Tempo de estranhar e de deixar de estranhar

Hoje é 30 de abril de 2020, e estou terminando de quebrar a inatividade deste meu cantinho. Já me percebo imago, mas sempre retorno ao casulo quando sinto que preciso. Voltei a escrever preguiçosamente no dia 12, domingo de Páscoa. Um domingo sem programação no templo da igreja, sem peça teatral sobre a morte e a ressurreição de Jesus, sem ajuntamento devido ao risco de contágio pelo vírus.

Que páscoa estranha! Se há tempo para tudo debaixo dos céus, estou convencida de que há tempo de estranhezas; esse tempo chegou para mim ano passado, com processos dolorosos de uma vida inteira caminhando lentamente para seu desfecho, com um aniversário em estado depressivo (não tão estranho assim, pois já vivi isso), com uma inquietação confusa em relação à sobrevivência na Terra e uma sensação de fim de linha na área pessoal.

O Natal do ano passado também foi estranho, com aquela vontade de fazer nada, de reunir com ninguém, de ficar em casa. Um período natalino sem cara de Natal. No dia da peça da igreja eu fui, e como fiquei feliz por estar ali ouvindo a mensagem, cantando com todos os irmãos! Estava meio ausente do ajuntamento, mas aquele momento me alegrou e acalentou minha alma que andava aflita. E eu usei laranja, cor quente que não lembro quando na vida eu usei antes. Estranhei, mas depois gostei.

A virada de ano foi igualmente incomum. Eu, que nunca dispensei uma queima de fogos, neste último Réveillon sequer quis sair de casa. Pela janela do apartamento, de pé sobre um pufe, acompanhei explosões e assobios vindos de várias partes da cidade; as luzes coloridas no céu eu consegui apreciar de longe. Não tive muita empolgação e entrei em contato com aquilo sentindo um misto de satisfação e melancolia. Fui dormir com a certeza de que o dia seguinte não teria aquela sensação gostosa de ano começando, de ciclo cheirando a novo.

Seguiu-se um mês de janeiro atípico. Eu, de férias das aulas, mas com as férias do trabalho suspensas, cumprindo 10 horas além da minha carga horária semanal, acumulando um banco de horas que me serviria mais tarde para compensação no período letivo da faculdade. O efeito dessa dinâmica eu senti em fevereiro, quando tive uma quinzena de férias na qual nos mudamos de apartamento e eu, que iniciei o ano um tantinho melancólica, terminei de cair no poço da crise depressiva. Definitivamente, não nasci para trabalhar o dia inteiro. Ademais, tolerar gente conscienciosa demais no local de trabalho me deixou sugada; e esse assunto mereceria uma postagem inteira, mas não sei quando vou fazer.

Já estou em casa desde o dia 20 de março; uma sexta-feira na qual acordei com dores nas articulações e já nem fui trabalhar. Desde então saí duas vezes com minha irmã; uma vez para entregar máscaras que nossa mãe tem costurado para vender e doar, e outra vez, dias antes, para ir ao supermercado. Esta última ocasião não foi bem um passeio, mas mereceu batom, rímel e cachos presos, pois foi uma saidinha depois de 14 dias dentro do apartamento. Quis ao menos gastar maquiagem, pois não uso há semanas, e parecer saudável também. Não que eu não esteja saudável, mas uma boca corada dá “um ar de viva”, como uma vez me disse minha avó. 

Estranhamente a convivência familiar não tem sido insustentável como imaginei que pudesse ser. Estranho que ainda não tenha havido nenhum quebra-pau dos grandes por aqui. Que Jesus nos ajude a permanecer apenas com pequenos desentendimentos bobos, se não der para ter plena paz. O feitio de máscaras tem ajudado; entreter a criança da casa tem sido importante. No mais tenho me esforçado como posso pelos cuidados com a saúde, comendo direito e me movimentando. Comecei utilizando as escadas do meu bloco para me exercitar, subindo e descendo rápido, fazendo flexões, agachamentos e elevação para as panturrilhas. Estava correndo também, mas precisei parar pois os joelhos se queixaram.

