O namorado da panicosa

woman-morning-sickness-man-hugMais um relato de alguém com transtorno mental, que foi publicado no grupo de apoio do Facebook*. Desta vez, uma moça muito sortuda que encontrou um homem de verdade, coisa que está em falta esses tempos. Mais um depoimento que só corrobora o que todos os portadores de desordens mentais já sabem: o apoio emocional é extremamente importante pra qualidade de vida do doente.

“Boa noite. Hoje resolvi compartilhar uma situação que para mim, e aposto que para muitos aqui também, infelizmente já tornou-se rotina. Não costumo expor minha intimidade, mas hoje será uma exceção.
Eu estava na casa do meu namorado. Clima legal, um monte de salgadinho e chocolate, risadas e tal. Mas de repente minha visão começou a ficar turva, borrada e percebi que eu estava entrando em um episódio de desrealização, que sempre antecede uma crise. E então eu já não controlava mais meu corpo, comecei a gritar e chorar e por mais que eu quisesse não conseguia parar. Pra quem nunca passou por uma crise de pânico não conseguirá nem sequer imaginar a angústia e o medo de ficar para sempre presa dentro de si.
Durou uns 5-10 minutos, mas para mim parecia uma eternidade. E quando passou eu simplesmente me sentia envergonhada, não conseguia encarar meu namorado. Não que tenha sido a primeira crise que ele presencia, infelizmente, mas essa foi num momento de descontração, quando estávamos nos divertindo. Pedi perdão a ele, perdão por ser doente, por não ser normal, por sempre atrapalhar. Mas todo o tempo ele só me abraçava e dizia que ia cuidar de mim, mesmo enquanto eu me debatia e gritava como louca. Ele me disse “eu sempre soube que você era diferente. Não vou te deixar por isso”.
Para muitos pode ser irrelevante, mas para mim foi extremamente importante. Nunca alguém psicologicamente sadio havia me compreendido e aceitado tanto quanto ele, nem meus pais. 
Decidi compartilhar isso com vocês porque me senti forte com o apoio dele. Agora mais do que nunca acredito que o apoio moral é tão ou mais importante do que a medicação, pelo menos para minhas crises de pânico (deixei o remédio em casa ¬¬’). Enfim, sempre haverá alguém, em algum lugar que estará nos apoiando, seja aqui no grupo, seja pessoalmente. E é por isso que nós devemos lutar contra essa doença, que por mais limitante que possa parecer sempre fará parte de nós…”

* Projeto Sair do Escuro – Borderline, Bipolaridade, TOC e Comorbidades.

“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.” I Coríntios 13:4

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Sobre a dona do blog

Pecadora redimida por Aquele que morreu na cruz e ressurgiu. "Pois ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó." Salmos 103:14
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2 respostas para O namorado da panicosa

