Lucubrações

Tristeza x Depressão

Tristeza x Depressão

É uma explicação simples, mas será que deu pra entender? Então, vamos parar de falar bobagem de agora para frente. Vamos parar de usar a palavra Depressão para qualquer desilusão amorosa, tédio, preguiça, vazio existencial, crise de identidade, desespero espiritual etc. Mas também vamos parar de dizer que é só tristeza quando estivermos doentes e precisando de tratamento médico. Vamos parar de pedir Fluoxetina ou Rivotril quando a necessidade é, dentre outras coisas, colocar a espiritualidade em dia e a fé no lugar certo, ter momentos de lazer, exercitar a paciência, desenvolver resiliência, buscar autoconhecimento, mudar o estilo de vida, revisar as prioridades, cuidar da saúde, tomar atitudes corretas diante da vida, cultivar relações interpessoais. Vamos, de uma vez por todas, parar de nos esconder atrás das patologias reais ou imaginadas, desejadas ou indesejadas. Vamos abandonar os ganhos secundários e decidir viver sem muletas. Vamos parar de fugir quando só estamos com medo de enfrentar a vida. E vamos parar de sentir vergonha e negar a condição quando realmente for doença. Vamos, definitivamente, parar de confundir alhos com bugalhos. Se não conseguimos diferenciar uma coisa da outra, vamos, por favor, procurar quem sabe e solicitar auxílio.

“O leão, o mais forte entre os animais, que não foge de nada;” Salmos 30:30

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Confissões, Lucubrações

“Alegrai-vos com os que se alegram”

mulher felizEstou estável. Pensei que não diria isso tão cedo nessa vida (10 anos talvez seja cedo). Estou porque ‘estar’ é algo que pode ser passageiro. Não sou estável e não digo nem que estou curada. Não estou curada mas estou estável por enquanto. E digo por enquanto pois não se pode cantar vitória antes do fim do jogo. Considero uma imprudência fazer isso pois ainda tem bola pra rolar.

Vejo gente entrando em fase de manutenção de alguma doença ou dependência química e se gabando por isso como se não corresse mais risco. Batem no peito como se já conhecessem o futuro, como se dissessem: Estou curado e sou o tal! Falta de humildade? Arrogância mesmo sabendo da inconstância da vida? Insensatez ou precipitação por pura imaturidade? Pode ser qualquer coisa do tipo. Mas alguns não param por aí. Além de se acharem os seres mais constantes do planeta, ainda enchem o peito diante dos demais (incluindo os que ainda não estão muito bem) e desdenham, apontam erros que muitas vezes não existem, criticam negativamente e sem base o fato de alguns ainda estarem em tratamento. Desprezam o sofrimento alheio, sofrimento pelo qual já passaram mas que parecem não recordar. Para esses a condição de curado ou assintomático significa ser soberano.

Quando o ser humano credita a cura a si próprio, automaticamente massageia seu próprio ego e sobe em um pedestal de senhor e comandante de sua mente, do seu eu. Adquire a atitude de um ser acima do bem e do mal, se torna seu próprio deus. Os supostamente curados, neste caso, se fazem superiores a ponto de se acharem no direito de preterir os demais. O que os faz piores do que os ditos normais ou saudáveis, pois os “normais saudáveis” na maioria das vezes são ignorantes quanto à condição dos doentes, já os que passaram pela doença não. É triste ver isso acontecer mas não deveria ser surpresa. O ser humano tem natureza pecaminosa, tem o coração inclinado para o que é reprovável a Deus. Nada mais natural e humano do que se corromper pela sensação de poder, de superioridade. “Quer conhecer uma pessoa, dê poder a ela“. A máxima é verdadeira e como a maior parte da humanidade está extraviada, é só alguém sentir que é o curador de si mesmo e o estrago está feito.