Nunca pensei que pudesse ser grata pelos vários lances de escada contra os quais, vez ou outra, bodejei ao chegar do trabalho ou da faculdade cansada. A escadaria do prédio se tornou a minha academia, o corredor de entrada e a garagem viraram a pista de corrida, meu tapete de yoga e a bola de pilates fazem as vezes de estúdio ou clínica. Fora isso, limpeza de pele caseira com máscara de cremes rejuvenescedores, hidratação capilar, unhas feitas e pintadas, tudo isso já houve por aqui e tem sido elemento importante para eu me sentir bem nesse momento.  Orações, meditações, leituras Bíblicas se fazem mais presentes nos meus dias, noites e madrugadas, mas ainda não como eu gostaria.

Infelizmente meu sono desregulou, voltei a ser notívaga e já começo a sentir que a dedicação ao cumprimento de obrigações não tem sido suficiente. Me chateia que demandas do trabalho e da faculdade estejam recebendo atenção picadinha. Disfarço bem, mas não estou satisfeita; a sensação de falta que me desconcentra – e que não é culpa da pandemia – tem ocupado espaço demais. As necessidades do pós-pandemia já começaram a me desregular no aqui e agora, porém não há ânimo para supri-las como eu gostaria e a ansiedade já me acena de longe. Fico pensando se essa sensação não seria um pouco da loucura da produtividade sussurrando dentro de mim, como se eu não estivesse dando o bastante.

Não sei. Só sei que nos últimos meses o mundo inteiro se vestiu de distopia e eu, ao me dar conta do momento em que a Terra está, sinto um estranho misto de alívio e pesar. Acho que a paranoia pela sobrevivência começou a encontrar sentido. A inquietude e as sensações estranhas que vivencio há meses estão ganhando significado. Apesar de tantas mortes eu quero permanecer tranquila, pois o planeta está se autorregulando e eu preciso acompanhá-lo e fazer o mesmo. Não tenho certeza sobre o futuro e só posso esperar pelas promessas de Deus; mas o que eu mais sei, no aqui e agora, é que preciso que o Senhor continue me dando o sossego necessário para continuar não estranhando tanto o que está acontecendo. São dores de parto na nossa existência. Que prossigam os gemidos da criação até que tudo seja consumado.

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Céu ao entardecer, by @casulodelola

Tudo tem o seu tempo determinado…” Eclesiastes 3:1 a

“Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.” Romanos 8:22

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Prioridades provadas

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É diante da Porta que O Pai Celeste coloca à prova as prioridades de Suas ovelhas. Jesus é a porta e mesmo os que já atravessaram e encontraram as pastagens precisam ser lembrados da beleza que há nelas. Precisam ser sacudidos para que vejam quão verdes e viçosas são. Precisamos lembrar que nossa prioridade é o Senhor e que o campo da nossa vida com Deus é belo, mas precisamos caminhar através dele para podermos sentir todo o seu esplendor. É diante da Porta, na presença do Senhor, que são testadas as ovelhas.

Tornou, pois, Jesus a dizer-lhes: Em verdade, em verdade vos digo que eu sou a porta das ovelhas (…) Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens.” João 10: 7, 9

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Chuva no deserto

“Tantas lutas, tantas dores, num deserto pareço estar. Mas te entrego os meus temores, sei que em Ti Senhor, posso confiar.” D.T.

Pouca vida se sustenta no deserto. O deserto pode ser um local bem ingrato se não nos mantivermos conscientes de sua finitude. O deserto não é a galáxia, não é o universo inteiro, não é nem a terra toda. É um vasto pedaço de terra sem sombra, com pouca ou nenhuma água, calor escaldante durante o dia, frio de gelar durante a noite. O deserto é solitário e inóspito.

Mas no deserto Jacó lutou e recebeu junto com a bênção uma marca que o acompanharia pela vida afora. Ficou coxo, mas fez as pazes com o irmão. Foi no deserto que Deus mostrou Suas maravilhas e provisão a um povo que, mesmo rebelde, era amado. Israel foi alimentado sem precisar trabalhar muito para isso. Foi no deserto que Jesus foi provado e venceu as investidas de satanás. Ele foi tentado sentindo fome, enquanto nós muitas vezes reclamamos de barriga cheia.

