Confissões, Lucubrações

Roupa, terra e cinza

Em vários relatos bíblicos observam-se pessoas em momentos de intenso sofrimento rasgando as roupas, jogando terra sobre a cabeça ou sentando no meio das cinzas. Essas atitudes representam dor, especialmente em situação de luto. Por aqui se eu rasgasse as vestes ficaria nua e não significaria nada além de atentado ao pudor ou loucura. Se jogasse terra sobre a cabeça me sujaria toda e também não significaria nada além de uma mulher louca brincando com barro feito criança. Sentar no meio da cinza tampouco significaria algo. Demandaria cinza e acender uma fogueira na entrada do prédio é inviável. Costumes da nação escolhida por Deus não significam muito na minha cultura. Não querer cumprimentar as pessoas, não ter estímulo interno para sorrir, não conseguir sair de casa, ser incapaz de cumprir com as obrigações, chorar facilmente etc, isso sim significa algo por estas bandas. Quem está de luto pela morte de seu bem-estar pode se entender, entender o sentido deste luto, ou não.

A crise depressiva é uma pequena morte. A morte do sono ou do estado de alerta, a morte da disposição, a morte dos sorrisos, a morte do vigor, a morte do apetite. Esta minha morte é temporária. Vou renascer daqui uns dias ou semanas. Até lá, alguns pensamentos precisam ter suas vestes rasgadas para serem analisados intimamente. Até lá, algumas obrigações serão lançadas ao ar, bem como algumas boas oportunidades. Até lá, que eu possa, por favor, ficar quietinha no meio das cinzas, me poupar de sorrir a todos, escolher se quero abraçar ou me afastar de abraçar, me alimentar quando der, dormir quando conseguir, fazer o que puder com a disposição que eu tiver. Que eu possa investir o vigor que me resta na compreensão dessa pequena morte e na vivência desse luto. Entender o sentido da morte do bem-estar é um passo importante para ressuscitá-lo. Vivenciar o luto é a única forma de vencê-lo. Ninguém sai de uma sala onde não entrou. No caso do luto, não se pode entrar e sair pela mesma porta, é preciso atravessar toda a extensão da sala escura. Entrei em crise e certamente vou sair. Até lá, muita paciência e poucas pressões de mim para mim mesma.

porta abrindo

“O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz tornar a subir dela.” I Samuel 2:6

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Confissões

Mais um luto

fim de linhaFui lá no vizinho uma vez pedir pra ele baixar o volume da música, pois estava alto demais. Todo santo dia a mesma coisa. Sempre as mesmas músicas de mal gosto em volume tão alto que tremia a janela do quarto. De segunda a segunda e desde cedo da manhã. Não aguentei e fui lá. Ele estava nos fundos e uma moça veio atender. Falei com ela, que compreendeu. Passaram a deixar o volume da música mais baixo por uns dias. Depois o dono da casa esqueceu que incomodava e voltou a colocar música alta. No dia em que fui reclamar ainda pensei que aquele homem precisava era de oração.

Ele acabou de ser furado de faca aqui na minha rua, quase em frente à minha casa. Uma briga, uma gritaria na rua, minha mãe correndo do portão pra dentro de casa gritando pra ligar pro SAMU. Corri, peguei o celular e liguei enquanto corria pra rua com minha mãe. Pedi pra um rapaz que passava tirar a camisa pra eu poder fazer pressão no lugar da facada. Foram 3 facadas. Eu só consegui pressionar um lugar. Fiquei um tempão apertando o quanto podia, esperando a ambulância. Fiquei com sangue nas mãos e com os punhos doendo. Mas era sangue demais. Ele não tinha mais pulso. O sangue já estava parando de sair, já coagulava no chão. Ele tentou puxar o ar 3 vezes. Tinha uma facada nas costas que ninguém viu, mas que sangrava. Ninguém sabia de onde saía mais sangue. O asfalto ficou lavado de sangue.

Eu vi o homem morrer na minha frente. Nem deu tempo de perguntar se ele cria em Jesus como Salvador. Vi as pupilas mudarem, os lábios ficarem sem cor, mas não deu tempo de perguntar nada. Orei a Deus na hora pra que desse outra chance pro homem. Não tinha pulso. Aí chega SAMU e PM e eu entro em casa pra lavar as mãos, os braços e tomar banho. Meus punhos estão doendo de tentar fazer pressão. Minha mãe e minha irmã acabaram de lavar o asfalto com água e sabão. Meu jeito de lidar com isso é escrevendo. E eu bem que poderia ter ido evangelizar esse cidadão quando fui reclamar da música alta. É gente se matando, desistindo da vida na sexta-feira. Na segunda-feira vejo bem na minha frente gente puxando o fôlego com as últimas forças pra tentar viver, mas morrendo mesmo assim. C’est la vie! 

“Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor.” Romanos 6:23

“Saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador, salvará da morte uma alma, e cobrirá uma multidão de pecados.” Tiago 5:20

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Confissões, Lucubrações

Lutar pra não enlutar

Não a conhecia. Ela participava do mesmo grupo de apoio que eu. Soube hoje que ela morreu. Morreu de transtorno mental, morreu de depressão, morreu de suicídio, morreu de tudo. Quando ficamos de luto por alguém que não conhecemos sabemos que não é pela pessoa somente, não é somente por um ser humano que se vai. O luto é também por nós. O luto por quem também sofria dos nossos males é uma visualização da possibilidade de luto por nós. É como se um portador de câncer tivesse que ir ao velório de um desconhecido que morreu de câncer. Parar pra pensar na nossa vida e na nossa morte é o mínimo que acontece. Se estamos mal estamos dependurados achando que vamos cair, mas estamos lutando. Se estamos bem também estamos dependurados achando que ainda podemos cair a qualquer momento, mas lutamos mesmo assim. Não se foge da luta, nem estando bem nem estando mal. E lutar pelos outros é melhor do que ficar de luto por eles.

Deus de misericórdia, não consigo nem pensar sobre onde a moça está. É inevitável lembrar que me criticaram tanto (e ainda criticam) por eu me expor pra fazer contato com outros iguais a mim e pra tentar ajudar alguém. Às vezes até me fazem sentir constrangimento. Mas nenhum dos críticos luta por transtornados, por suicidas e afins. Nenhum dos críticos faz nada, nenhum deles luta por ninguém que tenha esses problemas. Só se dedicam a propagar inverdades, falar bobagens e reforçar a discriminação. Não lutam nem pelos mais próximos enquanto estão vivos, pra não se comprometerem muito. Mas depois que alguém morre só resta o luto. Estou de luto por uma desconhecida. Mas pelo menos eu luto por mim e pelos outros com as armas que eu tenho.

Isso me lembra John Donne: “Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por vós”. (Meditações VII). O luto me faz parar pra pensar.

Borboleta-rosa-de-luto (Papilio anchisiades)
Borboleta-rosa-de-luto (Papilio anchisiades)

“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração.” Eclesiastes 7:2

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Confissões, Lucubrações

Morte x Vida

Enquanto eu ainda comemoro 1 ano de distância de uma crise violenta, com uma última tentativa de suicídio, meu avô paterno falece. E é nessas horas que um bipolar ou depressivo pode perceber com clareza em si mesmo a diferença entre uma grande tristeza e uma doença mental. Estou muito triste e não estou em crise mas o dia do falecimento do meu avô nunca será esquecido por mim.

Em um dado dia minha mente ficou insana o suficiente pra eu tentar colocar fim na minha dor pela 3ª vez. Um ano e um dia depois meu querido avô se vai. Tinha mais de 80 anos mas com uma disposição invejável e muita vontade de viver. Um ano atrás algo me fazia sentir que eu precisava da morte mas me vi entre duas pessoas que desejavam a vida. Agora eu vejo a vida do meu avô acabar em uma provável parada cardíaca. E ele queria muito viver.

Mais uma vez eu vejo vida através da janela da dor mental ou da emocional. Vejo gente querendo a vida e gente perdendo a vida. Olho pra trás e vejo uma crise horrenda, olho pra hoje e vejo o luto que há um ano poderia ter sido o da minha família por mim. Sei que o vô está na eternidade vivendo muito melhor do que ele viveria aqui. Estou triste e chorando agora o que não pude chorar na hora, durante o dia, pois havia obrigações, compromissos e, pra variar, eu sorrio e aguento até acabar tudo pra eu poder desabar.

Talvez esse acontecimento esteja sendo usado por Deus pra me mostrar que eu preciso de um empurrãozinho de ano em ano, de um confronto entre vida e morte bem diante dos meus olhos, pra eu perceber que enquanto não se der a vitória da morte é pela vida que se deve lutar e torcer. Apesar de crise ou luto eu tenho Deus enchendo meu ser, e é por isso que consigo perceber a vida vencendo de alguma forma até mesmo quando a realidade da morte parece nocautear.

vida

Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; (…) Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente; Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.II Coríntios 4:8,9; 16-18.

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