Lucubrações

Oração do Bipolar

Senhor,
Eu pedi equilíbrio
E me destes Carbolitium
Eu pedi ânimo
E me enviastes Fluoxetina
Eu pedi paciência
E recebi um Anti-Psicótico
Eu pedi calma
E me viciei em Rivotril!
Eu pedi alguém para me ouvir
E encontrei um Psiquiatra
(por 50 minutos semanais)
Eu pedi para nunca estar só…
Realmente, esses efeitos colaterais
Estão sempre comigo.
Eu pedi uma motivação
Para seguir adiante
E recebi a imensa conta para pagar
Todas as dádivas acima…
Mestre,
Como é bom ter tão pouco a pedir
E tanto a enlouquecer…

por Andreza Schlischting

orando

Tomei e ainda tomo remédios mas não Fluoxetina, como cita este poeminha gracioso, tampouco me viciei em Rivotril. Também já visitei psicoterapeuta umas vezes e visito o psiquiatra a cada bimestre. Apesar de tudo que já superei e de todo o tratamento, não estou livre de apresentar crises e ter surtos. As crises já foram encaradas por mim como sinal de derrota, como se todos os êxitos anteriores não significassem nada. As crises já me fizeram sentir hipócrita por dar motivação aos outros dizendo ser possível vencer um sofrimento mental, enquanto eu ainda padeço dele. Que bobagem ter me sentido assim! Cura não significa somente se ver livre da enfermidade. Cura também é quando se consegue ser feliz apesar da enfermidade. E eu consigo!

Sou grata a Deus por ter o Espírito Santo que me dá consolo espiritual. Sou grata a Deus por ter hoje consciência suficiente para entender que crises eu terei sempre, umas mais pesadas e outras mais leves, umas de mania e outras de depressão, umas de fúria e outras de apatia. Este mesmo Espírito que me consola também me dá discernimento para eu enxergar as crises como um freio necessário na minha vida e prenúncio de mais uma vitória. Surto não é sinal de derrota, é apenas sinal de que preciso parar para apertar os parafusos quando estiverem fazendo barulho a ponto de me atrapalhar. Só isso! A eternidade talvez seja curta para agradecer a Deus por Suas misericórdias em minha vida. Precisarei da eternidade para dar graças pelos milagres que Deus me tem feito, inclusive aqueles que eu só consigo ver por causa de crises e surtos que ainda tenho.

“Os teus votos estão sobre mim, ó Deus; eu te renderei ações de graças;” Salmos 56:12

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Lucubrações

O namorado da panicosa

woman-morning-sickness-man-hugMais um relato de alguém com transtorno mental, que foi publicado no grupo de apoio do Facebook*. Desta vez, uma moça muito sortuda que encontrou um homem de verdade, coisa que está em falta esses tempos. Mais um depoimento que só corrobora o que todos os portadores de desordens mentais já sabem: o apoio emocional é extremamente importante pra qualidade de vida do doente.

“Boa noite. Hoje resolvi compartilhar uma situação que para mim, e aposto que para muitos aqui também, infelizmente já tornou-se rotina. Não costumo expor minha intimidade, mas hoje será uma exceção.
Eu estava na casa do meu namorado. Clima legal, um monte de salgadinho e chocolate, risadas e tal. Mas de repente minha visão começou a ficar turva, borrada e percebi que eu estava entrando em um episódio de desrealização, que sempre antecede uma crise. E então eu já não controlava mais meu corpo, comecei a gritar e chorar e por mais que eu quisesse não conseguia parar. Pra quem nunca passou por uma crise de pânico não conseguirá nem sequer imaginar a angústia e o medo de ficar para sempre presa dentro de si.
Durou uns 5-10 minutos, mas para mim parecia uma eternidade. E quando passou eu simplesmente me sentia envergonhada, não conseguia encarar meu namorado. Não que tenha sido a primeira crise que ele presencia, infelizmente, mas essa foi num momento de descontração, quando estávamos nos divertindo. Pedi perdão a ele, perdão por ser doente, por não ser normal, por sempre atrapalhar. Mas todo o tempo ele só me abraçava e dizia que ia cuidar de mim, mesmo enquanto eu me debatia e gritava como louca. Ele me disse “eu sempre soube que você era diferente. Não vou te deixar por isso”.
Para muitos pode ser irrelevante, mas para mim foi extremamente importante. Nunca alguém psicologicamente sadio havia me compreendido e aceitado tanto quanto ele, nem meus pais. 
Decidi compartilhar isso com vocês porque me senti forte com o apoio dele. Agora mais do que nunca acredito que o apoio moral é tão ou mais importante do que a medicação, pelo menos para minhas crises de pânico (deixei o remédio em casa ¬¬’). Enfim, sempre haverá alguém, em algum lugar que estará nos apoiando, seja aqui no grupo, seja pessoalmente. E é por isso que nós devemos lutar contra essa doença, que por mais limitante que possa parecer sempre fará parte de nós…”

