Levando o bicho pra passear

Essa semana deixei minha moto na oficina e fui à faculdade caminhando pois ficava perto de onde eu estava. Saí da aula e senti disposição pra voltar pra casa a pé. Longe que só! Era tarde e fazia um calor da moléstia. Mas eu penso demais e a caminhada me deu tempo pra ir lembrando de um monte de coisas. Lembrei do meu bichinho de estimação e decidi que iria caminhar com ele um pouco. Lembrei da vez em que fiz uma viagem com um grupo. Durante um passeio alguém fez uma brincadeira boba. Eu comecei a gritar e quase virei a mesa da lanchonete em um shopping de Brasília. Eu tinha 17 anos. Fiz vergonha a todo mundo e passei o resto do dia emburrada, ouvindo indiretas e piadinhas dos amigos e me sentindo um lixo, a ridícula do grupo.

filhote bravoLembrei de quando eu tinha uns 6 ou 7 anos e um primo meu fez uma geringonça com mangueirinhas e uma pequena caixa d’água presa ao caule de um pé de manga pra eu brincar. Não lembro o que causou minha ira na hora mas lembro que eu destruí tudo aos prantos, arrebentei as mangueirinhas, quebrei a caixinha d’água de plástico, mordi tudo com uma fúria desenfreada, dessas de quando a gente acaba com tudo e cai no chão ou sai correndo (já tive várias). O bichinho era novo mas já mostrava os dentes e sofria (roía as unhas até sangrar, chorava toda noite e tinha bruxismo). Pouco tempo depois eu entendi a relação de dependência e hostilidade que tinha com o tal primo e com outras figuras. Quem sabe isso um dia saia da memória pra fora, ou se perca da memória pra dentro.

Lembrei de uma situação ainda no ano passado, quando eu fui ao pronto atendimento pois estava com dor por ter acabado de expelir o cálculo renal. Minha mãe foi lá mas, como não gosta de hospitais, não queria que eu permanecesse até a dor passar. Queria ir embora e tentou me convencer de que eu não precisava ficar lá, mesmo com dor. Elevei a voz além da conta para um local como aquele. Saí rápido e esbarrei no suporte do soro, juntei do chão e passei pela porta como um vento. Não esperei liberação do médico e a essa altura nem liguei pra dor. Subi na moto, fugi pra casa e me tranquei com o bicho no quarto. Quis chorar mas não chorei. Quis gritar mas não gritei. Quis ficar com raiva mas não fiquei. Tinha que segurar o bicho na marra. Sofri mas segurei.

Lembrei de uma vez em que combinamos de ir à uma praça para lanchar depois do culto dos jovens e eu percebi que o pneu da minha moto estava murcho. Daí perguntei onde exatamente a turma iria e avisei a todos que os encontraria lá depois, pois precisava ir à borracharia arrumar o pneu. Saí da borracharia em questão de 10 minutos e fui diretoRottweiler triste aonde todos disseram que estariam, pedi meu tacacá e fiquei procurando todo mundo. Não vi ninguém e decidi telefonar pra um amigo. Ele disse que tinham ido a outro lugar.

Não lembraram que eu estava junto, mudaram de planos e não estavam sentindo minha falta, pois ninguém me telefonou avisando da mudança de planos. Fui ao lugar onde estavam e entrei fazendo brincadeiras bobas como puxar a orelha de um ou de outro por terem me esquecido. “Ai, para com essa brincadeira!” Ninguém me pediu desculpa e eu, como sempre, paguei de chata. Conversei, ri e brinquei com as pessoas das quais sentia que dependia tanto. Queria ficar lá grudada em todo mundo, mesmo que ninguém sentisse minha falta, por que eu sempre tive a mania feia de mendigar amizade e presença. Foi cada um pra sua casa. Eu cheguei na minha, me tranquei no quarto e chorei a noite toda com a sensação de não ser amada, sensação de abandono. Isso foi em 2008.