Não sou melhor do que ninguém, aliás me acho até pior pois às vezes faço o que é errado mesmo sabendo o que é certo. O bem que eu quero fazer às vezes eu não consigo. Às vezes faço o mal que eu não deveria fazer. É o coração enganoso e corrupto pulsando aqui dentro, é o desejo do velho homem. Porém, mesmo com essa certeza de estar andando no fio da navalha (ou pela patologia ou pela velha natureza) eu sempre supus que alguém que passou ou passa por uma espécie de sofrimento deveria se sensibilizar por quem passa por sofrimento semelhante. Uma palavra amiga ou um puxão de orelha na hora certa são válidos mesmo vindo de quem também está sofrendo ou já conheceu aquela dor.

Lembrei do texto “Chorai com os que choram” de 2011, no qual relatei uma situação em que não consegui ficar feliz por um avanço no meu tratamento, pois vi e ouvi uma moça em estado de desespero na sala de espera do consultório. Passei tantas vezes por momentos de desespero, agonia e sofrimento mental sozinha que fiquei solidária daquela mulher. Eu pude sentir o que ela estava passando. Eu já havia passado por aquilo antes e ainda passei muito pior depois disso.

É fato que quando estamos melhorando conseguimos olhar pra trás e ver onde erramos. Conseguimos perceber em quais momentos nos esforçávamos pra melhorar e não conseguíamos sair do lugar, e em quais momentos não saíamos do lugar por comodismo. É verdade que só sabe da dificuldade do jogo quem está em campo jogando. Mas também é verdade que quem já foi treinado e está no banco de reservas consegue ver o jogo por um ângulo melhor. Mas não é por ter essa visão mais ampla que se deve assumir uma atitude de superioridade e advogar que o jogo só pode ser vencido à sua maneira, que sua estratégia é a única que funciona pra vencer.

alegriaEnfim, na minha penúltima visita ao psiquiátra eu encontrei novamente a moça, aquela que estava desesperada na mesma sala de espera há quase dois anos. Ela deixou o cabelo crescer (na época estava bem Joãozinho), estava bem sorridente, com uma cara ótima e bem disposta. Perguntei como ela estava e como estavam seus filhos. Ela respondeu com um sorriso bem largo que ela e as crianças estavam bem. Ficou de lá do outro lado da sala olhando pra mim e sorrindo por uns instantes. Findei em um sorriso largo dentro da sala. Pareceu uma daquelas situações em que as pessoas passam por uma desventura, depois lembram e logo a lembrança se esvai. Não precisei falar nada e nem chegar perto. Eu sabia o que significava aquele sorriso e aquele olhar vivo.

Foi engraçado a maneira como um diálogo banal no qual se diz “Como vai?”“Vou bem!” se tornou tão significativo ao mesmo tempo em que foi praticamente desnecessário. Só o sorriso e o brilho nos olhos daquela moça me fizeram sentir que ela, assim como eu, está muito melhor. Da outra vez, quando ela saiu do consultório e eu a abracei, eu disse a ela que aguentasse firme e que não desistisse pois tudo aquilo iria passar. Dizer a alguém que há esperança nos dá esperança também. Nesta penúltima consulta o médico baixou mais uma dose de medicação minha e desta vez eu pude sair do consultório duplamente feliz. A bênção de Deus pode parecer demorada mas um dia vem e ainda se estende. E de novo eu lembro de Romanos 12:15 – “Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram”.

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Confissões, Vlogs

Rindo da cara de 2012

Por problemas ‘técnicos’ o post de Ano Novo só está saindo agora. Mas ainda vale.

2012, ano difícil! Mais difícil e menos difícil do que alguns anos que já tive e mais difícil e menos difícil do que outros que virão. Como tudo na vida passa, 2012 já era! Como tudo na vida se renova, esse Ano Novo foi melhor e mais novo do que o Ano Novo anterior. E como todos nós nos casamos com a vida no momento em que nascemos, que venham os demais anos com alegria ou tristeza, com saúde ou doença, com riqueza ou pobreza, com suas dores e delícias, pois tudo isso é inevitável, mas que venham para que tenhamos a oportunidade de fazê-los muito felizes.