* Projeto Sair do Escuro – Borderline, Bipolaridade, TOC e Comorbidades.

“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.” I Coríntios 13:4

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Confissões, Vlogs

O feriado, o bicho e o monstro

Fui viajar de ônibus pro interior no feriado da Páscoa. Foi uma oportunidade de ouro pra me colocar à prova e confesso que o medo de ataques do monstro do estresse foi grande, pois tenho histórico disso em viagens longas de ônibus. Quando o estresse aparece o bicho (aquele bicho) se solta e sai mordendo todo mundo. Mas dessa vez já sabia que precisava de focinheira e coleira o tempo todo, então me precavi. Não posso ficar trancada pra sempre por culpa do bicho da cabeça e deixar as coisas boas passarem. Então, Dramin pra não enjoar, música instrumental pra relaxar, respiração profunda pra oxigenar o cérebro e oração pra Deus me dar tranquilidade.

Fiquei contente, calminha, de boa na lagoa, ou melhor, no igarapé. Me diverti, tirei fotos, encontrei os familiares, comi muito peixe e nadei um pouquinho, coisa que não fazia há tempos. Mas como alegria de transtornado mental dura pouco, ao chegar da viagem recebi uma notícia que fez vir à tona alguns sentimentos que já estavam naufragados. Aquele tipo de notícia que quase explode os miolos. Situação traumática de 12 anos atrás se repetindo na vida pessoal de maneira tão semelhante que pareceu um déjà vu. Foi peso demais até pra quem já superou. E nem foi ressentimento da coisa passada, pois não dói mais nem faz mais diferença na minha vida. Foi só o cérebro processando sentimentos semelhantes aos do passado. Então, como não lembrar? Eu preocupada em não ficar estressada durante a viagem e o estresse veio me morder na chegada.

Bom, os cérebros mais “normais” se surpreendem com notícias de explodir os miolos, mas cérebro de gente como eu não se contenta em se surpreender. Somatiza e entra em surto mesmo! Então tive uma crise, que nem considero forte, na qual tive um episódio de autoagressão com objeto perfurante. Nada sério, mas fato é que autoflagelo é uma válvula de escape, uma maneira de tentar fazer com que a dor física cubra a emocional. Fato é também que, em gente como eu, causar dano físico ocasiona uma descarga de adrenalina e serotonina deliciosa, apesar de a consciência sobre as consequências desse ato ficar em segundo plano na hora da prática. Isso não me acontecia há mais de 2 anos e me deixou bem chateada depois. Até por que nunca aconteceram cortes e furos com frequência. Foi uma vez na vida e outra na quase morte.

Diferente das outras crises com cabeça na parede, tapas na cara, cabelo arrancado, arranhões, móveis e eletrodomésticos sendo chutados e portas sendo batidas amiúde, desta vez eu não tive vergonha de contar para alguns mais próximos que não tem preconceito com minha condição. Eu precisava falar e fiz isso semvergonhamente. Um me alertou que eu não devo ficar sentindo remorso nem culpa, pois eu não tinha real intenção de malograr esta morada que é meu corpo. E isso é verdade. Outra me chamou atenção também para o fato de que foi só 1 mísero episódio em 2 anos e que eu já me superei muito. E isso também é verdade. Fico tão feliz por esse apoio, mas senti que minha estratégia pra manter a calma em situações de tensão emocional falhou. Além do desalento típico da crise pesou a minha cobrança comigo mesma, então fui atrás de dicas de profissional da área e contei pro meu psiquiatra o que eu fiz. Expus pro meu médico minha avaliação pessoal sobre o acontecido.

