Curiosidade sobre possibilidades

Na minha última consulta o psiquiatra levantou uma possibilidade. Essa possibilidade me deixou com o carrapato atrás da orelha, por que pulga pula e vai embora, já o carrapato  fica grudado incomodando. Não que eu dê mais tanta importância às nomenclaturas, afinal em psiquiatria tudo é complicado, tudo é misturado, tudo é difícil, tudo é demorado e como diria meu médico: “A resposta terapêutica é o mais importante”. Nem tudo é exato quando se fala de saúde mental. O que se chamava Doença (ou Psicose) Maníaco-Depressiva pode passar a se chamar pelo banalizado, mal empregado e chacoteado nome de Transtorno Afetivo do Humor Bipolar.

Garanto do fundo dos meus rins que não preciso de letreiro na testa. Sinto muito pelos que passam a vida todinha se rotulando, mas compreendo que é por que o ser humano acha que necessita se identificar com algo pra que sua vida tenha sentido. O homem quer um lugar pra chamar de lar, quer se encaixar em algum grupo, quer uma tarja na testa que comprove que ele pertence a algum lugar. Alguns entendem cedo que isso não é vital, outros passam a vida colando etiquetas diferentes na barriga. Daqui a pouco não sabem mais quem são nem qual é seu lugar. Compreendo, mas sinto muito.

Enfim, diagnósticos às vezes geram etiquetas indevidamente e nem sempre é culpa do médico. Às vezes um diagnóstico se fecha com certeza, às vezes se fecha mas fica uma duvidazinha ou por parte do paciente, ou do médico ou dos dois. Às vezes a pessoa passa a vida inteira tratando algo mas depois se percebe que esse algo era outro algo, mesmo assim o tratamento deu certo a vida inteira. Cada pessoa reage de uma maneira aos diversos tratamentos que existem. Tem gente que toma medicação e não melhora, e tem gente que melhora com remédios (tipo eu). Tem gente que melhora fazendo psicoterapia e tem gente pra quem isso não influi nem contribui (tipo eu). Tem gente que gosta de acupuntura e atividade física como tratamento complementar (euzinha), tem gente que faz massoterapia (eu), tem gente que toma chá relaxante, tem gente que só toma seu Rivotril durante 6  meses e resolve o problema, tem gente que melhora do nada. Cada organismo é único e o perfume que cheira em nós pode feder nos outros.

O nome das desordens de saúde, as meramente físicas ou as mentais, só são importantes até que se encontre o tratamento adequado, aquilo que se encaixaria melhor em cada caso. Pensando com a razão e não com a curiosidade, entendo que é pra isso que serve o diagnóstico. Meu médico sempre trabalhou nessa linha: priorizar o tratamento pra seja lá o que isso for, mas sem bater muito na tecla do nome disso. O problema é que eu sou muito curiosa, muito mesmo! Um cricri. E toda vez que eu encho o saco do meu psiquiatra perguntando o que é isso e o que é aquilo, o que pode ser tal ou tal sintoma, ele sempre me diz as possibilidades. Ele sabe que eu não vou ficar quieta se ele não me disser.

Bom, existe um tipo de personalidade explosiva, que quando sai do controle e se torna doentia passa a se chamar Transtorno Explosivo Intermitente. Existe também um tipo de personalidade extremamente sensível (tanto pra se entristecer quanto pra se irritar), que quando sai do controle e se torna doentia passa a se chamar Transtorno da Personalidade Limítrofe ou Borderline. O TEI e o TPB são frequentemente confundidos e muitos profissionais demoram pra ter certeza. Muitas vezes até depois de bater martelo pode ser que o médico ou psicólogo perceba sintomas novos, sintomas que passaram batido, ou pode ser que haja relato de sintomas antigos já tratados.

Meu psiquiatra levantou a possibilidade de ter havido uma confusão e já me prometeu mais um de seus questionários, que eu certamente vou cobrar por que simplesmente não posso com a minha curiosidade. Mas quer saber? No fundo eu acho que não deve ser nada além do que já é. Todas as fraquezas humanas causam sofrimento, tanto faz o nome da dor, tudo é dor. Estou tratando, está dando certo e isso me basta. Independente do que seja e apesar da minha curiosidade, o nome continuará sendo desimportante na minha vida. Eu já tenho um selo bem definido e não preciso ficar trocando. O único rótulo que eu sei que vale muito a pena carregar em lugar visível é o de filha e serva de Deus. Mas neste caso, o rótulo só tem valor se Jesus estiver realmente preenchendo o interior. De outra forma será só mais um rótulo que não informa nada além do grande vazio que há por dentro.

“E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo.” II Coríntios 12:9

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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2 respostas para Curiosidade sobre possibilidades

  1. Leila Freire disse:

    Eu tb não gosto de rotulos,mas eles não permitem que eu os esqueça,tenho TAB,TAG,TOC e sou Border(mais a borderline está adormecida ou bem adestrada ao meu ver)o meu psicologo tb concorda com vc,nós concordadmos;Melhorei muito com remédios, terapia e natação,a natação eu parei por motivos financeiros,não posso fazer qualquer tipo de exercicios,mas confesso que tenho dificuldade de esquecer que tenho esses CIDS,Vvc melhor do ninguem sabe como é difícil enfrentar crises e crises,que bom que vc está melhor,vc merece isso,lutou muito por isso,mas muitos ainda estão na luta pra superar essa dor,e muitos não reagem aos remedios ou terapia,é lamentavel,mesmo medicada eu ainda tenho crises.Lindo texto parabéns 🙂

    • Lola disse:

      Obrigada pelo carinho Leila. Mas infelizmente eu também tenho crises mesmo medicada. Mas felizmente elas são mais rápidas e mais amenas do que antes quando eu não tinha tratamento. Também já tive períodos em que não reagia ao tratamento, mas depois melhora. Hoje o dia está difícil, muito difícil! Seu comentário me ajudou a lembrar que eu tenho que ficar bem, e vou! Fique bem também. Beijão!

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