de tentar perdoar o mau julgamento dos outros com relação a mim, é que eu tenho conseguido ao longo do tempo não sofrer tanto, não depender de opiniões externas, afinal os outros não sabem o que eu passo, o que estou fazendo ou porque eu estou fazendo.

Além do mais, em alguns momentos há um sentimento que me chega dizendo: Fique longe das pessoas pra não fazer mal a elas. Sei que o que eu faço é necessário pra aprender a não depender emocionalmente das pessoas quando me fazem o bem nem ter raiva delas quando me fazem mal. A sensação de causar incômodo caminha junto com o ressentimento dos que não me aceitam. Preciso treinar mais, pra me ressentir menos.

Na maior parte do tempo tudo funciona, mas ainda há situações que precisam ser muito exercitadas. Deus é o melhor treinador para esses casos. Graças a Ele já faz um bom tempo que eu consigo me sentir bem com a minha própria companhia (e sei que não estou só) e não ver como o fim do mundo a decepção que possam me causar. Algumas coisas permanecem na memória mas já não causam uma má impressão e já não doem tanto.

“Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta,” Hebreus 12:1

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Andando na beirada

A dona do canal Quebre o silêncio (no Youtube) conseguiu explicar um pouco como é a personalidade do tipo limítrofe (ou borderline). O  portador pode manifestar sintomas já na infância. No meu caso, as lembranças da infância me mostram que eu sempre dei sinais, não só deste transtorno de personalidade mas também da doença maníaco-depressiva (atualmente chamada de bipolaridade). Infelizmente os adultos ao meu redor nunca conseguiram interpretar os sinais do jeito certo. Dizem que a infância é a melhor época da vida mas, apesar de eu também ter boas lembranças, me dá um certo aperto no peito quando penso que muito do meu sofrimento acumulado ao longo dos anos poderia ter sido evitado logo no início. Desde criança eu ando na beirada, não precisei de empurrão muito forte pra cair no abismo. O filme Garota Interrompida mostra um pouco como o TPB era tratado antigamente, na década de 60. Hoje há meios mais acessíveis de tratamento, mais informação e mais conhecimento para diagnosticar, apesar de ser um diagnóstico demorado. No meu caso foram necessários 29 anos de vida e 10 de tratamento para mania e depressão até saber o nome da outra desordem que ajudava a bagunçar minha vida.

Reconheço que é necessária muita paciência pra lidar com um borderline. E pra lidar com um bipolar/borderline (ou bipo/border) é preciso paciência dobrada. Atualmente não sei como as pessoas ao meu redor me veem e no fundo sei que não fará muita diferença pra mim, pois mais importante é como Deus me vê. Mas muitas vezes me peguei pensando se todos (familiares, irmãos, amigos, colegas) acham que eu sou realmente aquela coisa descontrolada que eles viam nos períodos de crise, ou se pelo menos alguns compreenderam com o tempo que eu sempre fui doente mas que agora estou melhorando. Sempre bateu uma pequena curiosidade de saber o que pensam. Mas agora que estou me recuperando eu tenho consciência das fases, tenho mais consciência dos sintomas, e me esforço pra não dar asas a essa curiosidade, pois sei que tem grande chance de ser mais uma brincadeira da personalidade limítrofe querendo me assustar na beirada do abismo. Enfim, vale a pena ver o vídeo.

“Eu os corrigi, e lhes esforcei os braços, mas pensam mal contra mim.” Oséias 7:15

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“Alegrai-vos com os que se alegram”

mulher felizEstou estável. Pensei que não diria isso tão cedo nessa vida (10 anos talvez seja cedo). Estou porque ‘estar’ é algo que pode ser passageiro. Não sou estável e não digo nem que estou curada. Não estou curada mas estou estável por enquanto. E digo por enquanto pois não se pode cantar vitória antes do fim do jogo. Considero uma imprudência fazer isso pois ainda tem bola pra rolar.

Vejo gente entrando em fase de manutenção de alguma doença ou dependência química e se gabando por isso como se não corresse mais risco. Batem no peito como se já conhecessem o futuro, como se dissessem: Estou curado e sou o tal! Falta de humildade? Arrogância mesmo sabendo da inconstância da vida? Insensatez ou precipitação por pura imaturidade? Pode ser qualquer coisa do tipo. Mas alguns não param por aí. Além de se acharem os seres mais constantes do planeta, ainda enchem o peito diante dos demais (incluindo os que ainda não estão muito bem) e desdenham, apontam erros que muitas vezes não existem, criticam negativamente e sem base o fato de alguns ainda estarem em tratamento. Desprezam o sofrimento alheio, sofrimento pelo qual já passaram mas que parecem não recordar. Para esses a condição de curado ou assintomático significa ser soberano.