O deserto se apresenta de várias formas na vida de todos, sejam servos de Deus ou não. Nada é fácil no deserto, há mais areia do que oásis. Mas se fosse a vida o tempo inteiro um oásis, ninguém almejaria a verdadeira pátria e destino final, a prometida cidade celeste, na presença segura e amorosa do Senhor. E é com esta promessa que devemos caminhar através do deserto, com paciência apesar da angústia, com fé apesar da incerteza, com perseverança apesar do medo.

Devemos lembrar que o Dono de todas as coisas até no deserto pode fazer chover e brotar vida, pois “quem abriu para a inundação um leito, e um caminho para os relâmpagos dos trovões, para chover sobre a terra, onde não há ninguém, e no deserto, em que não há homem; para fartar a terra deserta e assolada, e para fazer crescer os renovos da erva?” (Jó 38:25-27). Quando Deus nos leva ao deserto de vez em quando é por que nos ama e quer nos provar, reconciliar, prover, abençoar e nos tornar dependentes dEle.

 

Encantamento e chavascais

Não poderia deixar de compartilhar um texto que me foi apresentado por um dos meus “anjos humanos”. São palavras muito significativas que claramente mostram alguém que está se enxergando como é, não sei se pela primeira vez ou mais uma vez na vida. É importante sempre lembrar quem somos e de quem dependemos. É doloroso e ao mesmo tempo um alívio quando reconhecemos nossa natureza, nos deparamos com todas as deficiências inerentes à alma humana e nos colocamos em nosso devido lugar, que é debaixo da poderosa mão do Senhor.

“Senhor, eu sou o que Tu sabes que sou: um pecador; o pior de todos os pecadores!
Faço ou reajo muitas vezes ao que odeio, e não raro passo omisso por caminhos nos quais deveria parar e ficar. Subitezas ainda me assolam, e assusto-me comigo mesmo. 

Posso ter revelação e a seguir uma cogitação que não procede de Ti.
Posso abençoar a um e maltratar a outro, sabendo ou não disso.
Há uma espada e um algodão encharcado de bálsamo em minha língua.

Por vezes sinto que a espada vence o poder do bálsamo, embora seja pelo bálsamo que meu ser anele sempre.
Peço a Ti perdão aos que magoei ou possa ter indevidamente magoado!
Rogo ao Teu Santo Espírito que transformes todo o mal que minha existência possa ter causado a qualquer pessoa, amiga ou não, em benção e Graça.

Conheço o meu pecado.
Sou filho de trovões, de trombas d’água e de precipitações torrenciais.
Nesta floresta que sou há encantamento e chavascais.
Senhor, perdoa a minha alma, enche-me da Tua alegria, e faz-me ver a alegria de todos a quem eu possa ter ofendido neste mundo.

Esta é a oração que sei que o Teu Espírito ora em mim!
No Nome que está sobre todo nome, e que tem poder de quebrar toda seta maligna, peço a vitória da Tua misericórdia!”
(Caio Fábio)

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Cavam e não acham

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Cavam nas minas. Cavam que cavam. Procuram as pedras e os metais brutos para serem purificados e modelados. Metais e pedras que ninguém nunca soube desde quando lhe foram atribuídos os devidos valores. Pedras e metais escondidos na terra.

Será que a sabedoria se esconderia tão profundamente para não ser encontrada? Será que ela é como brisa que refresca, mas não se vê? Será que está tão na cara que a vemos desfocada e colada em nossos narizes? Se a sabedoria se escondesse nas profundezas da terra, muito arraigada nas rochas, será que lhe seria atribuído valor como o dos minérios? Escavariam perseverantes em busca dela?

