Lucubrações

Ajuda é grátis

Compreensão não significa necessariamente entender por completo o tipo ou o tamanho do sofrimento do outro. Compreensão, antes de qualquer coisa, é olhar para o comportamento desajustado e para o sofrimento alheio de maneira humana e paciente, sem prejulgamentos, tendo em mente que se o outro está estranho e sofrendo tanto é porque algo nele está precisando de tratamento, algo está doendo. E quando algo está doendo no outro, seja doença ou não, a humanidade que há em nós deve se sobrepor ao medo do desconhecido, ao medo de ser recebido a pedradas por quem está tão perturbado e ferido quanto um cachorro atropelado. Se alguém chegar perto pra ajudar pode ser que ele morda, que ele  rosne, que dê uma patada. Mas ele só está assustado e com muita dor.

Se omitir de demonstrar compaixão só por medo da reação que vai encontrar é covardia. Se o desejo de ajudar existe no coração, então é melhor deixar que o amor fale mais alto e impulsione à busca de informações. Mesmo sem entender é possível ajudar. Não sabe o que dizer? Não diga nada. Uma presença amorosa e sincera vale mais do que palavras. Não sabe o que fazer? Oferecer o ombro, dar um abraço ou a mão pra segurar são ótimas atitudes, ainda que o bichinho ferido não aceite de imediato ou se debata um pouco. Não tem como ajudar com o tratamento? Atenção, estímulo, sensibilidade, paciência, orações, cuidado e amor não custam nada. São de graça, todo mundo tem pra dar e ajudam bastante quem está estranho, desajustado e muitas vezes sofrendo sem nem saber o que tem.

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“Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação.” II Timóteo 1:7

“E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, e à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade.” II Pedro 1:5-7

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Confissões, Lucubrações

“Alegrai-vos com os que se alegram”

mulher felizEstou estável. Pensei que não diria isso tão cedo nessa vida (10 anos talvez seja cedo). Estou porque ‘estar’ é algo que pode ser passageiro. Não sou estável e não digo nem que estou curada. Não estou curada mas estou estável por enquanto. E digo por enquanto pois não se pode cantar vitória antes do fim do jogo. Considero uma imprudência fazer isso pois ainda tem bola pra rolar.

Vejo gente entrando em fase de manutenção de alguma doença ou dependência química e se gabando por isso como se não corresse mais risco. Batem no peito como se já conhecessem o futuro, como se dissessem: Estou curado e sou o tal! Falta de humildade? Arrogância mesmo sabendo da inconstância da vida? Insensatez ou precipitação por pura imaturidade? Pode ser qualquer coisa do tipo. Mas alguns não param por aí. Além de se acharem os seres mais constantes do planeta, ainda enchem o peito diante dos demais (incluindo os que ainda não estão muito bem) e desdenham, apontam erros que muitas vezes não existem, criticam negativamente e sem base o fato de alguns ainda estarem em tratamento. Desprezam o sofrimento alheio, sofrimento pelo qual já passaram mas que parecem não recordar. Para esses a condição de curado ou assintomático significa ser soberano.

Quando o ser humano credita a cura a si próprio, automaticamente massageia seu próprio ego e sobe em um pedestal de senhor e comandante de sua mente, do seu eu. Adquire a atitude de um ser acima do bem e do mal, se torna seu próprio deus. Os supostamente curados, neste caso, se fazem superiores a ponto de se acharem no direito de preterir os demais. O que os faz piores do que os ditos normais ou saudáveis, pois os “normais saudáveis” na maioria das vezes são ignorantes quanto à condição dos doentes, já os que passaram pela doença não. É triste ver isso acontecer mas não deveria ser surpresa. O ser humano tem natureza pecaminosa, tem o coração inclinado para o que é reprovável a Deus. Nada mais natural e humano do que se corromper pela sensação de poder, de superioridade. “Quer conhecer uma pessoa, dê poder a ela“. A máxima é verdadeira e como a maior parte da humanidade está extraviada, é só alguém sentir que é o curador de si mesmo e o estrago está feito.