No meu caso, a auto e a heteroagressividade são só sintomas de mania e/ou de desajuste temporário das emoções, são só nuances de crise e não motivo pra fechar o cerco com medicação. Na maior parte dos episódios de fúria eu apresento heteroagressividade com relação ao ambiente (chutar, bater e jogar coisas). Desta vez fiquei realmente chateada, pois pra mim agressão contra o corpo, o meu ou o dos outros, é até pecado. E também não me cuidei deixando que me dessem notícia pesada logo depois de uma viagem que, apesar de divertida, gastou um pouco do meu vigor físico e mental. Lá veio a autoagressividade se manifestar de uma maneira que há mais de 2 anos não se manifestava. E lá fui eu negociar com o psiquiatra. Nada de remédios a mais, estou bem com essas doses! Mas farei umas horas de psicoterapia. Não vou ficar muito tempo, até porque eu estou sentindo neste momento que nem preciso mais (nunca precisei muito). Mas é só um reforço e faz parte da negociação.

Tenho 30 anos de idade, talvez mais de 25 anos de sintomas, 11 anos de tratamento e 2 anos em remissão. Tenho uma relativa estabilidade, minhas doses de remédios reduziram consideravelmente, estou em manutenção. Nesses dois anos tenho me sentido cada vez melhor e minhas crises, além de já terem uma curtíssima duração, apresentam intensidade incomparavelmente menor do que as antigas. Sei que estou no lucro, mas como sou exigente comigo mesma, quero que seja tudo perfeito. Impossível né?! Eu tinha esquecido por um instante que não deixei de ter patologia mental, só não fico mais em surto o tempo inteiro. Estava tão feliz por não ter tido problemas com o bicho da cabeça, por não ter sido atacada pelo estresse durante o passeio que esqueci de me vigiar na chegada.

Nos dias de crise a vontade era dizer pra todo mundo que é tudo uma grande tragédia, que não tem solução, que vamos todos viver nesse horror pro resto da vida ou simplesmente morrer desse horror logo logo. Em vez disso eu dei um tempo pro meu cérebro, aceitei o atestado que o médico me sugeriu e editei meu vídeo do feriado pra mostrar que, apesar do medo do estresse, eu me diverti muito e já planejo ir de novo. Se eu for cuidadosa antes, durante e depois de viagens e eventos eu vou me divertir sem maiores problemas. Estou bem agora e vou continuar dizendo que dá pra melhorar, recuperar, manter a saúde e viver bem. Porque dá sim! Permaneço em remissão, não dei nenhum passo pra trás, só parei em um degrau e já estou subindo de novo. Quando a gente melhora até o monstro do ônibus fica bem mansinho e o bicho da cabeça não dá muito trabalho.

“Vigiai, estai firmes na fé; portai-vos varonilmente, e fortalecei-vos.” I Coríntios 16:13

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Lucubrações

Quando foi?

Quando foi que lembrar de detalhes virou mágoa?
Quando foi que boa memória virou rancor?
Quando foi que conformismo virou pacifismo?
Quando foi que ‘puxa-saquismo’ virou solidariedade?
Quando foi que indecisão virou imparcialidade?
Quando foi que fogo de palha virou amor?

Acho que deve ter sido na mesma época em que…

Sinceridade virou grosseria,
Partidarismo virou comunhão,
Sozinho virou solitário,
Solteira virou encalhada,
Falar a verdade virou insulto,
Questionar virou desrespeito,
Quietude virou isolamento,
Tirania virou liderança,
Fofoca virou comentário,
Opinião virou ofensa…

Tantas coisas que não eram e agora são! Em algum momento as coisas mudaram de nome, só não sei exatamente quando foi. Perdi essa data na história. Quando foi mesmo?

sincero hipócrita

“Seja, porém, o vosso falar: Simsim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna.” Mateus 5:37

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Lucubrações

Ázimos da sinceridade

“Somos responsáveis por nossas verdades publicadas. Às vezes isso acarreta alguma solidão. Mas, com certeza, fortalece nosso caráter e os verdadeiros laços de amizade.”
Chás e Cia

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“Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade.” I Coríntios 5:8

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