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Confissões

É a treva!

Esse trecho é de uma música que gosto muito (Brilha em mim) e que se canta muito onde congrego. Mas fico às vezes me perguntando: de que adianta cantarem tanto isso se ninguém se dá ao trabalho de tentar acender as velas que se apagam frequentemente? Não sabem chegar perto o suficiente da vela apagada pra poder dividir a chama ou tem medo disso. Como essa chama vai reavivar a outra que está prestes a se apagar se a que está acesa não chegar perto o suficiente?

Acho que as velas que estão acesas tem medo da escuridão ao redor da vela que se apaga, por isso não chegam perto. Ou talvez o medo seja unicamente por não saber como acender a outra. Mas não sabem que a simples presença já transmite calor suficiente pra que a apagadinha acenda de novo.

Seria bom se as velas aprendessem que algumas outras precisam muito mais da presença delas quando estão no quarto escuro, adoecidas, com os comprimidos ou a lâmina na mão, ou ainda chorando numa ponte qualquer. Para que honrarias, homenagens, palmas e chamas nos momentos de alegria se, quando se está precisando de alguém mentalmente são pra te tomar a lâmina, os comprimidos ou te tirar da ponte, não aparece nem sequer uma vela com chama acesa? Só querem compartilhar chamas com velas igualmente acesas em momentos iluminados.

As apagadas (ou prestes a se apagar) metem medo nas acesas que acham que vão apanhar, ouvir grosseria ou ter seu calor roubado. Mas e se isso acontecer? E daí? Velas doentes não machucam e quando o fazem não é porque querem. É porque estão doentes, apagando lentamente e precisando que outra vá correndo acendê-la sem medo, antes que seja tarde.

No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor.” (I João 4:18).

Compartilhar chamas é como um casamento: sempre há o bom E o ruim juntos, nunca o bom OU o ruim. Querem compartilhar suas chamas com as outras velas? Compartilhem na alegria E na tristeza, na saúde E na doença, na riqueza E na pobreza, na claridade E na escuridão.  }ï{

Confissões, Lucubrações

Quando o inverno parece nunca acabar

Jardim do Château de Chenonceau – Foto by André Gustavo Lima

Aproveitando o céu azul, o sol amigo que fez hoje e o ânimo melhorado, com cara de início de primavera (mas ainda é verão amazônico), decidi criar coragem pra relatar um pouco sobre a última semana. Meu tratamento estava prestes a tomar rumo novo na segunda-feira da semana passada. Um dos comprimidos, um mísero comprimido, seria tomado intercaladamente durante uns dias e depois disso … adeus paroxetina! Já ia tarde  a bandida que me seca as mucosas nasal e bucal e me obriga a andar com garrafinha de água de vez em quando. Abri mão de uma viagem que duraria todo o  fim de semana temendo  os sintomas da abstinência. Passou o sábado, tudo normal. Veio domingo, uma moleza no corpo, cansaço mental, mas tranquilo.

Na segunda, o dia começa bem, apesar da indisposição e vontade de morrer pra não ir trabalhar com a cabeça no mundo da lua. Porém, lá pelas tantas da tarde, uma divergência boba, banalidade que nem discussão era, uma opinião contrária … e a vespa sai do vespeiro e se retira  logo em seguida deixando a lola trancada no quarto mais próximo, chorando a tarde inteira, desesperada, tentando descobrir quem era aquele bicho mais forte que ela, aquela armadura  com vontade própria, que manda e desmanda no ser que a veste, sem chance de defesa ou reação contrária. Chegou a terça-feira e como não dava mais pra faltar outro dia de trabalho, mesmo sabendo do perigo, lá fui eu. Pois o mundo não para só porque alguém precisa de tempo para um pequeno ajuste nos parafusos (tá bom, grande ajuste!).

