Compensação da deficiência

“Não se deve então ler a patologia mental no texto demasiado simples das funções abolidas: a doença não é somente perda da consciência, entorpecimento de tal função, obnubilação de tal faculdade. No seu corte abstrato, a psicologia do século XIX incitava esta descrição puramente negativa da doença; e a semiologia de cada uma era muito fácil: limitava-se a descrever as aptidões desaparecidas; a enumerar, nas amnésias, as lembranças esquecidas, a pormenorizar nos desdobramentos de personalidades as sínteses tornadas impossíveis. De fato, a doença apaga, mas sublinha; abole de um lado, mas é para exaltar do outro; a essência da doença não está somente no vazio criado, mas também na plenitude positiva das atividades de substituição que vem preenchê-lo.”
Michel Foucault (Doença mental e Psicologia, 1954).

Starry_Night_Over_the_Rhone
Starry Night Over the Rhone, Vincent van Gogh, 1888, Musée d’Orsay, Paris.

Não há nenhuma desgraça que não traga consigo um aprendizado. Nenhuma deficiência vem sem meios de compensação dela própria.

“… e isto vos sirva de consolação.” Jó 21:2 b

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“Alegrai-vos com os que se alegram”

mulher felizEstou estável. Pensei que não diria isso tão cedo nessa vida (10 anos talvez seja cedo). Estou porque ‘estar’ é algo que pode ser passageiro. Não sou estável e não digo nem que estou curada. Não estou curada mas estou estável por enquanto. E digo por enquanto pois não se pode cantar vitória antes do fim do jogo. Considero uma imprudência fazer isso pois ainda tem bola pra rolar.

Vejo gente entrando em fase de manutenção de alguma doença ou dependência química e se gabando por isso como se não corresse mais risco. Batem no peito como se já conhecessem o futuro, como se dissessem: Estou curado e sou o tal! Falta de humildade? Arrogância mesmo sabendo da inconstância da vida? Insensatez ou precipitação por pura imaturidade? Pode ser qualquer coisa do tipo. Mas alguns não param por aí. Além de se acharem os seres mais constantes do planeta, ainda enchem o peito diante dos demais (incluindo os que ainda não estão muito bem) e desdenham, apontam erros que muitas vezes não existem, criticam negativamente e sem base o fato de alguns ainda estarem em tratamento. Desprezam o sofrimento alheio, sofrimento pelo qual já passaram mas que parecem não recordar. Para esses a condição de curado ou assintomático significa ser soberano.

Quando o ser humano credita a cura a si próprio, automaticamente massageia seu próprio ego e sobe em um pedestal de senhor e comandante de sua mente, do seu eu. Adquire a atitude de um ser acima do bem e do mal, se torna seu próprio deus. Os supostamente curados, neste caso, se fazem superiores a ponto de se acharem no direito de preterir os demais. O que os faz piores do que os ditos normais ou saudáveis, pois os “normais saudáveis” na maioria das vezes são ignorantes quanto à condição dos doentes, já os que passaram pela doença não. É triste ver isso acontecer mas não deveria ser surpresa. O ser humano tem natureza pecaminosa, tem o coração inclinado para o que é reprovável a Deus. Nada mais natural e humano do que se corromper pela sensação de poder, de superioridade. “Quer conhecer uma pessoa, dê poder a ela“. A máxima é verdadeira e como a maior parte da humanidade está extraviada, é só alguém sentir que é o curador de si mesmo e o estrago está feito.

Não sou melhor do que ninguém, aliás me acho até pior pois às vezes faço o que é errado mesmo sabendo o que é certo. O bem que eu quero fazer às vezes eu não consigo. Às vezes faço o mal que eu não deveria fazer. É o coração enganoso e corrupto pulsando aqui dentro, é o desejo do velho homem. Porém, mesmo com essa certeza de estar andando no fio da navalha (ou pela patologia ou pela velha natureza) eu sempre supus que alguém que passou ou passa por uma espécie de sofrimento deveria se sensibilizar por quem passa por sofrimento semelhante. Uma palavra amiga ou um puxão de orelha na hora certa são válidos mesmo vindo de quem também está sofrendo ou já conheceu aquela dor.

