Lembrando de danos esquecidos

Sabe quando você sai de casa e esquece alguma coisa mas não consegue lembrar o que é? Esses tempos eu andei  aperreada com essa sensação de que estava esquecendo de algo. Saía de casa com essa sensação, chegava ao trabalho com essa sensação, dormia e acordava com essa sensação. Estava me angustiando em pensamento: – Meu Deus, de que ou de quem eu estou esquecendo? Descobri que a sensação de estar esquecendo de algo na verdade correspondia a lembranças de situações traumáticas e pessoas que me prejudicaram. São coisas recentes e não me perguntem como eu descobri sem ajuda profissional. Eu consigo fazer isso mas entendo que há pessoas que não conseguem. Às vezes o Espírito Santo demora um pouco para mostrar o que está escondido no inconsciente, ou eu demoro para identificar, não sei, mas as coisas sempre vêm à tona.

O incômodo persistente de estar esquecendo de alguma coisa era na verdade um aviso de que havia algo que não foi externado e que eu não percebi, mas que, além da sensação de esquecimento, estava me causando um mal estar emocional, uma indignação terrível. Quando eu lembrei de situações desagradáveis e sofri com as lembranças, quando eu senti repulsa por alguém a ponto de ter desconforto em cumprimentar ou estar no mesmo ambiente, quando eu me vi evitando lugares para não encontrar certas pessoas, notei que tinha esquecido de resolver algo importante. Entendi que deixei o perdão e o desabafo passarem batidos e que deixie ficar o dito pelo não dito.

Infelizmente quando as coisas são mal resolvidas (ou não resolvidas) fica um mal estar e o consciente tenta lembrar, mas é o inconsciente que, quando sondado, vai refrescar a memória. E refrescou pois eu lembrei que esqueci de falar algumas coisas para as pessoas que me prejudicaram, esqueci de dizer que me deixassem em paz pois eu estava doente, esqueci de mostrar o tamanho da minha dor, esqueci de dizer o que pensava olhando nos olhos de quem me fez mal, esqueci de não confiar em qualquer um, esqueci de falar que não estava tudo bem. Mas também esqueceram de cumprir com suas responsabilidades, de curar previamente a ignorância cancerígena, de não comentar sobre algo que não conhecem, de reconhecer que erraram e que eram inaptos para lidar com a minha situação, e que na ânsia de não pecar por negligência pecaram por imperícia.

Todos nós esquecemos de coisas importantes, como perdoar. Mas reconhecer os erros também é importante e muitas vezes é com o reconhecimento das falhas que o perdão se faz. Não fiz o que precisava pois pensei que estava resolvido. Não imaginava que meu inconsciente não havia conseguido lidar bem com tantos danos. No fundo eu queria falar às pessoas que me disseram e escreveram sandices o quanto me torturaram. Eu queria dizer tudo a quem era devido, chorar, chutar coisas pelos ares, socar a parede, gritar até ficar rouca, mostrar meu sofrimento e minha loucura àqueles que perderam oportunidades de se manterem calados e de deixarem de me escrever e dizer coisas danosas. Nunca transbordei tudo que sentia para não dar mal exemplo. Sempre controlei o máximo que  pude e sei que o Espírito Santo tem papel importante no meu controle. Graças a Ele eu nunca matei ninguém nem logrei “êxito” em me matar, graças a Ele eu não estou na cadeia, graças a Ele eu não me machuquei tanto.

Deus mesmo mexe no mais profundo do ser para nos lembrar que Ele nos fez humanos e que nas nossas loucuras e fraquezas Ele nos socorre. Às vezes relevamos os danos somente no nível do consciente, ou deixamos pra lá tentando esquecer na marra pra não ter que lidar com o problema. Até o dia em que sentimos o incômodo de ter esquecido algo pelo caminho. Até sentir que alguns danos esquecidos precisam mesmo ser lembrados. Esquecemos de suprir a necessidade de vomitar tudo que fez mal. Há o esquecimento que acompanha o ato de perdoar, e esse é bom e traz paz. Mas há o esquecimento indevido, que deixa pendentes assuntos importantes, e esse é ruim pois causa desassossego.

Agora sei o que meu interior mais profundo esqueceu de dizer para o meu exterior. E agora eu sei que não devo depender da conscientização ou arrependimento alheios para resolver. Embora essa manifestação de arrependimento seja desejado por mim pois facilitaria minha vida, eu sei que devo depender só de Deus para que meu inconsciente possa lidar melhor com as coisas a partir de agora e parar de me enganar com um perdão fajuto. E quem sabe, começar a me dizer o que quer que eu bote pra fora antes que me dê indigestão. Perdoar e esquecer não significa que haverá uma amnésia absoluta sobre o fato. Perdoar e esquecer significa que a lembrança do fato não vai mais doer, não vai mais impedir relacionamentos e nem causar a incômoda sensação de que algo foi esquecido indevidamente.