Um pendrive que foi esquecido no local de trabalho e é visto  desmontado sobre a mesa foi só a gota que faltava pingar  pra que a desgraçada vespa saísse de novo.  O que é um pedrive? Sempre valorizei muito mais pessoas do que objetos. Não, esse não foi o motivo, tenho certeza. Alteração de humor, impulsividade são normais em algumas pessoas, mas AQUILO não foi normal. Terminar sentada e encolhida aos berros no canto da salinha de arquivo do departamento, no escuro, depois de agredir uma porta e uns armários de aço, definitivamente não é normal. Assustar as pessoas e dar um péssimo testemunho, pagar de doida é basicamente anormal, quando tudo pelo que se ora a Deus e se esforça é por manter um equilíbio e uma convivência amistosa com todos para que vejam a beleza de Cristo em si.

Os mais compreensivos até me dizem: “Não é culpa tua, te conheço e você não é assim!” Mas me trato há tanto tempo. Deveria ter percebido que não estava pronta para parar um dos drops que me ajudam tanto e que complementa a ação dos demais, o médico deveria ter percebido que eu não estava pronta, mas ele faz o que pode. A única coisa que passa pela cabeça quando as coisas reviram é que o que antes foi recebido como bênção se tornou em maldição. Mas enfim, depois de retomar o uso do dito cujo (mas dia sim e dia não), depois do médico me deixar de molho o resto da semana e depois de reclamar, falar besteira e choramingar para algumas pessoas, até sinto vida de novo em mim.

Às vezes quando parece que as bençãos se tornaram em maldição, quando o inverno da alma chegou, quando a desesperança toma de conta e nos faz perder o chão, o norte e quase desistir, Deus mostra que esse inverno é necessário, com seu branco, seu cinza, seu frio doloroso, seu céu nublado. É necesário passar pelo inverno para aprender a valorizar a primavera que vem em seguida, com suas cores, suas flores, seus perfumes e suas borboletas, claro! É necessário passar pelo inverno  pois é nesse período que se escuta coisas que nunca na vida tinha escutado, como: “Minha filha, eu sei que é difícil, mas mamãe tá aqui pra cuidar de você“! É no inverno que se vê a humanidade e compreensão escondidas onde menos se imagina, por exemplo, nos seus colegas de trabalho e chefes, que vão ao cubículo, acendem a luz, te trazem água e te levam  pra esfriar a cabeça em um lugar bonito e cheio de árvores. É no inverno que você  percebe como seu animal de estimação é sensível à sua situação, carinhoso e apegado a você (apesar do nosso  ter morrido enquanto eu escrevia este post, e escrevo sobre isso depois, pois agora estou arrasada demais e já chorei demais hoje).

O fato é que “ninguém será grandemente abençoado por Deus se não houver sido severamente por Ele ferido”. E mesmo escrevendo este post entre lágrimas e engasgada até não poder mais, com a emoção à flor da pele porque meu cérebro às vezes  parece que me odeia, tenho certeza de que meu Senhor me ama e por isso mesmo ainda me mandará muitas estações diferentes pra eu lidar. Talvez eu tenha muitos verões e outonos entendiantes, mas certamente terei muitas primaveras também. E no final, a alegria de cada uma delas fará ter valido a pena a longa espera e o frio dos invernos tristes e quase sempre solitários.

“E ele muda os tempos e as estações;” Daniel 2:21

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Confissões, Lucubrações

“Chorai com os que choram”

Ontem fiquei me perguntando se seria pecado não explodir de alegria quando se recebe algo que nitidamente é uma bênção, um presente, algo que deveria te reacender a esperança.