Lembrei do texto “Chorai com os que choram” de 2011, no qual relatei uma situação em que não consegui ficar feliz por um avanço no meu tratamento, pois vi e ouvi uma moça em estado de desespero na sala de espera do consultório. Passei tantas vezes por momentos de desespero, agonia e sofrimento mental sozinha que fiquei solidária daquela mulher. Eu pude sentir o que ela estava passando. Eu já havia passado por aquilo antes e ainda passei muito pior depois disso.

É fato que quando estamos melhorando conseguimos olhar pra trás e ver onde erramos. Conseguimos perceber em quais momentos nos esforçávamos pra melhorar e não conseguíamos sair do lugar, e em quais momentos não saíamos do lugar por comodismo. É verdade que só sabe da dificuldade do jogo quem está em campo jogando. Mas também é verdade que quem já foi treinado e está no banco de reservas consegue ver o jogo por um ângulo melhor. Mas não é por ter essa visão mais ampla que se deve assumir uma atitude de superioridade e advogar que o jogo só pode ser vencido à sua maneira, que sua estratégia é a única que funciona pra vencer.

alegriaEnfim, na minha penúltima visita ao psiquiátra eu encontrei novamente a moça, aquela que estava desesperada na mesma sala de espera há quase dois anos. Ela deixou o cabelo crescer (na época estava bem Joãozinho), estava bem sorridente, com uma cara ótima e bem disposta. Perguntei como ela estava e como estavam seus filhos. Ela respondeu com um sorriso bem largo que ela e as crianças estavam bem. Ficou de lá do outro lado da sala olhando pra mim e sorrindo por uns instantes. Findei em um sorriso largo dentro da sala. Pareceu uma daquelas situações em que as pessoas passam por uma desventura, depois lembram e logo a lembrança se esvai. Não precisei falar nada e nem chegar perto. Eu sabia o que significava aquele sorriso e aquele olhar vivo.

Foi engraçado a maneira como um diálogo banal no qual se diz “Como vai?”“Vou bem!” se tornou tão significativo ao mesmo tempo em que foi praticamente desnecessário. Só o sorriso e o brilho nos olhos daquela moça me fizeram sentir que ela, assim como eu, está muito melhor. Da outra vez, quando ela saiu do consultório e eu a abracei, eu disse a ela que aguentasse firme e que não desistisse pois tudo aquilo iria passar. Dizer a alguém que há esperança nos dá esperança também. Nesta penúltima consulta o médico baixou mais uma dose de medicação minha e desta vez eu pude sair do consultório duplamente feliz. A bênção de Deus pode parecer demorada mas um dia vem e ainda se estende. E de novo eu lembro de Romanos 12:15 – “Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram”.

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A depressão é falta de Deus?

O artigo abaixo, de Giselle Fachetti Machado, foi enviado pelo amigo, colaborador e, também bipolar,  João Carlos. Vale a pena ser lido pois é bem esclarecedor. Somente omiti alguns termos (como ‘endógena’), se referindo à depressão para não causar uma certa confusão na mente dos leigos e fazê-los pensar que exista algum tipo de depressão que não seja doença, porque não existe. Meu diagnóstico é de bipolaridade do tipo II, então eu passo pela depressão com mais frequência do que pela hipomania, então sei bem o que é isso. Os destaques em negrito no texto são meus. Obrigada mais uma vez João Carlos, amigo e solidário das mesmas lutas que eu, por compartilhar o texto. Leiam com carinho:

As pesquisas científicas mais recentes são categóricas em afirmar que a fé religiosa interfere positivamente na capacidade de recuperação de um doente. Por outro lado, existem pessoas que atribuem à sua fé religiosa seu estado de saúde plena.