Quando o ser humano credita a cura a si próprio, automaticamente massageia seu próprio ego e sobe em um pedestal de senhor e comandante de sua mente, do seu eu. Adquire a atitude de um ser acima do bem e do mal, se torna seu próprio deus. Os supostamente curados, neste caso, se fazem superiores a ponto de se acharem no direito de preterir os demais. O que os faz piores do que os ditos normais ou saudáveis, pois os “normais saudáveis” na maioria das vezes são ignorantes quanto à condição dos doentes, já os que passaram pela doença não. É triste ver isso acontecer mas não deveria ser surpresa. O ser humano tem natureza pecaminosa, tem o coração inclinado para o que é reprovável a Deus. Nada mais natural e humano do que se corromper pela sensação de poder, de superioridade. “Quer conhecer uma pessoa, dê poder a ela“. A máxima é verdadeira e como a maior parte da humanidade está extraviada, é só alguém sentir que é o curador de si mesmo e o estrago está feito.

Não sou melhor do que ninguém, aliás me acho até pior pois às vezes faço o que é errado mesmo sabendo o que é certo. O bem que eu quero fazer às vezes eu não consigo. Às vezes faço o mal que eu não deveria fazer. É o coração enganoso e corrupto pulsando aqui dentro, é o desejo do velho homem. Porém, mesmo com essa certeza de estar andando no fio da navalha (ou pela patologia ou pela velha natureza) eu sempre supus que alguém que passou ou passa por uma espécie de sofrimento deveria se sensibilizar por quem passa por sofrimento semelhante. Uma palavra amiga ou um puxão de orelha na hora certa são válidos mesmo vindo de quem também está sofrendo ou já conheceu aquela dor.

Lembrei do texto “Chorai com os que choram” de 2011, no qual relatei uma situação em que não consegui ficar feliz por um avanço no meu tratamento, pois vi e ouvi uma moça em estado de desespero na sala de espera do consultório. Passei tantas vezes por momentos de desespero, agonia e sofrimento mental sozinha que fiquei solidária daquela mulher. Eu pude sentir o que ela estava passando. Eu já havia passado por aquilo antes e ainda passei muito pior depois disso.

É fato que quando estamos melhorando conseguimos olhar pra trás e ver onde erramos. Conseguimos perceber em quais momentos nos esforçávamos pra melhorar e não conseguíamos sair do lugar, e em quais momentos não saíamos do lugar por comodismo. É verdade que só sabe da dificuldade do jogo quem está em campo jogando. Mas também é verdade que quem já foi treinado e está no banco de reservas consegue ver o jogo por um ângulo melhor. Mas não é por ter essa visão mais ampla que se deve assumir uma atitude de superioridade e advogar que o jogo só pode ser vencido à sua maneira, que sua estratégia é a única que funciona pra vencer.

alegriaEnfim, na minha penúltima visita ao psiquiátra eu encontrei novamente a moça, aquela que estava desesperada na mesma sala de espera há quase dois anos. Ela deixou o cabelo crescer (na época estava bem Joãozinho), estava bem sorridente, com uma cara ótima e bem disposta. Perguntei como ela estava e como estavam seus filhos. Ela respondeu com um sorriso bem largo que ela e as crianças estavam bem. Ficou de lá do outro lado da sala olhando pra mim e sorrindo por uns instantes. Findei em um sorriso largo dentro da sala. Pareceu uma daquelas situações em que as pessoas passam por uma desventura, depois lembram e logo a lembrança se esvai. Não precisei falar nada e nem chegar perto. Eu sabia o que significava aquele sorriso e aquele olhar vivo.

Foi engraçado a maneira como um diálogo banal no qual se diz “Como vai?”“Vou bem!” se tornou tão significativo ao mesmo tempo em que foi praticamente desnecessário. Só o sorriso e o brilho nos olhos daquela moça me fizeram sentir que ela, assim como eu, está muito melhor. Da outra vez, quando ela saiu do consultório e eu a abracei, eu disse a ela que aguentasse firme e que não desistisse pois tudo aquilo iria passar. Dizer a alguém que há esperança nos dá esperança também. Nesta penúltima consulta o médico baixou mais uma dose de medicação minha e desta vez eu pude sair do consultório duplamente feliz. A bênção de Deus pode parecer demorada mas um dia vem e ainda se estende. E de novo eu lembro de Romanos 12:15 – “Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram”.

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