Outono e memórias

Nunca vi o outono ao vivo. Nunca brinquei em folhas secas até bagunçar o cabelo e fazer uma massaroca com cachos difícil de desenrolar. Brincadeira que cansa, como cansaço de criança, que pula e rola nas folhas e joga pra cima. Até cair deitada no chão e ficar um tempão só olhando o céu enquanto descansa. Deve ser bom. Talvez eu inclua isso em uma lista de coisas que eu ainda gostaria de fazer. Talvez eu crie essa lista (de novo).

Quando eu era criança eu sempre planejava coisas, fazia listas de sonhos a realizar. Eles tiravam meus pés do chão mas nunca aconteceram e ninguém nunca me disse porque. Na verdade, ninguém queria me ouvir contá-los. “Ah menina, vai brincar!” ou “Cala boca que eu quero ouvir a novela!” Ninguém nunca desligou a TV ou parou uma conversa com outro adulto pra me escutar. Fui crescendo e aprendendo que pés foram feitos para estar firmes no chão, pois é dessa forma que se desenvolve mecanismos de defesa de acordo com os predadores que se encontra durante a vida. E isso não é culpa de ninguém.

Pode ser culpa do sistema, do pecado, que tratou de parir genitores despreparados. Mas no seu despreparo, muitos sempre fizeram o que sabiam e o que podiam. Às vezes dava certo, mas muitas vezes dava errado, pois eles também foram mal ensinados. E ninguém pode dar aquilo que não tem. Mas são só memórias soltas. Nada de culpa, por favor! Vamos um dia, quem sabe, sem nada na cabeça (se é que é possível), só brincar nas folhas secas até cansar e depois deitar e olhar o céu um tempão.

Com crianças deve ser bem mais divertido!

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Quando o inverno parece nunca acabar

Jardim do Château de Chenonceau – Foto by André Gustavo Lima

Aproveitando o céu azul, o sol amigo que fez hoje e o ânimo melhorado, com cara de início de primavera (mas ainda é verão amazônico), decidi criar coragem pra relatar um pouco sobre a última semana. Meu tratamento estava prestes a tomar rumo novo na segunda-feira da semana passada. Um dos comprimidos, um mísero comprimido, seria tomado intercaladamente durante uns dias e depois disso … adeus paroxetina! Já ia tarde  a bandida que me seca as mucosas nasal e bucal e me obriga a andar com garrafinha de água de vez em quando. Abri mão de uma viagem que duraria todo o  fim de semana temendo  os sintomas da abstinência. Passou o sábado, tudo normal. Veio domingo, uma moleza no corpo, cansaço mental, mas tranquilo.

Na segunda, o dia começa bem, apesar da indisposição e vontade de morrer pra não ir trabalhar com a cabeça no mundo da lua. Porém, lá pelas tantas da tarde, uma divergência boba, banalidade que nem discussão era, uma opinião contrária … e a vespa sai do vespeiro e se retira  logo em seguida deixando a lola trancada no quarto mais próximo, chorando a tarde inteira, desesperada, tentando descobrir quem era aquele bicho mais forte que ela, aquela armadura  com vontade própria, que manda e desmanda no ser que a veste, sem chance de defesa ou reação contrária. Chegou a terça-feira e como não dava mais pra faltar outro dia de trabalho, mesmo sabendo do perigo, lá fui eu. Pois o mundo não para só porque alguém precisa de tempo para um pequeno ajuste nos parafusos (tá bom, grande ajuste!).

Um pendrive que foi esquecido no local de trabalho e é visto  desmontado sobre a mesa foi só a gota que faltava pingar  pra que a desgraçada vespa saísse de novo.  O que é um pedrive? Sempre valorizei muito mais pessoas do que objetos. Não, esse não foi o motivo, tenho certeza. Alteração de humor, impulsividade são normais em algumas pessoas, mas AQUILO não foi normal. Terminar sentada e encolhida aos berros no canto da salinha de arquivo do departamento, no escuro, depois de agredir uma porta e uns armários de aço, definitivamente não é normal. Assustar as pessoas e dar um péssimo testemunho, pagar de doida é basicamente anormal, quando tudo pelo que se ora a Deus e se esforça é por manter um equilíbio e uma convivência amistosa com todos para que vejam a beleza de Cristo em si.

Os mais compreensivos até me dizem: “Não é culpa tua, te conheço e você não é assim!” Mas me trato há tanto tempo. Deveria ter percebido que não estava pronta para parar um dos drops que me ajudam tanto e que complementa a ação dos demais, o médico deveria ter percebido que eu não estava pronta, mas ele faz o que pode. A única coisa que passa pela cabeça quando as coisas reviram é que o que antes foi recebido como bênção se tornou em maldição. Mas enfim, depois de retomar o uso do dito cujo (mas dia sim e dia não), depois do médico me deixar de molho o resto da semana e depois de reclamar, falar besteira e choramingar para algumas pessoas, até sinto vida de novo em mim.

Às vezes quando parece que as bençãos se tornaram em maldição, quando o inverno da alma chegou, quando a desesperança toma de conta e nos faz perder o chão, o norte e quase desistir, Deus mostra que esse inverno é necessário, com seu branco, seu cinza, seu frio doloroso, seu céu nublado. É necesário passar pelo inverno para aprender a valorizar a primavera que vem em seguida, com suas cores, suas flores, seus perfumes e suas borboletas, claro! É necessário passar pelo inverno  pois é nesse período que se escuta coisas que nunca na vida tinha escutado, como: “Minha filha, eu sei que é difícil, mas mamãe tá aqui pra cuidar de você“! É no inverno que se vê a humanidade e compreensão escondidas onde menos se imagina, por exemplo, nos seus colegas de trabalho e chefes, que vão ao cubículo, acendem a luz, te trazem água e te levam  pra esfriar a cabeça em um lugar bonito e cheio de árvores. É no inverno que você  percebe como seu animal de estimação é sensível à sua situação, carinhoso e apegado a você (apesar do nosso  ter morrido enquanto eu escrevia este post, e escrevo sobre isso depois, pois agora estou arrasada demais e já chorei demais hoje).

O fato é que “ninguém será grandemente abençoado por Deus se não houver sido severamente por Ele ferido”. E mesmo escrevendo este post entre lágrimas e engasgada até não poder mais, com a emoção à flor da pele porque meu cérebro às vezes  parece que me odeia, tenho certeza de que meu Senhor me ama e por isso mesmo ainda me mandará muitas estações diferentes pra eu lidar. Talvez eu tenha muitos verões e outonos entendiantes, mas certamente terei muitas primaveras também. E no final, a alegria de cada uma delas fará ter valido a pena a longa espera e o frio dos invernos tristes e quase sempre solitários.

“E ele muda os tempos e as estações;” Daniel 2:21

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