Sem dúvida, a fé é um recurso transformador da mente, porém, sem discernimento ela deságua no fanatismo e no preconceito, o que é sempre pernicioso. Os bens espirituais não são materiais ou físicos, por isso, as bênçãos divinas não podem ser medidas pelo sucesso financeiro ou pelo vigor físico de um indivíduo.

Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam.” Mateus 6:20

O que pretendemos discutir neste artigo é o outro lado da moeda. Será o doente um indivíduo sem fé, sem Deus? Será que o otimismo, o pensamento positivo, a boa vontade, a fé em Deus são suficientes para que tenhamos saúde?

Todas as doenças têm causas multifatoriais. Existe um componente físico, um emocional e outro espiritual. A conjunção dos três níveis de desequilíbrio é que abre as portas do organismo humano para a instalação de doenças.

Choca-me a forma recorrente e incisiva com que pessoas esclarecidas, atuantes dentro de comunidades religiosas das mais diversas, afirmam que para elas a depressão é falta de Deus. Como se se tratasse de uma questão de escolha. Chegam a cogitar que os medicamentos antidepressivos seriam os responsáveis pela doença. É lastimável que essa visão distorcida seja tão presente em nossa sociedade.

Trata-se de questão relevante, pois o doente com depressão tem ao seu lado, em sua família, pessoas com esse pensamento. O que resulta em um retardo no diagnóstico, prolongamento do sofrimento do deprimido e sabotagem de seu tratamento. Essa visão se transfere ao doente e ele sente-se ainda pior. Considera-se fraco, incapaz ou indolente.

As pessoas que assim pensam cometem vários erros do ponto de vista médico e outros tantos do ponto de vista evangélico. Elas assim agem por interpretarem os sintomas dessa doença como puramente emocionais ou como falhas de caráter. Desconhecem os mistérios da mente em sua interação complexa envolvendo o universo biológico, emocional e espiritual.

O religioso precipitado julga o doente ignorando o verdadeiro mecanismo da sua doença, que é expressão de anomalia física e não de anomalia de caráter. Assim como o diabetes traduz a falta de insulina, a depressão reflete déficit de neuro-hormônios no cérebro.
Existe, logicamente, um intricado emaranhamento entre questões emocionais e o curso mais ou menos favorável dessa condição, como em qualquer outra situação de desequilíbrio orgânico.

Portanto nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não só trará à luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações; e então cada um receberá de Deus o seu louvor.” I Coríntios 4:5

É interessante como a humanidade repete, incansavelmente, os mesmos erros de seu passado. Os hansenianos contemporâneos de Jesus eram tidos como malditos e pecadores, como vítimas do castigo divino.

Sob o prisma da medicina sabemos que humor é uma função da mente regulada por neuro-hormônios. A pessoa com distúrbio do humor não está triste ou alegre. Ela está deprimida ou eufórica. Em medicina não são sinônimos, podemos ter uma pessoa deprimida e alegre e uma pessoa em euforia e triste. A tristeza é um sentimento em reação a um fato exterior. A depressão não depende de causa externa.

Quando ocorre uma diminuição da produção de neuro-hormônios, especialmente da serotonina, ocorre alteração do humor no sentido da depressão. A euforia é mais rara e, associa-se a um distúrbio da mente mais severo conhecido como doença bipolar.

A depressão, portanto, reflete déficit de neurotransmissores e a etiologia desse déficit por sua vez é multifatorial. A influência genética é bastante evidente. Trata-se de condição mais frequente na mulher em função da flutuação hormonal que ela sofre. A progesterona, hormônio da segunda fase do ciclo e, da gravidez, predispõe à depleção de serotonina, por isso a tendência feminina para alterações do humor na fase pré-menstrual.

Trata-se de doença com caráter cíclico e recorrente. Os episódios de depressão costumam ser longos durando entre seis meses e dois anos. Em suas formas graves pode levar a uma profunda apatia, sensação de intenso pesar que pode levar o deprimido até extremos como o do suicídio.

