“Alegrai-vos com os que se alegram”

mulher felizEstou estável. Pensei que não diria isso tão cedo nessa vida (10 anos talvez seja cedo). Estou porque ‘estar’ é algo que pode ser passageiro. Não sou estável e não digo nem que estou curada. Não estou curada mas estou estável por enquanto. E digo por enquanto pois não se pode cantar vitória antes do fim do jogo. Considero uma imprudência fazer isso pois ainda tem bola pra rolar.

Vejo gente entrando em fase de manutenção de alguma doença ou dependência química e se gabando por isso como se não corresse mais risco. Batem no peito como se já conhecessem o futuro, como se dissessem: Estou curado e sou o tal! Falta de humildade? Arrogância mesmo sabendo da inconstância da vida? Insensatez ou precipitação por pura imaturidade? Pode ser qualquer coisa do tipo. Mas alguns não param por aí. Além de se acharem os seres mais constantes do planeta, ainda enchem o peito diante dos demais (incluindo os que ainda não estão muito bem) e desdenham, apontam erros que muitas vezes não existem, criticam negativamente e sem base o fato de alguns ainda estarem em tratamento. Desprezam o sofrimento alheio, sofrimento pelo qual já passaram mas que parecem não recordar. Para esses a condição de curado ou assintomático significa ser soberano.

Quando o ser humano credita a cura a si próprio, automaticamente massageia seu próprio ego e sobe em um pedestal de senhor e comandante de sua mente, do seu eu. Adquire a atitude de um ser acima do bem e do mal, se torna seu próprio deus. Os supostamente curados, neste caso, se fazem superiores a ponto de se acharem no direito de preterir os demais. O que os faz piores do que os ditos normais ou saudáveis, pois os “normais saudáveis” na maioria das vezes são ignorantes quanto à condição dos doentes, já os que passaram pela doença não. É triste ver isso acontecer mas não deveria ser surpresa. O ser humano tem natureza pecaminosa, tem o coração inclinado para o que é reprovável a Deus. Nada mais natural e humano do que se corromper pela sensação de poder, de superioridade. “Quer conhecer uma pessoa, dê poder a ela“. A máxima é verdadeira e como a maior parte da humanidade está extraviada, é só alguém sentir que é o curador de si mesmo e o estrago está feito.

Não sou melhor do que ninguém, aliás me acho até pior pois às vezes faço o que é errado mesmo sabendo o que é certo. O bem que eu quero fazer às vezes eu não consigo. Às vezes faço o mal que eu não deveria fazer. É o coração enganoso e corrupto pulsando aqui dentro, é o desejo do velho homem. Porém, mesmo com essa certeza de estar andando no fio da navalha (ou pela patologia ou pela velha natureza) eu sempre supus que alguém que passou ou passa por uma espécie de sofrimento deveria se sensibilizar por quem passa por sofrimento semelhante. Uma palavra amiga ou um puxão de orelha na hora certa são válidos mesmo vindo de quem também está sofrendo ou já conheceu aquela dor.

Lembrei do texto “Chorai com os que choram” de 2011, no qual relatei uma situação em que não consegui ficar feliz por um avanço no meu tratamento, pois vi e ouvi uma moça em estado de desespero na sala de espera do consultório. Passei tantas vezes por momentos de desespero, agonia e sofrimento mental sozinha que fiquei solidária daquela mulher. Eu pude sentir o que ela estava passando. Eu já havia passado por aquilo antes e ainda passei muito pior depois disso.

É fato que quando estamos melhorando conseguimos olhar pra trás e ver onde erramos. Conseguimos perceber em quais momentos nos esforçávamos pra melhorar e não conseguíamos sair do lugar, e em quais momentos não saíamos do lugar por comodismo. É verdade que só sabe da dificuldade do jogo quem está em campo jogando. Mas também é verdade que quem já foi treinado e está no banco de reservas consegue ver o jogo por um ângulo melhor. Mas não é por ter essa visão mais ampla que se deve assumir uma atitude de superioridade e advogar que o jogo só pode ser vencido à sua maneira, que sua estratégia é a única que funciona pra vencer.

alegriaEnfim, na minha penúltima visita ao psiquiátra eu encontrei novamente a moça, aquela que estava desesperada na mesma sala de espera há quase dois anos. Ela deixou o cabelo crescer (na época estava bem Joãozinho), estava bem sorridente, com uma cara ótima e bem disposta. Perguntei como ela estava e como estavam seus filhos. Ela respondeu com um sorriso bem largo que ela e as crianças estavam bem. Ficou de lá do outro lado da sala olhando pra mim e sorrindo por uns instantes. Findei em um sorriso largo dentro da sala. Pareceu uma daquelas situações em que as pessoas passam por uma desventura, depois lembram e logo a lembrança se esvai. Não precisei falar nada e nem chegar perto. Eu sabia o que significava aquele sorriso e aquele olhar vivo.

Foi engraçado a maneira como um diálogo banal no qual se diz “Como vai?”“Vou bem!” se tornou tão significativo ao mesmo tempo em que foi praticamente desnecessário. Só o sorriso e o brilho nos olhos daquela moça me fizeram sentir que ela, assim como eu, está muito melhor. Da outra vez, quando ela saiu do consultório e eu a abracei, eu disse a ela que aguentasse firme e que não desistisse pois tudo aquilo iria passar. Dizer a alguém que há esperança nos dá esperança também. Nesta penúltima consulta o médico baixou mais uma dose de medicação minha e desta vez eu pude sair do consultório duplamente feliz. A bênção de Deus pode parecer demorada mas um dia vem e ainda se estende. E de novo eu lembro de Romanos 12:15 – “Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram”.

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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4 respostas para “Alegrai-vos com os que se alegram”

  1. Nadja Reis disse:

    Fico feliz que você esteja bem. =)

  2. Dora Batalha disse:

    Lola, minha irmã querida. Maravilhoso saber dessa notícia! Não imaginas como ela me fez bem. Fica na paz.

    • Lola disse:

      Amada, imagino que seja a mesma felicidade de quando você me comunicou que a depressão havia dado trégua e que você havia voltado a trabalhar e tudo o mais. Muito obrigada por compartilhar comigo sua luta e seu exemplo de persistência. Quem sabe um dia Deus permita que nos encontremos pra dar muita risada de tudo em sinal de gratidão pela providência Divina nas nossas vida. Deus te abençoe!

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