Confissões, Lucubrações

Silêncios eloquentes

A tirinha abaixo me fez lembrar de um termo que li em algum lugar quando era criança: silêncios eloquentes. Quando li consegui ter uma ideia do que queria dizer só esmiuçando o significado de cada palavra. De uns anos pra cá tenho entendido mais sobre o sentido disso. Atualmente percebo que em certos momentos o silêncio transmite muito mais do que as palavras, e as conversas silenciosas às vezes são as melhores. Lembrei também das vezes em que eu me ajoelhei pra orar e não saía nenhuma palavra da minha mente. Só conseguia chorar e sentir. Mesmo assim, tinha a certeza de que minha oração iria chegar ao seu destino, pois se eu não conseguia dizer nada ao meu Pai Celeste, o Espírito Santo o faria por mim. E uma ou outra vez tive quem ficasse lá sentado ao meu lado sem dizer nada enquanto eu chorava ou me apavorava. Presenças silenciosas ajudam mais do que se imagina. Quando as palavras faltam é bom ter alguém sensível com quem se possa conversar em silêncio.

psicanálise
Pra descontrair!

“E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.” Romanos 8:26

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Confissões

Furiosa bonança

Quem não tem nada a esconder não tem vergonha de mostrar seu lado mais azedo junto com seu lado mais doce. Todos tem os dois lados, mas a maioria prefere continuar mostrando somente as fadinhas da alma e escondendo os dragões mais horrorosos que tem por dentro.

A perfeição dos contos de fadas não funciona na vida real. É digno mostrar a todos tanto a bruxa quanto a princesa, em vez de fazer de conta que só existe o bom mocismo e a personalidade de realeza. Assim, quem se aproximar não vai estar sendo enganado achando que receberá apenas o que de mais doce e belo alguém tem a oferecer. Vão sabendo que junto também podem se deparar com toda a feiura e o azedume de um ser.

bolas de sabão

Isso é ser humano e eu sou muito disso. De um extremo ao outro, em alta velocidade e com violência maior do que minha saúde consegue suportar. E, infelizmente, com dramaticidade e intensidade maior do que minhas pessoas conseguem tolerar.

Sinto muito, sou eu. Com emoções mais furiosas do que eu mesma gostaria (as quais dificilmente controlo sem medicação), mas sou eu. Não tenho nada além disso pra oferecer.

“E, chegando-se a ele, o despertaram, dizendo: Mestre, Mestre, perecemos. E ele, levantando-se, repreendeu o vento e a fúria da água; e cessaram, e fez-se bonança. “Lucas 8:24

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Lucubrações

“Pare de pisar em ovos”

elétrica

“Eu te odeio, não me abandones” – O Psicodrama Borderline

Imaginem uma pessoa que por algum erro constitucional nascesse sem pele. Qualquer toque, por mais leve, provocaria dor e reação intensa. Assim é o borderline, o que lhe falta é a pele emocional.

Buscando, de modo simplista, a fórmula de produção desta patologia, poderíamos pensar que uma criança demasiadamente sensível, em contato com um ambiente invalidador, multi-abusivo e destruidor de sua autoconfiança básica, tende a desenvolver comportamentos defensivos que se constituirão nas próprias características do distúrbio.

Como adulto, o borderline acaba reproduzindo as características invalidadoras de seu meio: invalida suas próprias experiências emocionais e busca nos outros interpretações sobre a realidade. É incapaz de resolver problemas rotineiros, tem dificuldades generalizadas de “como viver”. Formula objetivos pouco realistas, não valoriza pequenos êxitos e se odeia diante dos insucessos. A reação característica de vergonha é o produto natural de um ambiente que envergonha quem demonstra vulnerabilidade emocional.

O sofrimento e as reações emocionais são extremas: o que seria apenas embaraçoso, torna-se, para ele, profundamente humilhante; desagrado pode tornar-se ódio; culpa leve, torna-se vergonha; apreensão transforma-se em pânico. Prisioneiro das próprias emoções, basta um pequeno estímulo para provocar reações intensas, crises de fúria que confundem e assustam as pessoas à sua volta e ele mesmo. Cria grandes tragédias das quais reclama com fúria crescente, culpando os outros pela situação em que se encontra. Quanto maior a expressão da raiva, mais o borderline se convence e tenta convencer os outros de que são responsáveis por seus sentimentos. E como suas respostas emocionais são de longa duração (lento para voltar a um nível emocional adequado) permanece altamente sensível ao próximo estímulo.

Tendo seu desenvolvimento emocional detido nas primeiras fases, o borderline é uma criança num corpo adulto e, como a criança, é impulsivo, não sabe esperar, não aceita se frustrar, tem dificuldade em simbolizar conceitos abstratos.Tenta conseguir tudo que quer o tempo todo, a qualquer custo. Em resumo: o borderline tem imensa dificuldade em lidar de forma adequada com suas emoções e a terapia precisa encontrar caminhos: primeiro para não se deixar destruir por demonstrações emocionais grandiosas; segundo para não destruir a precária estrutura emocional que o paciente apresenta; por último, para conseguir formas criativas de fazer pequenos “enxertos” (ele não possui “pele emocional”) e dar algum invólucro que lhe possibilite crescer e se desenvolver dignamente.”
Trecho do livro Stop Walking on Eggshells, de Paul Mason MS e Randi Kreger

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Lucubrações

A gente não faz amigos

amigos

“Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. Amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências…

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí,e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo. Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer…

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente, os que só desconfiam – ou talvez nunca vão saber – que são meus amigos! A gente não faz amigos, reconhece-os.”
Vinícius de Moraes

“Como o ferro com ferro se aguça, assim o homem afia o rosto do seu amigo.” Provérbios 27:17

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