As formas leves muitas vezes são negligenciadas, pois tem manifestação de algo diferente. A pessoa fica irritada, ansiosa, intolerante, pode desenvolver pânico ou comportamento obsessivo compulsivo. Mesmo em sua forma leve a depressão compromete bastante a qualidade de vida do seu portador, compromete ainda seus relacionamentos profissionais e pessoais. São pessoas tidas como chatas, arrogantes, perfeccionistas, intransigentes ou cheias de manias.

A Distimia é um distúrbio crônico do humor, uma forma mais leve de depressão que se caracteriza por persistir por períodos maiores que dois anos e por manifestar-se com humor mais irritável do que depressivo.

Os exercícios físicos liberam endorfinas na corrente sanguínea as quais tem ação antidepressiva natural. O chocolate, fonte de triptofano, um precursor da serotonina, também tem ação antidepressiva. Atualmente existem medicamentos seletivos e seguros para o tratamento da depressão. São os antidepressivos, que não devem ser confundidos com sedativos, hipnóticos ou tranquilizantes. Estes últimos causam dependência química, o que não acontece com os medicamentos específicos para depressão.

Infelizmente, drogas ilícitas e lícitas, como o álcool, também têm algum efeito antidepressivo transitório. Isso leva, comumente, ao seu uso abusivo pelos doentes em função de um busca por alívio instantâneo do desconforto que os consome, especialmente, naquelas pessoas que não se sabem ou não se admitem doentes.

Assim, o risco de desenvolvimento de dependência química entre os deprimidos é aumentado. Não é incomum que o diagnóstico de depressão só seja feito após a instalação de uma dependência química, especialmente entre os adolescentes.

Os antidepressivos ainda que bastante eficientes devem ser associados a exercício físico e ao suporte emocional para que se obtenha um bom controle das crises depressivas. Tal medicação pode ser usada por extensos períodos, de acordo com a forma da doença e a necessidade de cada doente.

O suporte espiritual é também fundamental para o depressivo. Reduz ainfluência exterior negativa (obsessão) e, aumenta a capacidade de reagir à doença através da busca serena de soluções seguras. Quando afirmamos que a depressão é falta de Deus estamos julgando um doente como um simulador ou como um auto-agressor. Estamos julgando o doente como fraco e sem vontade. E pior, como distante de Deus. Quantos enganos em relação ao Evangelho do Cristo? Ele, O Cristo, nos conclama a não julgarmos, a sermos compassivos e misericordiosos.

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;” Mateus 5:7

Todas as doenças enfrentadas com o auxílio divino são mais leves e tornam-se instrumento de educação do espírito. Tendo fé a nossa dor tem um sentido, faz parte de um conjunto de bênçãos do Criador em favor de nossa evolução rumo aos parâmetros celestiais. Com fé lutaremos pela vida e pela disposição, sem revolta e com inteligência.

Tendo fé usaremos todas as armas terapêuticas em nosso benefício e pelo tempo necessário conforme essa necessidade se imponha. Caso não precisemos de medicação, usaremos apenas os exercícios físicos e o apoio emocional como alternativa suficiente, já que múltiplos são os tratamentos eficazes em relação a essa doença.

A premissa que depressão é falta do que fazer, falta de Deus, chilique… é desinformada e cruel. A informação sobre essa condição permitirá que pessoas saudáveis acolham respeitosamente as necessidades dos doentes com os quais convivem. E, para finalizarmos, levantamos uma evidência óbvia de que a depressão não tem como causa, em hipótese alguma, a falta de Deus: os índices dessa doença são iguais entre ateus e teístas.

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Nós somos a favor

Eu sou (muito) a favor do esclarecimento. Os normais, mentalmente saudáveis ou “normalóides”, precisam saber, precisam aprender, precisam entender (pelo menos o essencial) e deixar o preconceito de lado. Pois quando não conseguimos nos cuidar é deles que nós dependemos. E nessa hora eles precisam saber o que fazer, pois depender de alguém que não sabe o que fazer com você só torna a doença mais difícil de encarar. O sofrimento, nesse caso, se torna muito mais profundo, penoso e demorado. Sou a favor do esclarecimento, por relacionamentos sadios com os normais e pela qualidade de vida e saúde de todos nós, portadores de doenças e transtornos mentais.