Não sou melhor do que ninguém, aliás me acho até pior pois às vezes faço o que é errado mesmo sabendo o que é certo. O bem que eu quero fazer às vezes eu não consigo. Às vezes faço o mal que eu não deveria fazer. É o coração enganoso e corrupto pulsando aqui dentro, é o desejo do velho homem. Porém, mesmo com essa certeza de estar andando no fio da navalha (ou pela patologia ou pela velha natureza) eu sempre supus que alguém que passou ou passa por uma espécie de sofrimento deveria se sensibilizar por quem passa por sofrimento semelhante. Uma palavra amiga ou um puxão de orelha na hora certa são válidos mesmo vindo de quem também está sofrendo ou já conheceu aquela dor.

Lembrei do texto “Chorai com os que choram” de 2011, no qual relatei uma situação em que não consegui ficar feliz por um avanço no meu tratamento, pois vi e ouvi uma moça em estado de desespero na sala de espera do consultório. Passei tantas vezes por momentos de desespero, agonia e sofrimento mental sozinha que fiquei solidária daquela mulher. Eu pude sentir o que ela estava passando. Eu já havia passado por aquilo antes e ainda passei muito pior depois disso.

É fato que quando estamos melhorando conseguimos olhar pra trás e ver onde erramos. Conseguimos perceber em quais momentos nos esforçávamos pra melhorar e não conseguíamos sair do lugar, e em quais momentos não saíamos do lugar por comodismo. É verdade que só sabe da dificuldade do jogo quem está em campo jogando. Mas também é verdade que quem já foi treinado e está no banco de reservas consegue ver o jogo por um ângulo melhor. Mas não é por ter essa visão mais ampla que se deve assumir uma atitude de superioridade e advogar que o jogo só pode ser vencido à sua maneira, que sua estratégia é a única que funciona pra vencer.

alegriaEnfim, na minha penúltima visita ao psiquiátra eu encontrei novamente a moça, aquela que estava desesperada na mesma sala de espera há quase dois anos. Ela deixou o cabelo crescer (na época estava bem Joãozinho), estava bem sorridente, com uma cara ótima e bem disposta. Perguntei como ela estava e como estavam seus filhos. Ela respondeu com um sorriso bem largo que ela e as crianças estavam bem. Ficou de lá do outro lado da sala olhando pra mim e sorrindo por uns instantes. Findei em um sorriso largo dentro da sala. Pareceu uma daquelas situações em que as pessoas passam por uma desventura, depois lembram e logo a lembrança se esvai. Não precisei falar nada e nem chegar perto. Eu sabia o que significava aquele sorriso e aquele olhar vivo.

Foi engraçado a maneira como um diálogo banal no qual se diz “Como vai?”“Vou bem!” se tornou tão significativo ao mesmo tempo em que foi praticamente desnecessário. Só o sorriso e o brilho nos olhos daquela moça me fizeram sentir que ela, assim como eu, está muito melhor. Da outra vez, quando ela saiu do consultório e eu a abracei, eu disse a ela que aguentasse firme e que não desistisse pois tudo aquilo iria passar. Dizer a alguém que há esperança nos dá esperança também. Nesta penúltima consulta o médico baixou mais uma dose de medicação minha e desta vez eu pude sair do consultório duplamente feliz. A bênção de Deus pode parecer demorada mas um dia vem e ainda se estende. E de novo eu lembro de Romanos 12:15 – “Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram”.

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Confissões

“Qual é a realidade de qualquer sentimento?”

Há um tipo especial de dor, exultação, solidão e pavor envolvidos nessa classe de loucura. Quando se está para cima, é fantástico. As idéias e sentimentos são velozes e frequentes como estrelas cadentes, e você os segue até encontrar algum melhor e mais brilhante. A timidez some; as palavras e os gestos certos de repente aparecem; o poder de cativar os outros, uma certeza palpável. Descobrem-se interesses em pessoas desinteressantes. A sensualidade é difusa; e o desejo de seduzir e ser seduzida, irresistível. Impressões de desenvoltura, energia, poder, bem-estar, onipotência financeira e euforia estão impregnadas na nossa medula. Mas, em algum ponto, tudo muda. As idéias velozes são velozes demais; e surgem em quantidades excessivas. Uma confusão arrasadora toma o lugar da clareza. A memória desaparece. O humor e enlevo no rosto dos amigos são substituídos pelo medo e preocupação. Tudo que antes corria bem agora só contraria você fica irritadiça, zangada, assustada, incontrolável e, totalmente emaranhada na caverna mais sinistra da mente. Você nunca soube que essas cavernas existiam. E isso nunca termina, pois a loucura esculpe sua própria realidade.

