Confissões

Afinando a casca

Entre Dezembro de 2013 e Janeiro de 2014 eu tive um episódio depressivo e gravei um videozinho falando sobre a crise e prometendo que gravaria outro vídeo depois pra compartilhar minha melhora. Aconteceu que na mesma semana eu sofri um acidente de moto no qual tive raladuras pelo corpo e meu pé direito ficou muito ferido. O asfalto arrancou a pele dos dedos e quase levou o dedinho do meio. Fiquei sem poder colocar o pé no chão e passei quase um mês de repouso. Fiquei dependente da minha irmã até pra tomar banho nos primeiros dias. Detesto ficar dependendo dos outros e sempre tentei não pedir nada a ninguém e me virar sozinha o máximo que eu pudesse.

Quando nos viramos sozinhos por muito tempo ficamos independentes e isso é bom por um lado, pois vamos criando casca pra nos proteger dos males e desenvolvendo a autonomia necessária pra não viver dando trabalho a ninguém. Mas se a independência exceder o limite pode acontecer de passarmos a sentir que não podemos mais receber ajuda, que conseguimos tudo sozinhos e se pedirmos algo estaremos incomodando. Nesse momento a casca que servia de proteção contra os males começa a nos afastar também daquela relação mais ou menos simbiótica que deve haver entre os seres humanos e que é muito salutar.

A sensação de estar incomodando sempre foi uma constante na minha vida, assim como a inabilidade em pedir auxílio. Por causa disso já ouvi coisas do tipo: – Você precisa parar com esse seu orgulho besta! Nem fico mais chateada com esse tipo de observação, pois é só o homem fazendo uma das coisas que faz de melhor: julgar o comportamento do próximo sem conhecer o que está por trás. Nem imagina se a pessoa sofre com isso, se já tentou mudar e não conseguiu.

A minha casca foi ficando dura demais com o tempo e eu perdi o costume de compartilhar minhas necessidades (ou talvez nunca desenvolvi esse hábito). Passei a entender como ridículas algumas atitudes que são completamente normais, como demonstrar medo, nervosismo, apreensão, chorar ou gritar de dor. Sempre passei por tudo isso mas sempre senti vergonha. E então, Deus me deixou levar uma rasteira agorinha, não só como consequência de alguns erros que cometi conscientemente, mas também pra dar uma afinada na minha casca. Infelizmente foi preciso eu ser lixada no asfalto pra arrancar um pouco de pele e causar um bocado de sofrimento.

Coisas que eu sempre cultivei, como independência e boa tolerância a certos tipos de dor, se desfizeram de uma maneira que fiquei pasma comigo mesma. Não foi crueldade! Foi uma forma de abrir oportunidade pra arrancar também a vergonha de pedir socorro, pra eu aprender a depender dos outros, contar com favores e entender que eu posso ficar carente, doente, gritar, chorar, sentir medo e dor, enfim… ser humana e não ter vergonha disso.

Agora que eu melhorei, fiquei pensando que a luz reflete melhor em superfícies lisas. Não dá pra refletir a luz de Deus em uma casca grossa. Precisa lixar um pouco e isso dói demais, mas se é assim que acontece é porque é o único e melhor jeito. Deus me conhece muito bem pois foi Ele quem me criou. Ele sabe o quanto eu consigo suportar e sabe exatamente como me quebrantar, me alisar e afinar. E eu dou graças a Ele por isso.

Fisioterapia pra voltar tinindo pro ballet. Foto by Lola
Fisioterapia pra voltar tinindo pro ballet. Foto by Lola

“E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, E não desmaies quando por ele fores repreendido;” Hebreus 12:5

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Lucubrações

O marido da border

Encontrei há um tempo o blog Borderline-Girl com uma infinidade de informações e depoimentos sobre TPB. Hoje compartilho uma postagem que coincidiu com umas coisas que estão martelando na minha mente por esses dias. As palavras são de um homem cuja esposa tem personalidade borderline. Pela saudação creio que ele seja seguidor do movimento Hare Krishna, mas achei interessante o depoimento dele pois é a palavra de quem convive com uma mulher que sente as coisas como eu sinto, que tem os mesmos problemas que eu. Aqui e acolá eu já me peguei pensando em como poderia ser problemática a vida do peão que chegasse a casar comigo. Todos dizem que a vida a dois é uma caminhada difícil. Tento imaginar uma caminhada como essa acompanhado de alguém emocionalmente instável e sensível além da conta. O peão iria viver pisando em ovos. Enfim, é utópico dizer que pra toda panela existe uma tampa. Mas o relato desse homem mostra que nem toda border é frigideira.

pisando em ovos

“Minha querida esposa “Borderline”