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Ninguém morre sozinho

Dizem que todos nós morremos sozinhos. Às vezes não é verdade. Muitos quando morrem levam junto uma parte de algumas pessoas. Sejam muitas ou poucas, não importa! Quando se morre, se mata um pouquinho de cada uma delas. O Centro de Valorização da Vida tem muitos vídeos tocantes, como este abaixo que sempre me faz prender a respiração, embora apele um pouco para a questão do suposto egoísmo do suicida.

Pra quem não sabe o suicídio não é uma atitude de puro egoísmo. É muito mais a consequência final de um estado de profundo adoecimento mental que faz com que o cérebro, já exausto e extremamente confuso, comece a boicotar o raciocínio, as emoções e o julgamento do doente. Quem se mata nem sempre é porque não tem Deus na sua vida, nem sempre é um incrédulo sem salvação. O espírito muitas vezes está ótimo, mas o cérebro (que é carne) está mal, exaurido, desorientado e sem forças para pensar direito.

O cérebro quer descansar, acabar com o sofrimento e o único jeito disso acontecer é parando de funcionar. Logo, se não há outra doença para agravar até a morte a não ser a mental, é esta que o cérebro usa e abusa até a pessoa perder o juízo e levar todo o ser ao descanso. Bom, mas isto é um cérebro doente pensando mal e tomando as piores decisões!

Uma coisa eu sei: um doente/transtornado mental que chega a esse ponto não pode ser só chamado de egoísta ou fraco. Se aguentou até aí, talvez tenha aguentado o sofrimento mental mais tempo do que muitos ditos fortes poderiam aguentar. Não é a melhor decisão. Mas quem disse que o doente/transtornado mental é capaz de tomar boas decisões na hora da crise?

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De volta à jaula

E lá vamos nós de novo! Irritabilidade desmedida desde o dia 13/10 (dia em que completei mais um ciclo de 365 dias de vida). Inventaram uma surpresa que, pela graça de Deus, eu descobri a tempo. É porque essas pessoas com quem eu convivo ainda não entenderam que não podem me surpreender. Não pela incapacidade deles em fazer algo escondido, mas pela minha incapacidade de enxergar surpresas como algo bom, ainda que sejam boas para a maioria das pessoas. Essas pessoas ainda não entenderam que essa pessoinha aqui não pode tomar sustos, não pode se surpreender, nem da maneira boa nem da ruim e não gosta de honrarias ou de ser o centro das atenções em datas comemorativas. E se existe uma coisa que odeio mesmo, é que façam coisas pelas minhas costas. Se soubessem o mal que me fizeram…

Enfim, estou até hoje com um excesso de coisas no sangue, no peito, na cabeça, na garganta…Reunião de diretoria que me deixou irritadíssima, cara de bunda a tarde inteira, mal humor, tentativa frustrada de interagir como um ser humano normal com os seres humanos normais quando tudo que eu queria era esfolar todos eles. Maquiagem borrada durante o culto. E lá vamos nós pro banheiro limpar a cacaieira preta de debaixo dos olhos. Banheiro ocupado. Daí um pessoa sai e pergunta. As pessoas sempre perguntam, sempre querem saber o que foi, sempre querem que haja algo pra contar porque, supostamente, ninguém chora por nada. Chora sim!

