Lucubrações

Chuva no deserto

“Tantas lutas, tantas dores, num deserto pareço estar. Mas te entrego os meus temores, sei que em Ti Senhor, posso confiar.” D.T.

Pouca vida se sustenta no deserto. O deserto pode ser um local bem ingrato se não nos mantivermos conscientes de sua finitude. O deserto não é a galáxia, não é o universo inteiro, não é nem a terra toda. É um vasto pedaço de terra sem sombra, com pouca ou nenhuma água, calor escaldante durante o dia, frio de gelar durante a noite. O deserto é solitário e inóspito.

Mas no deserto Jacó lutou e recebeu junto com a bênção uma marca que o acompanharia pela vida afora. Ficou coxo, mas fez as pazes com o irmão. Foi no deserto que Deus mostrou Suas maravilhas e provisão a um povo que, mesmo rebelde, era amado. Israel foi alimentado sem precisar trabalhar muito para isso. Foi no deserto que Jesus foi provado e venceu as investidas de satanás. Ele foi tentado sentindo fome, enquanto nós muitas vezes reclamamos de barriga cheia.

O deserto se apresenta de várias formas na vida de todos, sejam servos de Deus ou não. Nada é fácil no deserto, há mais areia do que oásis. Mas se fosse a vida o tempo inteiro um oásis, ninguém almejaria a verdadeira pátria e destino final, que é a prometida cidade celeste, na presença segura e amorosa do Senhor. E é com esta promessa que devemos caminhar através do deserto, com paciência apesar da angústia, com fé apesar da incerteza, com perseverança apesar do medo.

Devemos lembrar que o Dono de todas as coisas até no deserto pode fazer chover e brotar vida, pois “quem abriu para a inundação um leito, e um caminho para os relâmpagos dos trovões, para chover sobre a terra, onde não há ninguém, e no deserto, em que não há homem; para fartar a terra deserta e assolada, e para fazer crescer os renovos da erva?” (Jó 38:25-27). Quando Deus nos leva ao deserto de vez em quando é por que nos ama e quer nos provar, reconciliar, prover, abençoar e nos tornar dependentes dEle.

 

Anúncios
Confissões

Tormenta das necessidades

Esses tempos uma tempestade das grandes veio tentar varrer minha frágil estabilidade. Isto me fez colocar em prática ensinamentos já adquiridos, mas nunca usados por falta de ocasião propícia. Como o sol brilhava eu deixei de vigiar; e como não temos controle de quase nada na vida, o tempo virou. Eu até gosto de chuva, mas dessa vez pareceu o Dilúvio, tamanho foi o volume e a violência com que veio.

Eis então o momento de necessidade que eu precisava para abrir o baú das coisas que eu sei mas nunca usei. Tirei dele o meu kit tormenta, com equipamentos bem nomeados: o guarda-chuva “Falou? Sustente!”, a capa de chuva “Ame a si mesma” e as galochas “Já chega!”. Tudo isso, junto com o livro de Jó em doses homeopáticas, foi para atender às necessidades que foram surgindo em razão do péssimo tempo.

Senti necessidade de me importar só com o que Deus pensa sobre mim e não com o que os outros pensam; senti a necessidade de parar de tentar agradar todo mundo e a necessidade de cuidar de mim antes de cuidar dos outros. Senti necessidade de me respeitar e de expressar minhas opiniões quando a situação mostra que eu estou certa. Uma necessidade que precisei suprir com urgência foi a de manter distância emocional de tudo e todos que pudessem fazer mal.

A necessidade de retirada de minha presença, em favor de minha saúde mental, eu atendi logo também. Se vão sentir minha falta ou não, já não me importa. Tem sido essencial atender à necessidade de validação de toda a ajuda que eu já prestei às pessoas. Ainda que desconsiderem eu sou satisfeita por sempre tentar ajudar. Surgiu a necessidade de valorizar mais as minhas pessoas, pois sempre há pessoas cuja grama do quintal não é tão verde quanto se pensa. Senti e sinto também necessidade de desconfiar mais daquilo que muito reluz, que muito me é oferecido, que muito me acolhe e solicita, pois nem sempre é afeto, às vezes é conveniência.

Lembrei agora que permanece a necessidade de reconhecer meus próprios erros, de assumir minhas emoções com suas reações resultantes, de saber a hora de desabafar e de parar de desabafar. Descarrega-se com os de confiança apenas o que bastar para deixar a carga mais leve. Quando a carga é dividida e o peso aliviado já é hora de levar o resto sozinha, até que precise descarregar novamente.

Muitas outras necessidades surgiram e eu as tenho atendido, mas existe uma antiga e teimosa que eu ainda persisto em tentar suprir: a minha insistente necessidade de querer ensinar seres sem asas a voar. Esta necessidade não mais receberá minha atenção, pois há seres que não voam, alguns só zurram e dão coices, não importa o que se faça. Eu precisei levar vários coices na vida para compreender que é inútil querer que eles voem.

Enfim, veio o temporal e agora, pelo menos para mim, é só mais uma chuva grossa que começa a afinar devagarinho. O kit tormenta deixou em mim o que deveria deixar. Aproveito para tirar a capa, as galochas e fechar o guarda-chuva, pois já está passando e os equipamentos de proteção podem dar lugar aos meus pés descalços pulando nas poças, à minha roupa molhada enquanto eu brinco e ao meu cabelo escorrendo na cara.

É melhor brincar na chuva em vez de ficar reclamando que ela está demorando a passar. Me protejo quando está muito forte, mas esse volume de chuva agora não é mais para meter medo, é para que eu me tranquilize e comece a lembrar que Deus manda temporal para podermos confiar em Sua providência, para nos alegrarmos muito mais pelo sol que vai aparecer quando as nuvens abrirem e para que o azul do céu seja apreciado com mais gratidão ainda.

“Com a sua voz troveja Deus maravilhosamente; faz grandes coisas, que nós não podemos compreender. Porque à neve diz: Cai sobre a terra; como também à garoa e à sua forte chuva.” Jó 37:5,6

}ï{

Confissões

Sem precipitação

Quando o clima está extremamente quente é prenúncio de precipitação. Ainda bem que posso até me assustar com trovões e raios ocasionalmente, mas amo banho de chuva. Tem feito calor demais nos últimos dois meses. O que será que vai ser? Sereninho fino, frio e demorado que só enche o saco e atrasa a vida? Chuva de verão que passa rápido e logo é esquecida? Tempestade que deixa um rastro de destruição e quase derruba o céu? Ou chuva refrescante e gostosa na qual nos sentimos em casa e que nos cobre feito um véu? É bom esperar a precipitação sem precipitação. A chuva vem quando tem que vir.

alwaysrain

}ï{