Lucubrações

A lista do “Tem Que”

Todo mundo nasce com uma lista de coisas a fazer pela vida afora. Eu chamo de lista do “Tem Que”, e simplesmente não a suporto. Reclamo que reclamo, mas não adianta! Nunca consegui me livrar da dita cuja e nem cumprir com todos os itens. Às vezes são até exigências simples, mas às vezes são  injustas. Alguns itens estão no nosso DNA, nascemos querendo executá-los, mas alguns itens vão colando no nosso corpo e mente contra nossa vontade a medida em que vamos vivendo. Tenho corrido com medo de alguns grudentos desses, mas parece inútil correr. Dos itens que eu desejo e consigo cumprir eu não reclamo, mas não quero tolerar aqueles para os quais não tenho nenhuma inclinação de gosto ou condições de execução. Bom, enumerei alguns dentre os muitos itens constantes na lista do “Tem Que”:

1) Tem que se formar logo no curso universitário mas almejado pela massa;
E não pode mudar de ideia, não pode querer mais outros cursos, tampouco parar um tempo por necessidade. Escolha a área e siga somente nela pela eternidade. Variar pra que? Ter curiosidade e querer adquirir outros conhecimentos pra que? Testar-se intelectualmente pra que? Vai ter que se graduar o mais rápido possível naquilo que a maioria quer e estudar só isso durante toda a vida. E esqueça isso de “satisfação pessoal”.

2) Tem que casar antes dos 30 anos;
Não importam as circunstâncias da vida ou a vontade de Deus. Se não casar pelo menos antes dos 30, você é uma aberração. Sempre que te virem na rua vão te torturar com frases do tipo “Mas você ainda não casou?!” ou “Não acredito! Tão nova, bonita, inteligente. Como pode ainda ser solteira?”. O saco vai enchendo, mas não importa. Você tem que aguentar sem explodir!

3) Tem que ter filhos e o primeiro tem que ser cedo que é pra dar tempo de ter mais depois;
Obrigatória e impreterivelmente você tem que procriar, e tem que ser na flor da juventude. Se não quiser filhos e cedo, você não é de Deus, você é do cão. Todos são obrigados a “deixar sua semente na terra”, e rápido. E se pensa que vai ter um único filho sem ser julgado, pode esquecer! Tem que deixar a prole no mundo e a prole tem que ser no plural.

4) Tem que passar em um concurso público incrível com urgência;
Arrume o mais cedo possível um “emprego de excelência”, o qual, se você passar a detestar com o tempo, não poderá largar por outro. Afinal, o salário é muito bom. Se gostar do seu emprego que paga bem, além de ser feliz na profissão, vai ganhar no mural da vida uma ‘estrelinha de bom menino’. Mas se não gostar, não se preocupe sobre tédio ou frustração com seu cotidiano laboral. A programação da TV que você vai ter dinheiro para pagar todo mês vai compensar a insatisfação com seu trabalho. Você só tem que chegar do trabalho, ligar a TV e pronto!

escrevendo a lista

Tem Que, Tem Que, Tem Que… Posso jogar essa lista fora e esperar a lista que Deus escreveu pra mim? Posso? Tenho certeza de que a lista que Deus preparou pra minha vida, embora possa conter alguns elementos da lista do “Tem Que”, é muito mais leve e descansada. Sei que a lista de Deus leva em conta o que eu preciso e não apenas o que eu desejo. A lista do “Tem Que” desse mundo perturbado é longa, pesada e cheia de solicitações que eu não tenho condições de atender. Ainda bem que o meu Deus fez uma lista sob medida, com itens dos quais eu sem dúvida poderei dar conta. E é essa lista que eu quero.

“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” Mateus 11:29-30.

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Confissões, Lucubrações

Fundamentalismo, ignorância e preguiça

Fundamentalismo talvez seja a palavra mais erroneamente utilizada dos últimos tempos. Jornalistas, políticos, estudantes, blogueiros e professores, em sites, na TV, nos jornais, em blogs e nas rodas de conversa. Como satura! Em quase todos os lugares há pessoas estudadas utilizando o termo de maneira generalista e imprópria. Como podem ser tão inconsequentes as pessoas que usam o termo fundamentalismo em referência a todo o tipo de radicalismo religioso?