Chora porque as pessoas perguntam, e chora porque ninguém tá nem aí. Chora porque está irritada porque foi contrariada, e chora porque sofreu indiferença quanto às opiniões emitidas. Chora porque todo mundo é cego demais e ninguém percebe que você está em crise. Chora porque percebem mas são burros demais para saber o que fazer. E sempre querem um motivo, uma razão. Sempre querem que seja a vida espiritual, a família, o emprego, os estudos, os amigos, o namorado (ou a falta de um), quando na verdade nada disso explica a maquiagem borrada no meio do culto. Nenhum desses motivos é razão para a maquiagem estar borrada de lágimas, o peito doendo, tudo se partindo por dentro. Nenhuma dessas coisas é problema na  sua vida. Aliás, o problema está tão lá dentro, tão fundo que não dá pra tirar de maneira delicada. Ele quer sair rasgando, explodindo, arrebentando tudo. Acabando com a minha vida e com a vida dos outros ao redor. É por isso que se chora. Por tudo e por nada.

Talvez seja preciso uma lâmina afiada para arrancar de dentro, uma dose cavalar de remédios para fazer parar de doer, ou um salto para um rio qualquer. Talvez assim matasse essa dor. O porém, nesse caso, é que isso destruiria essa morada, a parte boa, aquela que Jesus disse pra cuidar e onde habita o Espírito, e isso não seria bom, porque ainda há pessoas que não gostariam de não me ver mais por aqui. Uma mãe preocupada e com saúde abalada, uma irmã que talvez precise da minha companhia e ajuda pra cuidar da mãe, uma avó que talvez não durasse muito tempo sem mim por aqui. Para todo o restante das pessoas não faria diferença. Talvez no dia do acontecido, depois do velório etc, as pessoas ficariam se perguntando o porquê e especulando coisas que não tem nada a ver com o real motivo (porque são burras e nunca percebem o que está acontecendo ao seu redor). Depois seria esquecimento total, a vida continuaria, ninguém lembraria mais e tal. Deve ser bom ser normal.

Ninguém ouse chamar um potencial suicida de egoísta ou não digam que ele só tem arranque quando existe a postergação do ato do suicídio. Se a pessoa demora muito pra tomar essa atitude é porque está pensando nas pessoas que fazem sentido pra sua vida, que sentiriam falta ou precisariam dela.

As pessoas se acham tão cheias da razão que se não fosse pecado eu já teria matado pelo menos umas 2 no meu trabalho e umas 5 na minha igreja. Pelo menos com 3 delas eu estive hoje à tarde. Deus me livre de minha enfermidade e me proteja de mim mesma, e aos outros também! Mas o impulso de fazer isso (ou de pelo menos quebrar a cara de alguém com uma cadeira) ás vezes demanda um esforço hercúleo para segurar. Não ponho pra fora na forma de violência, dessa ira encubada, logo, enfio tudo pra dentro e a coisa vira doença, derruba minha pressão arterial, me faz chorar sem controle, faz minha imunidade baixar, apaga minha memória, me faz perder o sono. No meu caso sofrer pelos outros é isso. E ninguém valoriza nada disso, tudo que você segura por causa dos outros, todas as vezes que você adoece pra não magoar ninguém. Ninguém te vê como você realmente é, ninguém considera que você está prestando um bom serviço deixando de conviver junto dos outros. Mesmo que isso lhe cause sofrimento e solidão, você sabe que é necessário se isolar, se afastar, pelo bem daqueles que ama e que, mesmo amados, não te entendem.

Talvez eu crie coragem hoje, talvez não. Mas um dia eu vou ter que fazer algo pelas pessoas à minha volta. São todos tão ignorantes, nunca saberão o que fazer. No máximo chegam pra mim dizendo: “Estou orando  por você!” ou “Eu vou orar por você!”. Dãããã! Me digam algo que eu não saiba, me digam algo que eu precise ouvir, não o que eu já sei. Me digam algo que surta efeito, algo produtivo. Oração é produtiva quando ela é feita e não quando é dito que será ou que está sendo feita.

Vão estudar e aprender como lidar com isso, porque eu já cansei de fazer de conta que sou igual a todo mundo. Cansei de vestir cara de festa, de sociabilidade quando tudo que eu preciso é mostrar minha cara de louca. Quero poder vestir minha camisa de força e ser aceita e amada pelas pessoas de dentro da jaula de minha anormalidade e de incerteza da minha doença. Mas isso nunca vai acontecer.

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