“Como dente quebrado, e pé desconjuntado, é a confiança no desleal, no tempo da angústia.” Provérbios 25:19

“Mas vós mesmos fazeis a injustiça e fazeis o dano, e isto aos irmãos.” I Coríntios 6:8

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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8 respostas para Lembrando de danos esquecidos

  1. J.Mendes disse:

    Estava precisando ler isso. Obrigada Lola.

  2. Nadja Reis disse:

    Pessoas que não entendem e que pioram nosso estado.Nem me fale! Minha tia,por exemplo,há anos que me vê assim e continua não acreditando.Na cabeça dela eu devo estar ”de férias da vida”em casa,ou algo assim.Só pode.Outro dia minha mãe me falou que ela disse que quer que eu tome conta do meus avós por um período do dia(como uma enfermeira mesmo,dando remédio e coisas do tipo mesmo)porque segundo ela ”não estou fazendo nada”.
    E ainda disse ”é muita ruindade da Nadja não vir aqui ajudar os avós dela sendo que ela tem tempo”.

    Para ela e para várias outras pessoas da família eu não tenho nada.Como disse um tio meu na última vez que esteve aqui na cidade ”o problema da Nadja é falta de peia,ela não tem nada”.

    O mundo simplesmente perdeu qualquer mínimo vestígio de SENTIDO pra mim e a pessoa vem e me fala uma coisa dessas. rs

    Seria cômico não fosse trágico.

    É por essas e por outras que eu queria ter um doença física,ao menos as pessoas acreditariam e eu seria poupada de ouvir este tipo de coisa e de ser tratada pela maioria dos meus familiares como eu tenho sido.

    • Lola disse:

      Pois é Nadja, as pessoas conseguem ser cruéis até com os familiares. Mas eu até tinha colocado uma anotação no vídeo (que esqueci de salvar) dizendo que quando eu falo das coisas absurdas que as pessoas dizem e que não deveriam ter sido ditas, eu me refiro aos períodos em que o doente está em crise e lutando com psiquiatra, terapias, remédios etc, para sair da crise ou quando o doente ainda não sabe ao certo o que tem. Foi a esses que me referi.
      Há muitos que não querem saber de tratamento, não estão lutando e buscando meios para melhorar. Ao invés disso ficam inertes e só reclamando da vida. Esses não tem direito de reclamar dos puxões de orelha ou da incompreensão alheia, pois não estão fazendo nada pra mudar sua situação (nem terapia, nem psiquiatra, nem remédio, nem nada) nem estão mostrando aos seus entes queridos que estão batalhando. Parece que gostam da doença. Quando a pessoa tem um câncer ela não escolhe oncologista, quando tem um aneurisma ela não escolhe neurologista, quando tem um infarto ela não escolhe cardiologista.
      Nesses casos não escolhemos profissional nem medicação porque o risco é grande e a morte é iminente. A vontade de melhorar, de salvar a própria vida é maior do que a inércia e o desespero que a doença causa. Quando estamos em estado de doença mental violenta não escolhemos psiquiatra. Se escolhemos demais é porque o sofrimento pode esperar, a dor não está tão grande e a doença pode estar sendo usada para ganhos secundários. Nesse caso eu sou a favor de se dizer umas verdades mesmo, pra ver se a pessoa se mexe e vai se cuidar. Eu deveria ter falado isso no vídeo mas meu objetivo com ele foi outro. Enfim, espero que esteja bem hoje. Beijão!

      • Verônica disse:

        Tenho depressão e seus depoimentos me ajudam muito, obrigado por continuar postando.

      • Lola disse:

        Oi Verônica! Muito obrigada por compartilhar e por prestigiar minhas publicações. Pessoas como você é que me motivam a continuar postando. Se precisar de qualquer coisa eu estou aqui pra ajudar no que eu puder. Beijão!

  3. Nadja Reis disse:

    Eles falam essas coisas eu estando em qualquer situação,seja me cuidando ou não.Não acreditariam em mim nem se o médico confirmasse na frente deles. 😦

    No mais…espero que esteja bem também. Beijos. :***

    • Lola disse:

      É difícil nesse caso. A falta de apoio ou as palavras mais duras não são pelo fato de o doente não querer melhorar e todos acharem que não vale a pena ajudar. Esse caso até se assemelha ao meu relato no vídeo. É a falta de entendimento, de amor e de boa vontade que causa câncer na alma de quem já está adoecido. Mas aguente! Eu sei que você consegue. Beijo!

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