“Na verdade, a prata tem suas minas, e o ouro, que se refina, o seu lugar. O ferro tira-se da terra, e da pedra se funde o cobre. Os homens põem termo à escuridão e até aos últimos confins procuram as pedras ocultas nas trevas e na densa escuridade. Abrem entrada para minas longe da habitação dos homens, esquecidos dos transeuntes; e, assim, longe deles, dependurados, oscilam de um lado para outro. Da terra procede o pão, mas embaixo é revolvida como por fogo. Nas suas pedras se encontra safira, e há pó que contém ouro. Essa vereda, a ave de rapina a ignora, e jamais a viram os olhos do falcão. Nunca a pisaram feras majestosas, nem o leãozinho passou por ela. Estende o homem a mão contra o rochedo e revolve os montes desde as suas raízes. Abre canais nas pedras, e os seus olhos vêem tudo o que há de mais precioso. Tapa os veios de água, e nem uma gota sai deles, e traz à luz o que estava escondido. Mas onde se achará a sabedoria? E onde está o lugar do entendimento? O homem não conhece o valor dela, nem se acha ela na terra dos viventes. O abismo diz: Ela não está em mim; e o mar diz: Não está comigo. Não se dá por ela ouro fino, nem se pesa prata em câmbio dela. O seu valor não se pode avaliar pelo ouro de Ofir, nem pelo precioso ônix, nem pela safira. O ouro não se iguala a ela, nem o cristal; ela não se trocará por joia de ouro fino; Ela faz esquecer o coral e o cristal; a aquisição da sabedoria é melhor que a das pérolas. Não se lhe igualará o topázio da Etiópia, nem se pode avaliar por ouro puro. Donde, pois, vem a sabedoria, e onde está o lugar do entendimento? Está encoberta aos olhos de todo vivente e oculta às aves do céu. O abismo e a morte dizem: Ouvimos com os nossos ouvidos a sua fama. Deus lhe entende o caminho, e Ele é quem sabe o seu lugar. (…) E disse ao homem: Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e o apartar-se do mal é o entendimento.

Jó 28: 1-23, 28.

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Aquietai-vos!

Quanta  coisa acontecendo! Quanta angústia, perversão, distorção e relativização da verdade. Vivemos entre perseguições contundentes e sedução sutil, entre filosofias sorrateiras e violência gratuita. Não acreditam que é o princípio das dores e só se ocupam em encher o ventre e o ego, em acumular elogios e/ou bens. Andam por aí fazendo alguma diferença na vida alheia simplesmente pelo gozo do poder que isso lhes traz e não por altruísmo verdadeiro. Quantos destroem a própria vida por fama e reconhecimento e atendem apenas as próprias necessidades sem compaixão pelo outro. Isso tudo é desgastante e às vezes é preciso se poupar. Graças a Deus existe a quietude do descanso. Respira, recupera a força e continua.

“Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus; serei exaltado entre os gentios; serei exaltado sobre a terra.” Salmos 46:10

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Linguicídio

Quando eu era criança havia “gay” e “sapatão”. Quando eu era adolescente passaram a usar a sigla GLS. Logo no início da minha vida adulta já tinham mudado para LGBT. Por esses dias eu vi alguém escrever LGBTQQ123@X. Espero de coração que seja sarcasmo ou brincadeira. Isso me faz parar para questionar até onde isso vai. Até onde vão avançar com as siglas? Nada contra os seres humanos, mas precisa de tanto símbolo para se identificar? Aliás, é para se identificar ou se rotular?

Já não basta matarem a desinência de gênero existente na Língua Portuguesa, colocando “x” no lugar do “o” ou do “a”, tornando alguns substantivos e adjetivos aberrantes e impronunciáveis no nosso idioma? Não basta confundirem a cabeça do povo misturando usos políticos com usos linguísticos, utilizando “presidenta” em vez de “presidente”, com fim de elevar ideologias acima da própria linguística?

Meu uso da língua portuguesa pode ser imperfeito, como o de todo mundo, pois não há quem use a norma padrão perfeitamente o tempo inteiro. Mesmo licenciada em letras eu cometo faltas contra a Língua Portuguesa. Porém, eu me recuso a sequestrá-la, estuprá-la, esquartejá-la viva e jogá-la em cova rasa para os urubus cavocarem e comerem. É essa atrocidade que estão fazendo com a última flor do Lácio.

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