Confissões

Choro do cansaço

flutuando

Descansar é uma necessidade do corpo. Escrever é uma necessidade da alma. E agora? Suprir o corpo ou suprir a alma? Alma cansada é bem pior do que corpo cansado. Este se refaz com sono, aquela precisa se rasgar e se refazer para se considerar descansada. Quando ambos estão cansados talvez possam fazer algo juntos para resolver isso. Parece estranho, mas quando estou cansada eu choro. Isto é por causa da alma que sempre cansa antes do corpo. Quando o corpo está exausto a alma já está em coma. Mas o que fazer quando não se pode abrir as comportas na hora em que o choro vem? Quando o choro não sai ele vira outra coisa dentro, vira doença no corpo e na mente. Ele tem que sair de alguma forma. Se não sai na sua forma usual, escorrendo líquido pelos olhos, pode sair em forma de palavra escrita ou falada, de canto, de instrumento tocado, de papel desenhado, de tela pintada etc. Acima de tudo o choro pode e deve sair em forma de oração sentida e pensada. O choro às vezes é de presente pesando sobre os ombros, às vezes é choro de passado sendo arrastado, às vezes é choro de um futuro comprido e cheio de pedras. Às vezes o choro fica cansado demais para sair pelos olhos e talvez não saia de nenhuma outra forma. Às vezes é cansaço demais e choro contido demais para continuar escrevendo qualquer coisa que faça sentido. Que venha o Espírito levar o cansaço e tudo o mais que não consegue ser chorado!

“Porque te esquecerás do cansaço, e lembrar-te-ás dele como das águas que já passaram.” Jó 11:16

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Lucubrações

Análise em 1ª pessoa: o muro das desculpas

desert wall.tif

Para me disponibilizar para o serviço eu precisava que os empecilhos saíssem do meu caminho. Eles saíram mas eu continuo não me disponibilizando. Estou achando que minha indisponibilidade para os trabalhos não era por causa dos muros, mas pelo meu individualismo, que é maior do que a vontade de fazer algo pelo dito trabalho. E esse trabalho, mesmo não sendo meu, é muito importante. Alguns obstáculos são meras desculpas. Quando eles saem da minha vida, não tendo mais como justificar minha falta de atuação e minha indisposição para contribuir, eu logo trato de elaborar novas desculpas e criar novos impedimentos. Se não me solicitam eu nem me incomodo, pois eu já nem queria fazer nada mesmo. Foi tirado o que me impedia de servir, então preciso de outra desculpa urgentemente. Prossigo construindo meus muros, ainda que apenas eu os sinta, e vivendo no meu confortável mundo isolado onde não preciso dar contribuição nenhuma e nem prestar contas com ninguém.

“E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra;” II Coríntios 9:8

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Confissões

Escolhas amargas

Às vezes fazemos escolhas esperando que o que é bom se aguce e o que é ruim se ajuste. Fé, otimismo, sei lá o que nos fazem escolher certos caminhos aguardando o melhor. Infelizmente não nos preparamos para o pior, para tudo o que é difícil de degustar. Às vezes a comida que parece tão gostosa e que tem um cheiro tão bom, depois de colocada na boca, revela o gosto amargo de alguns temperos. Então, ou cata-se o tempero amargo ou joga a comida toda fora. Ficar com a boca amargando é que não dá.

jiló

“… e na minha boca era doce como mel; e, havendo-o comido, o meu ventre ficou amargo.” Apocalipse 10:10 b

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Confissões, Lucubrações

Sabor de saber

polímata

Saber.
Do latim sapĕre.
1. Ter sabor, sentir por meio do gosto;
2. Ter inteligência;
3. Conhecer, compreender.

Não sou polímata, mas amo saber. O saber e o sabor são feitos na mesma panela. Não é à toa que desde pequenos nos mandam devorar livros. E eu aqui, prefiro um milhão de vezes saber um pouquinho de cada coisa a saber um milhão de coisas sobre só um pouquinho. Não tenho a pretensão de me tornar especialista mor em uma única área. Me basta saber um pouco sobre várias e o suficiente sobre as que mais me apetecem dentre as várias. A mim não importa estar presente em um lauto jantar para matar a fome com um só prato ou ficar sem provar nada. De fato não penso ser interessante não saber nada sobre o todo, mas também não me interessa saber tudo sobre quase nada. Quero degustar cada iguaria, sentir um pouquinho do amargo, do doce, do azedo, do salgado e do, relativamente novo, umami.

Os conhecimentos em geral são saborosos, apesar de alguns me desgostarem. Humanas tem gosto de tacacá e são meu prato preferido. Ah, se eu pudesse saborear todos os dias! Meu estômago certamente não aguentaria. Exatas são panelada com jiló ou carne de caça sendo fervida. Só o cheiro me nauseia. Biológicas são minha salada: como com gosto se for bem temperada, mas como sem graça se não tiver um bom molho. O que eu vou pensar, ler, estudar, pesquisar, conversar, devorar com mais dedicação? Sei lá! Mas é sempre bom saber que tenho muitas opções para quando eu sentir fome ou quiser só beliscar. Se o muito saber sobre o pouco e o pouco saber sobre o muito, igualmente e com o tempo, podem causar congestão e desvario, é melhor eu matar minha fome com muitos pratos diferentes, degustar e desvariar nos mais diversos sabores e saberes existentes.

“Achando-se as tuas palavras, logo as comi.” Jeremias 15:16 a

“… as muitas letras te fazem delirar.” Atos 26:24 b

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