Pior! Muitas vezes usam o termo em referência às religiões de modo geral, nem precisam ser sistemas religiosos impositores. Como pode gente instruída ter o significado real e o adequado emprego do termo e suas variações em ponto cego? Como conseguem insistir no erro mesmo quando corrigidos amiúde? Quando vão aceitar que o problema não é o fundamentalismo, mas sim o fundamento? O integrismo por si só não é ruim. Mas aquilo em que se baseia o integrismo e a atitude dos que o exercem é que podem se tornar prejudiciais.

O maior ignorante não é o que não sabe, é o que não quer saber. Essa ignorância praticamente deliberada e esse desinteresse pela verdade me geram uma inevitável preguiça de continuar insistindo em tentar explicar. A partir de agora, quando pessoas ditas intelectualizadas, utilizarem ‘fundamentalismo’, ‘fundamentalista’ etc de maneira equivocada, desprezando o real sentido destas palavras, vou apenas sorrir e sair da conversa ou do recinto. Preciso evitar a fadiga e poupar meu cérebro para conversas que edifiquem mais e para pessoas que queiram compartilhar saberes.

Acho que "não é preguiça. É redirecionamento estratégico de energia vital."
Acho que “não é preguiça. É redirecionamento estratégico de energia vital.”

“O tolo não tem prazer na sabedoria, mas só em que se manifeste aquilo que agrada o seu coração.” Provérbios 18:2
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Lucubrações

Mestres do bolo solado

O texto abaixo é de 2012. Escrevi para o dia dos professores.

petra

No dia 15 de outubro de 1827 o nosso querido Pedro I decretou o Ensino Elementar no Brasil. Pulando ‘um pouquinho’ para o dia 15 de outubro de 2012, devo confessar que fiquei contente em estar livre do meu estágio obrigatório da faculdade de Letras Português/Inglês e poder descansar um pouco, pois ontem os alunos das duas escolas nas quais faço estágio de observação, decidiram, como sempre fazem, organizar a festinha de Dia do Professor (e eu gosto mais quando se diz Dia do Mestre). Foi feriado e o aluno que passa o ano inteiro desgostoso por ter que fazer as tarefas tem o maior prazer em ir para sua cozinha e fazer aquele bolo que parece sola, aquele brigadeiro a ponto de açucarar (no frio de 40° daqui do Norte) e levar aquele guaraná de 2 litros que chega lá já frio, e não gelado, e ainda esquenta antes dos parabéns e da entrega de lembrancinhas.

Bom, deixando a festinha de lado, confesso que o estágio obrigatório está me deixando cada vez mais chocada. Chegar em uma sala de aula de 9º ano, com alunos de 14 a 16 anos e ter que se deparar com uma professora realizando ditado de palavras é para chocar alguém que, com 6 anos de idade subia na parede de livros da avó e derrubava tudo para poder pegar um para ler, assim de brincadeira, por pura curiosidade e pelo prazer de ler. Eu poderia até levar uma bronca e ficar com a promessa de umas palmadas pela bagunça, mas corria da peia com o livro na mão. A professora se justificou quando eu perguntei o porquê daquela tarefa: “Me vi obrigada a fazer isso, pois eles não sabem escrever. Não conhecem as palavras”.

O choque aumenta quando descubro que a Secretaria de Estado de Educação baixou a média de 7,0 para 5,0. O que será que está acontecendo? Na minha época, na escola particular (que se dava o maior duro para pagar) a média era 8,0. Por que isso agora? Acho que os alunos não conseguem mais alcançar os 7,0 pontos de média em cada bimestre. Tiveram que descer ao nível deles por não conseguirem estimulá-los a subir, e também para que o índice de reprovação não gerasse uma vergonha estadual nas estatísticas.

Tive minha experiência de apoio em sala de aula, tirando dúvidas, ajudando com tarefas etc. Saí com a mão cheia de papeizinhos dobrados, que eles utilizavam para jogar uns nos outros (clássico!), e o queixo arrastando no chão com tanta falta de entendimento. Uma tarefa de leitura e interpretação de texto com 3 perguntas simples, toma mais de 50 minutos de aula, pois os alunos passam o tempo todo reclamando que está difícil, que não sabem as respostas, mas não querem ler o texto, querem a resposta pronta. Só querem terminar a tarefa para ganhar um visto e acumular décimos para passar de ano.