A história continua sem parar, e finalmente só restam as lembranças que os outros têm do seu comportamento — dos seus comportamentos absurdos, frenéticos, desnorteados — pois a mania tem pelo menos o lado positivo de obliterar parcialmente as recordações. E então, depois dos medicamentos, do psiquiatra, do desespero, depressão e overdose? Todos aqueles sentimentos incríveis para desembaralhar. Quem está sendo educado demais para dizer o quê? Quem sabe o quê? O que foi que eu fiz? Por quê? E o que mais atormenta: Quando vai acontecer de novo? Temos também os lembretes amargos — remédios para tomar, para se ressentir por ter tomado, para esquecer; tomar, ressentir, esquecer, mas sempre tomar. Cartões de crédito cancelados, cheques sem fundo a serem cobertos, explicações devidas no trabalho, desculpas a serem pedidas, lembranças intermitentes (o que foi que eu fiz?), amizades cortadas ou esvaziadas, um casamento terminado. E sempre, quando isso vai acontecer de novo? Quais dos meus sentimentos são reais? Qual dos meus eus sou eu? O selvagem, impulsivo, caótico, vigoroso e amalucado? Ou o tímido, retraído, desesperado, suicida, cansado e fadado ao insucesso? Provavelmente um pouco de cada lado. De preferência, que grande parte não pertença a nenhum dos dois lados. Virgínia Woolf, nos seus vôos e mergulhos resumiu essa história: ‘Até que ponto nossos sentimentos extraem sua cor do mergulho no mundo subterrâneo? Quer dizer, qual é a realidade de qualquer sentimento?

 O trecho acima é do livro Uma mente inquieta, de Kay Redfield Jamison, psiquiatra e maníaca-depressiva (ou bipolar, whatever). Os destaques em negrito são meus.

Estou lendo esse livro e simplesmente me vejo lá. Ela descreve e explica tudo com uma perfeição que só um médico psiquiatra E doente bipolar poderia fazer. Interessante é que o povo ignorante sempre diz que médico psiquiatra é ‘tudo doido’. Não é verdade. Muitos deles só se identificam com a área por que já vem de uma história pessoal e/ou familiar de doença mental. Mas também há exceções. Enfim, amei esse livro e me emociono lendo. É tocante como faz parecer que não estou sozinha, que outros sofreram e sofrem tanto quanto eu para conviver com a doença, que alguém que nem me conhece entende tão bem a minha situação. Para baixar o livro, que é interessantíssimo e vale a pena ser lido, tem esse link aqui http://goo.gl/TRwD6. }ï{

Confissões, Lucubrações

“Chorai com os que choram”

Ontem fiquei me perguntando se seria pecado não explodir de alegria quando se recebe algo que nitidamente é uma bênção, um presente, algo que deveria te reacender a esperança.

A cada mês ou a cada bimestre faço uma visita ao psiquiatra e antes que alguém fique com medo, eu não sou maluca! Quem é normal vai ao psiquiatra também, ou pelo menos deveria ir. Pois bem! Estava eu na sala de espera, sentadinha lendo uma revista feminina talvez de 2005, com mais de 20 pacientes na minha frente, com aquela placidez que se apodera de mim nesse tipo de situação (Sério! Sem ironia), quando entra e senta ao meu lado uma jovem mulher muito bonita. Estava trêmula e segurando o choro a todo momento. Começou a conversar com quem estava na sala, falando um pouco mais alto, coisa que aqui nessa região é muito comum. É normal engatar conversas na fila do banco, no supermercado, na sala de espera do consultório.

