O feriado, o bicho e o monstro

Fui viajar de ônibus pro interior no feriado da Páscoa. Foi uma oportunidade de ouro pra me colocar à prova e confesso que o medo de ataques do monstro do estresse foi grande, pois tenho histórico disso em viagens longas de ônibus. Quando o estresse aparece o bicho (aquele bicho) se solta e sai mordendo todo mundo. Mas dessa vez já sabia que precisava de focinheira e coleira o tempo todo, então me precavi. Não posso ficar trancada pra sempre por culpa do bicho da cabeça e deixar as coisas boas passarem. Então, Dramin pra não enjoar, música instrumental pra relaxar, respiração profunda pra oxigenar o cérebro e oração pra Deus me dar tranquilidade.

Fiquei contente, calminha, de boa na lagoa, ou melhor, no igarapé. Me diverti, tirei fotos, encontrei os familiares, comi muito peixe e nadei um pouquinho, coisa que não fazia há tempos. Mas como alegria de transtornado mental dura pouco, ao chegar da viagem recebi uma notícia que fez vir à tona alguns sentimentos que já estavam naufragados. Aquele tipo de notícia que quase explode os miolos. Situação traumática de 12 anos atrás se repetindo na vida pessoal de maneira tão semelhante que pareceu um déjà vu. Foi peso demais até pra quem já superou. E nem foi ressentimento da coisa passada, pois não dói mais nem faz mais diferença na minha vida. Foi só o cérebro processando sentimentos semelhantes aos do passado. Então, como não lembrar? Eu preocupada em não ficar estressada durante a viagem e o estresse veio me morder na chegada.

Bom, os cérebros mais “normais” se surpreendem com notícias de explodir os miolos, mas cérebro de gente como eu não se contenta em se surpreender. Somatiza e entra em surto mesmo! Então tive uma crise, que nem considero forte, na qual tive um episódio de autoagressão com objeto perfurante. Nada sério, mas fato é que autoflagelo é uma válvula de escape, uma maneira de tentar fazer com que a dor física cubra a emocional. Fato é também que, em gente como eu, causar dano físico ocasiona uma descarga de adrenalina e serotonina deliciosa, apesar de a consciência sobre as consequências desse ato ficar em segundo plano na hora da prática. Isso não me acontecia há mais de 2 anos e me deixou bem chateada depois. Até por que nunca aconteceram cortes e furos com frequência. Foi uma vez na vida e outra na quase morte.

Diferente das outras crises com cabeça na parede, tapas na cara, cabelo arrancado, arranhões, móveis e eletrodomésticos sendo chutados e portas sendo batidas amiúde, desta vez eu não tive vergonha de contar para alguns mais próximos que não tem preconceito com minha condição. Eu precisava falar e fiz isso semvergonhamente. Um me alertou que eu não devo ficar sentindo remorso nem culpa, pois eu não tinha real intenção de malograr esta morada que é meu corpo. E isso é verdade. Outra me chamou atenção também para o fato de que foi só 1 mísero episódio em 2 anos e que eu já me superei muito. E isso também é verdade. Fico tão feliz por esse apoio, mas senti que minha estratégia pra manter a calma em situações de tensão emocional falhou. Além do desalento típico da crise pesou a minha cobrança comigo mesma, então fui atrás de dicas de profissional da área e contei pro meu psiquiatra o que eu fiz. Expus pro meu médico minha avaliação pessoal sobre o acontecido.

No meu caso, a auto e a heteroagressividade são só sintomas de mania e/ou de desajuste temporário das emoções, são só nuances de crise e não motivo pra fechar o cerco com medicação. Na maior parte dos episódios de fúria eu apresento heteroagressividade com relação ao ambiente (chutar, bater e jogar coisas). Desta vez fiquei realmente chateada, pois pra mim agressão contra o corpo, o meu ou o dos outros, é até pecado. E também não me cuidei deixando que me dessem notícia pesada logo depois de uma viagem que, apesar de divertida, gastou um pouco do meu vigor físico e mental. Lá veio a autoagressividade se manifestar de uma maneira que há mais de 2 anos não se manifestava. E lá fui eu negociar com o psiquiatra. Nada de remédios a mais, estou bem com essas doses! Mas farei umas horas de psicoterapia. Não vou ficar muito tempo, até porque eu estou sentindo neste momento que nem preciso mais (nunca precisei muito). Mas é só um reforço e faz parte da negociação.

Tenho 30 anos de idade, talvez mais de 25 anos de sintomas, 11 anos de tratamento e 2 anos em remissão. Tenho uma relativa estabilidade, minhas doses de remédios reduziram consideravelmente, estou em manutenção. Nesses dois anos tenho me sentido cada vez melhor e minhas crises, além de já terem uma curtíssima duração, apresentam intensidade incomparavelmente menor do que as antigas. Sei que estou no lucro, mas como sou exigente comigo mesma, quero que seja tudo perfeito. Impossível né?! Eu tinha esquecido por um instante que não deixei de ter patologia mental, só não fico mais em surto o tempo inteiro. Estava tão feliz por não ter tido problemas com o bicho da cabeça, por não ter sido atacada pelo estresse durante o passeio que esqueci de me vigiar na chegada.

Nos dias de crise a vontade era dizer pra todo mundo que é tudo uma grande tragédia, que não tem solução, que vamos todos viver nesse horror pro resto da vida ou simplesmente morrer desse horror logo logo. Em vez disso eu dei um tempo pro meu cérebro, aceitei o atestado que o médico me sugeriu e editei meu vídeo do feriado pra mostrar que, apesar do medo do estresse, eu me diverti muito e já planejo ir de novo. Se eu for cuidadosa antes, durante e depois de viagens e eventos eu vou me divertir sem maiores problemas. Estou bem agora e vou continuar dizendo que dá pra melhorar, recuperar, manter a saúde e viver bem. Porque dá sim! Permaneço em remissão, não dei nenhum passo pra trás, só parei em um degrau e já estou subindo de novo. Quando a gente melhora até o monstro do ônibus fica bem mansinho e o bicho da cabeça não dá muito trabalho.

“Vigiai, estai firmes na fé; portai-vos varonilmente, e fortalecei-vos.” I Coríntios 16:13

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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