Confissões, Lucubrações

50.320 gritos

Foto by Fabio Stachi
Foto by Fabio Stachi

É nauseante para mim tocar nesse assunto, mas eu não posso deixar de compartilhar. Vi um dado estatístico na internet que me chamou a atenção. Decidi verificar as informações e acabei confirmando a atrocidade. Infelizmente é verdade. Segundo a 8ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2012 foram registrados 50.224 estupros no Brasil. Em 2013 o número subiu um pouco: 50.320 estupros. Números de modo geral não me apetecem mas a pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública é séria. Eu sempre soube que são muitos os casos de abuso sexual, mas 50.320 para mim é um número asfixiante. Mais asfixiante ainda é pensar que são somente os casos registrados. E os casos que ficaram escondidos, quantos são? Nem consigo imaginar quantas outras mulheres e meninas sofreram e sofrem abusos sexuais caladas. Quantas tiveram e tem seu grito abafado por qualquer que seja o motivo?

São gritos recolhidos, engasgados e sufocantes. Gritos que se fossem emitidos a plenos pulmões talvez ainda não tivessem a atenção merecida. Gritos silenciosos que se encolhem lá dentro num cantinho qualquer, em meio à escuridão, e endurecem, adoecem, apodrecem tudo. Quantas Chapeuzinhos Vermelhos não puderam nem podem pedir socorro a um caçador? Quantas estiveram na boca do lobo e quantas permanecem mudas de medo e vergonha? Quantas, meu Deus? Me pergunto quantos são os caçadores que viram o perigo, escutaram os gritos, mas simplesmente fecharam os olhos e tamparam os ouvidos. Quantos são os covardes, coniventes, falsos surdos? Vou parar por hora, o assunto me maltrata. Talvez eu escreva mais sobre isso quando conseguir respirar melhor, pois amo usar as letras para gritar quando alguns números sufocam e tiram a voz. Mas há tempo certo para tudo nessa vida, inclusive para gritar. Meu fôlego para fazer isso vem e continuará vindo do Senhor nas horas certas, assim como a vitória sobre toda a doença.

“Tudo tem o seu tempo determinado, e tempo para todo o propósito debaixo do céu (…) Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;” Eclesiastes 3:7 e 8:6.

Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo.” I Coríntios 15:57.

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Lucubrações

Compensação da deficiência

“Não se deve então ler a patologia mental no texto demasiado simples das funções abolidas: a doença não é somente perda da consciência, entorpecimento de tal função, obnubilação de tal faculdade. No seu corte abstrato, a psicologia do século XIX incitava esta descrição puramente negativa da doença; e a semiologia de cada uma era muito fácil: limitava-se a descrever as aptidões desaparecidas; a enumerar, nas amnésias, as lembranças esquecidas, a pormenorizar nos desdobramentos de personalidades as sínteses tornadas impossíveis. De fato, a doença apaga, mas sublinha; abole de um lado, mas é para exaltar do outro; a essência da doença não está somente no vazio criado, mas também na plenitude positiva das atividades de substituição que vem preenchê-lo.”
Michel Foucault (Doença mental e Psicologia, 1954).

Starry_Night_Over_the_Rhone
Starry Night Over the Rhone, Vincent van Gogh, 1888, Musée d’Orsay, Paris.

Não há nenhuma desgraça que não traga consigo um aprendizado. Nenhuma deficiência vem sem meios de compensação dela própria.

“… e isto vos sirva de consolação.” Jó 21:2 b

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