Lembrei de uma vez em que fomos à um aniversário de congregação, em 2007. Viagem de ônibus que durou a noite inteira. Não era pra esperar boa coisa de quem estava com o joelho ferido de um acidente de moto recente, com baixa resistência ao estresse e que teve que passar a noite sem dormir direito. Depois do café da manhã eu estava com corpo e mente esgotados, louca pra tomar um banho e deitar em algum canto pra descansar. Decidiram ir à um balneário e eu disse que seria melhor irmos cão bravopra nossas acomodações pra descansarmos, pois o coral iria se apresentar à noite. Uma irmã muito querida se impacientou comigo: – Ai, por que tu é assim? Deixa de ser desse jeito! A gente tá aqui pra se divertir, nós somos jovens!

Uma fogueira se acendeu instantaneamente dentro de mim. Eu abri um sorriso e disse em tom de bom humor: – Jovens também se cansam e precisam tomar um banho e se deitar com os pés pra cima. Deus me ajude, mas na minha mente eu só me vi indo até a mesa de café da manhã, pegando a faca de cortar pão e rasgando o pescoço da moça de um lado ao outro pra ver o sangue jorrar. Pedi a Deus ajuda pra rebater esse pensamento maligno. Passei o resto do dia no balneário, gastando energia que não tinha e  tentando ser normal. Não guardei mágoa da moça que me criticou. Ela não sabia o que se passava comigo. Agradeci muito por ter um Deus piedoso na minha vida pra me ajudar a conter a impulssividade quando ela quer ganhar um terreno onde eu não conseguiria controlar. No fim desse dia achei graça ao ver um monte de gente reclamando que não deveríamos ter ido ao balneário, pois estavam todos muito exaustos.

sad puppyLembrei de muito mais coisa durante a caminhada! Lembrei da situação que já contei aqui e da situação que contei aqui. Lembrei dos sentimentos de várias situações. Não lembrei de tudo, mas lembrei de quando sentia aquela gastura roendo no estômago, aquele mal estar de escuridão que me engolia, o sofrimento sufocante por coisas corriqueiras, a fúria que me transpassava e se tornava maior que eu, a vontade de virar mesas e quebrar coisas que se concretizou algumas vezes, a vontade de cair matando em cima de alguém (que graças a Deus nunca se concretizou), a vontade de arrebentar a minha cabeça na parede, a vontade de me morder, de me arranhar, de me machucar, de gritar, de quebrar tudo pela frente, de arrancar os cabelos, de me jogar na frente do primeiro caminhão que eu visse, de chorar até cair dura, de arrancar a alma com as próprias mãos e jogar fora pra ela doer longe de mim.

Lembrei que isso tudo e muito mais vem de um certo tipo de bicho que eu sempre fiz força pra esconder dos outros, pra ninguém ouvir nem sequer um grunido. Às vezes não dá, mas o que os outros sabem dele não é nada perto daquilo que esse bicho realmente é. Lembrei que esse bicho tem um nome pelo qual rottweiler mansoeu não preciso mais chamá-lo, só preciso da corrente bem firme nas mãos. Lembrei que isso não deve me dominar pois sou eu que carrego isso, não é isso que me carrega. Lembrei que eu posso controlar o bicho na marra e se não conseguir não vou me importar de morrer tentando. Lembrei que é um bicho bravo mas não é o cão de três cabeças da mitologia. Só preciso de uma única coleira. Quando escapar das minhas mãos eu sei que posso contar com meu Senhor para segurar ou para me devolver o controle e fazer minhas mãos fortes o bastante para conseguir conter. Acho que nem sempre os meus bichos conhecidos estarão sob controle (quem sabe o amanhã?), mas pelo menos um desses bichos eu já estou aprendendo a adestrar. Minha caminhada com esse bichinho não acabou, mas se tornou mais tranquila.

“Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira.” Efésios 4:26

“Assim me embruteci, e nada sabia; fiquei como um animal perante ti.” Salmos 73:22

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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8 respostas para Levando o bicho pra passear

  1. J.Mendes disse:

    Amém! Fico muito, muito feliz com suas descobertas e com essa grande melhora! Deus Te abençoe nessa jornada tão difícil, Bjs

  2. Leila Freire disse:

    Muito lindo Lola amei. 🙂

  3. Dora Batalha disse:

    Vi-me em muitos dos teus relatos, Lola. Sempre mendiguei amizades também. Já melhorei muito mas ainda tenho uma longa jornada a percorrer. Fica na paz, querida.

  4. Milca disse:

    Lindo Lola! Tens o dom de conseguir por em palavras todos os teus sentimentos.
    Parabéns pelas vitórias.

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