  1. Isis Medeiros disse:

    Lolla, boa tarde, vi todos os seus vídeos e me identifiquei muito. Desde criança sofro com a distimia e constantes crises depressivas, sempre me receitaram fluoxetina, porem nunca senti efeito algum, nem mesmo colateral. Ano passado entrei em crise de depressão maior, e como sempre nessas crises, vem os pensamentos de acabar com tudo. Meu medo no entanto, sempre foi deixar esse exemplo para meus irmãos mais novos, como todos fazemos parte da mesma família desfuncional, se eu, a irmã mais velha e tida como fortaleza demonstrasse que essa era a saída, acho que seria uma péssima influência. Então por amor a eles meus episódios suicidas eram sempre tentando simular um acidente. Descobri por testes que era alérgica a Dipirona, então sempre em crises eu tomava altas doses, até que por uma vez consegui ter um choque anafilático e quase morrer, tive varias paradas cardíacas, mas infelizmente ou felizmente não consegui. Como eu estava muito descontrolada, procurei minha psiquiatra pedindo uma medicação mais eficaz, pois tomava fluoxetina ha anos e so piorava, ela me receitou o exodus (escitalopram). Me senti absurdamente pior com esse remédio, atrapalhava minha visão, me fazia sentir calafrios e choques na espinha/pescoço, e a mania suicida aumentou 300%, relatei a psiquiatra que me mandou tomar por 3 meses que era quando o efeito começaria a ser visto, falava que era natural piorar. Perdi o emprego nesse período devido a meu estado, comecei a ter fortes ataques de pânico enquanto pilotava minha moto, cai varias vezes por isso, sempre sabendo e sentindo que era efeito da medicação. Apos 3 meses de puro terror, estava afastada de tudo e todos, pois até as pessoas que eu amava eu passei a sentir ódio, pois como sempre fui muito comunicativa e trabalhava regularmente, sempre me achavam engraçada e alto astral, minha família e namorado sempre encararam minhas depressões como TPM ou frescura, sempre achavam que era impossível uma pessoa “forte como eu” ter depressão, e que eu era apenas exagerada. Isso sempre me magoou muito, mas nesta crise específica em que eu estava literalmente morrendo, o descaso deles foi impossível de lidar. Sai de casa, me isolei e fiquei 3 meses em total clausura. Retirei a medicação por conta própria, e os efeitos pareciam piorar (a bula desse remédio e assustadora, tanto pelos colaterais quanto em relação ao desmame), E a base de muito alprazolam 2mg com o qual eu dormia 12h, foi que consegui ficar me dopando me dopando até passar daquela crise aguda. Continuei deprimida, mas não mais tão maniaca. Esse mês, por causa da depressão constante, ainda posta em dúvida pro todos, procurei um novo psiquiatra, após contar os detalhes dessa crise e após contar um breve historico de minha familia ( pai, tia e dois irmãos bipolares), ele me deu o diagnóstico de bipolar tipo II. Fiquei revoltada e não aceitei, pois convivi com meu pai e meus irmãos e eles são extremamente loucos, violentos, agressivos, eufóricos, não conseguem trabalhar nunca por mais de um mês, se acham melhores e mais inteligentes que todos, são pessoas visivelmente descontroladas, e eu até então, por mais que sempre deprimida e hipomaníaca, nunca deixei de trabalhar, nunca maltratei os outros, minha hipomania até me auxiliava muito no trabalho, sempre que tinha um caso novo eu passava dias sem dormir, redigindo, pensando criando argumentos, sempre incansável nos meus objetivos, sempre “determinada e proativa”. Ele então me explicou que a bipolaridade tipo ii não era igual a de meus familiares, e por isso eu nao me encaixava, ela era mais “leve” e que meu foco e determinação eram apenas hipomania, e por não dormir e estar sempre hipomaníaca, por isso eu estava sempre deprimida. Disse que jamais uma pessoa se diz maniaca e o psiquiatra entende ela como depressiva unipolar, pois mania só existe na bipolaridade e que qualquer psiquiatra sabe que receitar um antidepressivo sem estabilizador de humor a alguém em episódio maníaco é pedir pra o paciente se matar. Enfim, inicialmente ele ia me receitar quetiapina, como eu pesquisei na hora no celular o preço e disse que nao podia, ele passou Litio, cumulado com Bupropiona, e disse que eu TENHO que dormir, é uma ordem kkkkk então ele passou o alprazolam (que me dou muito bem é so não tomar mais de 2mg) pra que eu durma bem e assim não viva em crise. Meu diagnóstico foi assustador pra mim e so estou tomando a medicação desde o dia 5, mas ja vejo muito o resultado, eu falava descontroladamente e agora não sinto mais a mesma necessidade, eu também era muito irritada e impaciente com as pessoas no geral, tenho estado bem mais calma e atenciosa, outra coisa que meu esposo ja veio me falar, é que eu serpe interpretava qualquer coisa relativa a ele com a pior hipótese possível, sempre com desconfianças extremamente negativas, tecendo comentários desagradáveis ou irônicos e que isso o magoava muito, mas “que esse mês” eu to bem mais carinhosa, compreensiva e agradável. Bom, tudo isso me deu uma mexida nos conceitos, porque certas características estão tão arraigadas a minha personalidade, que eu que era vista por todos como uma “guerreira uma lutadora”, to me sentindo uma palerma, sei la, não me enxergo sendo eu mesma sem falar muito ou sem ser incisiva e agressiva, principalmente no trabalho, fico pensando se eu era muito maluca e agora que to normal to estranhando ou se eu era normal e o Litio ta me deixando dopada. Não sei. Quanto a depressão passou, mas a distimia sempre se mantém, no entanto não estou tomando a Bupropiona que ele receitou pra tomar com o lítio, porque depois do que ele disse dos antidepressivos, e dos mil relatos de “virada maníaca” que li e tbm lembrando do que eu tive, estou com medo :/ Desculpa deixar esse textão, é que é tão difícil a gente poder falar sobre isso com alguém que entenda de verdade, só quem passa tem a empatia necessária. Parabéns por se expor e falar sobre nosso transtorno, você é uma guerreira.

    Beijos e abraços :]

    ps. o grupo do facebook não pega mais?

    • Lola disse:

      Olá Isis! Primeiramente, nem se preocupe com o tamanho do texto. É bom colocar pra fora e te entendo perfeitamente. Comecei lendo seu texto e pensei alto: – Achei uma irmã gêmea! rsrs Me identifiquei totalmente com muito do que você passa e passou, inclusive com relação a esse quebra-cabeças de medicação. Entendo seu sentimento com relação ao bem estar que os estados maníacos causam. Uma amiga que também é bipolar tipo II como nós, me disse que é chato ser chata. A hipomania, ou até mesmo a mania, chega a nos fazer falta. Me sinto boba às vezes e acho que sou menos criativa quando não estou no meu estado hipomaníaco. Mas a depressão que vem depois é tão avassaladora que fico às vezes me perguntando se vale a pena não ser boba e chata. Bom, o que eu posso te dizer é que persevere e não desista do tratamento. Busque conhecer seus gatilhos de crise e não se agarre totalmente aos remédios. Eles só dão uma segurada nos nossos sintomas pra que possamos viver um pouco mais em comunidade e produzir um pouco mais na sociedade. Mas não são tudo. Os fatores externos, que não podemos controlar nos causarão crises sempre. Só precisamos aprender a gerenciar da melhor maneira possível. Essa capacidade com o tempo vem. Espero que você esteja sempre melhorando. Agradeço por compartilhar um pouco de você e da sua luta. Deus te abençoe e se precisar desabafar por aqui, o espaço estará sempre aberto. Forte abraço!

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