A pergunta: Em qual veículo de comunicação o texto foi publicado? Gera outra pergunta: “Professora, o que é veículo?”. A pergunta: “Para qual público-alvo o texto foi escrito?” É respondida com: “Pro cachorro?”. Eu, sem acreditar no que ouvia, repliquei: “Por que você acha que o texto é para o cachorro?” A segunda resposta me deixou mais desorientada ainda: “Porque ele tá fazendo aniversário!”. O texto em questão foi retirado do jornal O Estado de São Paulo (que os alunos não sabiam o que era) e falava sobre pessoas que tratam seus animais como seres humanos. Havia a imagem de um cão com seu bolo de aniversário para ilustrar, mas no texto não se fazia menção à imagem.

Fiquei pensando: Eu que sou chata ou o mundo está em processo de ‘burralização’? Talvez as duas coisas. Mas por Deus! Eles tem 14, 15 anos de idade. Nessa idade eu estava lendo Lucíola e adorava esperar em consultórios médicos, só pra poder passar o radar na Veja, na Época, na Isto é e na Vogue, pois também sou menina, mas gosto de saber de tudo. Não custa nada ser menininha mas ter ao mesmo tempo um interesse por algo além dos vestidos do red carpet do Oscar e maquiagem.

Essas pessoas saem da adolescência e se tornam jovens que só estudam o suficiente para passar no vestibular, depois só querem saber qual conhecimento é necessário para passar em um concurso ou em um processo seletivo qualquer, para que possam casar e ter filhos. Pois a coisa mais interessante e instigante da vida deles é encontrar um grande amor, e morrer nisso. Ou seja, Sermões de John Donne não instigam curiosidade, Isaac Asimov não interessa, Revista Times não é importante, música de Chopin não te leva a outra dimensão sem sair do lugar, pois não é ouvida, ‘A Rosa’ de Pixinguinha não é música romântica de qualidade, é música de velho, e que diacho é Esperanto?

O que interessa é o lixo auditivo do Latino com mulheres seminuas rebolando e sendo vistas como meros pedaços de carne a serem devoradas pelos abutres. O que interessa é comentar “kkkkkk” ou aqueles outros sinais indecifráveis que parecem código morse (*-* por exemplo) para tudo que se escreve no Facebook, sem mais nenhum comentário interessante ou mesmo engraçado. O que importa é só ver filme da moda. Não condeno totalmente, pois também gosto, mas ninguém viu ‘E o vento levou’ (300 vezes como eu), não houve interesse em saber por que o DVD de ‘Dio, come ti amo’ da locadora está destruído de tantas locações e ‘Casablanca’, para muitos, é onde mora o presidente dos EUA. Desisto!

Enfim, nunca quis ser professora, pois vejo a saúde da minha avó hoje em dia, e ela nunca me estimulou a isso, talvez querendo me proteger de tanto estresse. Ela andava pelos ramais, hora enlameados, hora empoeirados, subia rio em canoas cujo motor eram os braços e um remo, para lecionar em lugares que contando ninguém acredita. Os alunos enfrentavam as mesmas dificuldades e até mais para poderem chegar ao local onde estudariam. Mas aluno nenhum faltava aula e cada palavra da professora era devorada com a mesma sanha de uma pessoa que está há dias sem comer e se vê na frente de um prato de arroz com feijão. Dessas turmas saíram pessoas excepcionais, provadas e aprovadas, e minha avó lembra de cada uma delas.

Minha avó está aposentada agora, curtindo seu descanso mais que merecido e cuidando da saúde prejudicada por anos de labuta no ensino e formação de pessoas. Mas mesmo assim liguei para ela desejando Feliz Dia do Mestre por tudo em que contribuiu e por tudo que passou. E quanto aos alunos de hoje, só lamento! Parece que quanto melhores são as condições de estudo, mais desinteressados eles estão. Lamento pelo fato de os mais desinteressados terem, muitas vezes, salas com ar condicionado, banheiro limpo e livros bem cuidados. Lamento por terem acesso à internet e não saberem o que há no site Domínio Público. Lamento por matarem aulas para namorar e fazerem filhos aos 15 anos de idade. Lamento por eles serem, e talvez continuarem sendo até adultos, somente mestres do bolo solado.

Publicado em 15 de Outubro de 2012 no site vivendocidade.com.

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