Hare Krishna! a todos. Com muito gosto, ai vai o meu relato ou até mesmo desabafo. E, se de alguma forma isto puder ajudar outros que passam por estas fazes e tem ”boderlaines” na família, ficarei muito feliz.
”Tenho 53 anos e morava só, já há uns 11 anos. Não sei se é ”karma”, mas este tipo de pessoas de comportamento, até então, estranho para mim, sempre acabava de uma forma ou de outra se hospedando aqui em casa por alguns dias. Alguns, até muito violentos, outros mais amenos. Bom, vou tentar ser breve: Em setembro do ano passado acabei hospedando uma garota (irmã de fé), aqui em casa. E, o que me chamou a atenção, por ela ser bem jovem, foi a sua profunda falta de vontade em querer viver , muito depressiva, e as vezes até me agredia sem motivos aparentes para isto. Graças á ”Deus”, procurando na internet respostas para os maus tratos dela, acabei achando estes vídeos maravilhosos que vocês postam, acabei descobrindo que ela é ”borderlaine”, hoje estamos casados e temos seu site como terapia e estudamos nele juntos para melhorar nossa convivência aqui em casa. Pois, o terapeuta que fomos procurar, não nos passou a devida confiança e respeito, por isso o abandonamos. Bom, o intuito de eu estar escrevendo é para que todos saibam que estar casado com uma garota ”borderlaine”, não é só sofrimentos. Posso relatar duas ou mais vantagens muito boas neste tipo de relacionamento.: neste relacionamento não há traição, pois a pessoa ”borderlaine” precisa muito se espelhar e ter como guia a pessoa amada, pois ela mesmo não tem uma personalidade definida, por isso ama o parceiro com muita intensidade. A “borderlaine” é altamente carinhosa com o esposo, vive 24 horas dando e necessitando de amor (só para ter uma ideia, em oito meses de casado, fazemos ”aquilo” todos os dias). A companheira ”borderlaine” nunca vê defeitos em você, (infelizmente vê muitos nela mesma), e ela vai fazer de tudo para agradá-lo pois, para ela, só em pensar em perder o amado lhe é causa de profundo sofrimento. Torna-se um mundinho só de dois. A impressão que dá, é que a pessoa ”borderlaine” tem 3 ou 4 anos de idade, que é uma das melhores fazes de se lidar com a criança; é só procurar compreender e ouvir seus queixumes (que não são poucos); nunca falar palavras que a ponha pra baixo ou que poda aquilo que é muito útil pra ela (óbvio que olhando também o interesse de ambos).
Enfim, temos nisto uma rara oportunidade dada por Deus de ser útil. Cuidar, preocupar-se, passar amor, fazer com que muitas coisas que achamos de suma importância na vida, na verdade, não nos faz viver melhor e ainda tomam todo o nosso tempo . Esta é uma oportunidade de ser realmente útil para alguém que precisa muito de sua atenção, é de suma importância e muito gratificante também. Pode parecer até aproveitar-se da situação da ”borderlaine” mais, a coisa mais incrível que noto até agora é que, a ”borderlaine”, por mais irritante que seja as vezes, é a única mulher que tem a capacidade de retribuir triplamente ”o amor ” que lhe é recebido do amado ”. Estou, até agora, e se Deus quiser por toda vida, ”muito feliz” com o relacionamento com uma ”borderlaine. Na hora das crises, para o meu acalento e também do dela, vemos o vídeo ”borderlaine amigos e parentes” no youtube, ele é muito confortante e instrutivo, assim como sua pagina também, Eilan. Muito obrigado mesmo. Sim, só mais uma coisa, você que entende, porquê não faz um site chamado: ”Borderlaine: a melhor mulher do mundo. A única mulher que retribui (mesmo depois das crises nervosas) o triplo de amor que um homem precisa ”.
“Hare Krishna” minha irmã, Muito obrigado ”.

Original aqui.

“Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” I Coríntios 13:7

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Lucubrações

A desconfiada

Pistantrofobia

 

Pistantrofóbica. É isso que eu sou. Mas não é certo e não é bonito ser assim e um tratamento espiritual precisa ser feito. Sou só uma lagarta rastejando em direção a confiança e às vezes eu canso e paro um pouco. Mas depois eu lembro que preciso continuar tentando confiar nos outros. Entregar esse sentimento de desconfiança das pessoas nas mãos de Deus pra que ele transforme em confiança, é antes de tudo trabalhar a confiança no próprio Deus, na capacidade que Ele tem de transformar até o mais desconfiado dos corações em um coração que sente segurança para se relacionar com os outros. Enquanto eu não atingir a maturidade espiritual absoluta (que será só no céu mesmo) vou em frente. Se eu cansar eu paro e tomo um fôlego, depois começo a rastejar outra vez. Quem sabe nesta vida, em maturidade cristã, eu consiga confiar mais nas pessoas, e acima de tudo nas pessoas que são realmente de confiança.

“Provai, e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele confia.” Salmos 34:8

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