A mulher me pareceu familiar e eu perguntei se ela já havia estudado na mesma instituição de ensino que eu. Bingo! Foi só lembrar de mim e perceber que tínhamos em comum mais outra coisa além de doença mental que se iniciou  uma troca de experiências que, para alguém que é mais sadio mentalmente, pareceria papo de doido. Coisas como o diagnóstico, remédios, tempo de tratamento, as sensações, efeitos colaterais, sintomas, as inúmeras crises, o apoio de familiares e amigos (ou a falta dele), como se vira pra trabalhar, estudar, cuidar da casa, enfim… como se vira para continuar vivendo são coisas que só quem passa por isso é quem vai entender perfeitamente. Nem um psiquiatra ou psicólogo conseguem compreender. A menos que tenham adoecido disso também. E há profissionais destas áreas que sofrem de transtornos mentais e são excelentes no que fazem. Como meu médico diz sempre: A doença mental é democrática. Pode pegar qualquer pessoa.

Mas voltando à situação da moça no consultório. Quando ela  descruzou os braços sem querer deixou aparentes as cicatrizes queloides resultantes de automutilação no pulso, na parte interna do braço, no antebraço. Em meio a tremedeira, vez por outra ela engolia e respirava fundo, tentando não chorar copiosamente, mas o rosto estava molhado e os olhos vermelhos de chorar. E ela começou a desabafar, o que ninguém censurou pois só nós que temos sofrimento mental sabemos o quanto somos carentes em meio a crise. Queremos colo e ouvidos de todo mundo, mesmo que esse “todo mundo” não entenda. A moça falou do vidro de xampu bebido por ela até a metade durante uma crise de sonambulismo. Falou do marido que não dorme direito pois fica monitorando o sono dela às vezes. Falou dos dois filhos pequenos, dos quais ela precisa se esconder de vez em quando para que não a vejam chorando. Falou da pressão de ter que trabalhar e estudar sem ter condições mentais, físicas e emocionais para isso. Falou da culpa de não poder controlar nada disso e sentir-se um peso morto para todos. Sei como é sofrido. Nos chamam de loucos e desajustados enquanto sofremos e desejamos a morte.

Depois de umas ligações, ela conseguiu com o marido o dinheiro para completar o pagamento da consulta, pois o desespero em procurar socorro médico não a deixou lembrar de passar no banco para sacar dinheiro. Lembro que enquanto ela ligava, vendo seu desespero, levei um copo d’água para ela, sentei ao seu lado, fechei meus olhos e orei. Pedi a Deus por ela, por essa desconhecida que me entende melhor que os meus conhecidos. Enfim, ela foi encaixada na fila de espera e ninguém reclamou por ela passar na frente de quem estava ali há horas e horas esperando. No fundo acho que todos ali sabiam bem o que é estar em condição semelhante.

Ela entrou antes de mim, passou um bom tempo no consultório. Eu, já inquieta pela espera de uma tarde inteira e parte da noite, sentei lá fora no corredor. Quando ela saiu já veio chorando e de braços estendidos pra mim e me deu um abraço tão confortador, tão familiar, tão sincero, tão cheio de alívio que pareceu que nos conhecíamos anteriormente. Talvez por eu ter demonstrado interesse pela situação dela, por eu ter-lhe feito companhia naquele momento, por ter pelo menos conversado para ela se distrair um pouco, por tê-la ouvido, por ter levado água ou simplesmente por eu entender sua dor. Disse algumas palavras olhando nos olhos dela e depois ela foi embora.

Quanto à minha consulta, o médico falou que quer começar a retirar uma das minhas medicações e devo retornar lá daqui um mês para ver como eu me saí. Foi um presente, uma bênção, uma notícia maravilhosa! Motivo pra eu sair do consultório soltando fogos com um sorriso de orelha à orelha, como foi da vez em que o mesmo médico diminuiu a dosagem de uma medicação anteriormente. Significa que estou melhorando. Mas a situação daquela mulher me afetou tanto, e eu conheço tanto o calvário que ela está passando que não tive condições de me alegrar por mim, pela minha bênção. Será que é pecado não me alegrar pela bênção recebida porque há mais alguém precisando de uma?

Grata eu sou, mas alegre na hora não fiquei. Mesmo não havendo lágrimas escorrendo no meu rosto fui para casa com um nó na garganta e com o coração chorando por aquela moça, como se me visse nela. E eu já estive onde ela estava. E lembrei de Romanos 12:15, “Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram”.

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