A cada mês ou a cada bimestre faço uma visita ao psiquiatra e antes que alguém fique com medo, eu não sou maluca! Quem é normal vai ao psiquiatra também, ou pelo menos deveria ir. Pois bem! Estava eu na sala de espera, sentadinha lendo uma revista feminina talvez de 2005, com mais de 20 pacientes na minha frente, com aquela placidez que se apodera de mim nesse tipo de situação (Sério! Sem ironia), quando entra e senta ao meu lado uma jovem mulher muito bonita. Estava trêmula e segurando o choro a todo momento. Começou a conversar com quem estava na sala, falando um pouco mais alto, coisa que aqui nessa região é muito comum. É normal engatar conversas na fila do banco, no supermercado, na sala de espera do consultório.

A mulher me pareceu familiar e eu perguntei se ela já havia estudado na mesma instituição de ensino que eu. Bingo! Foi só lembrar de mim e perceber que tínhamos em comum mais outra coisa além de doença mental que se iniciou  uma troca de experiências que, para alguém que é mais sadio mentalmente, pareceria papo de doido. Coisas como o diagnóstico, remédios, tempo de tratamento, as sensações, efeitos colaterais, sintomas, as inúmeras crises, o apoio de familiares e amigos (ou a falta dele), como se vira pra trabalhar, estudar, cuidar da casa, enfim… como se vira para continuar vivendo são coisas que só quem passa por isso é quem vai entender perfeitamente. Nem um psiquiatra ou psicólogo conseguem compreender. A menos que tenham adoecido disso também. E há profissionais destas áreas que sofrem de transtornos mentais e são excelentes no que fazem. Como meu médico diz sempre: A doença mental é democrática. Pode pegar qualquer pessoa.

Mas voltando à situação da moça no consultório. Quando ela  descruzou os braços sem querer deixou aparentes as cicatrizes queloides resultantes de automutilação no pulso, na parte interna do braço, no antebraço. Em meio a tremedeira, vez por outra ela engolia e respirava fundo, tentando não chorar copiosamente, mas o rosto estava molhado e os olhos vermelhos de chorar. E ela começou a desabafar, o que ninguém censurou pois só nós que temos sofrimento mental sabemos o quanto somos carentes em meio a crise. Queremos colo e ouvidos de todo mundo, mesmo que esse “todo mundo” não entenda. A moça falou do vidro de xampu bebido por ela até a metade durante uma crise de sonambulismo. Falou do marido que não dorme direito pois fica monitorando o sono dela às vezes. Falou dos dois filhos pequenos, dos quais ela precisa se esconder de vez em quando para que não a vejam chorando. Falou da pressão de ter que trabalhar e estudar sem ter condições mentais, físicas e emocionais para isso. Falou da culpa de não poder controlar nada disso e sentir-se um peso morto para todos. Sei como é sofrido. Nos chamam de loucos e desajustados enquanto sofremos e desejamos a morte.

Depois de umas ligações, ela conseguiu com o marido o dinheiro para completar o pagamento da consulta, pois o desespero em procurar socorro médico não a deixou lembrar de passar no banco para sacar dinheiro. Lembro que enquanto ela ligava, vendo seu desespero, levei um copo d’água para ela, sentei ao seu lado, fechei meus olhos e orei. Pedi a Deus por ela, por essa desconhecida que me entende melhor que os meus conhecidos. Enfim, ela foi encaixada na fila de espera e ninguém reclamou por ela passar na frente de quem estava ali há horas e horas esperando. No fundo acho que todos ali sabiam bem o que é estar em condição semelhante.

Ela entrou antes de mim, passou um bom tempo no consultório. Eu, já inquieta pela espera de uma tarde inteira e parte da noite, sentei lá fora no corredor. Quando ela saiu já veio chorando e de braços estendidos pra mim e me deu um abraço tão confortador, tão familiar, tão sincero, tão cheio de alívio que pareceu que nos conhecíamos anteriormente. Talvez por eu ter demonstrado interesse pela situação dela, por eu ter-lhe feito companhia naquele momento, por ter pelo menos conversado para ela se distrair um pouco, por tê-la ouvido, por ter levado água ou simplesmente por eu entender sua dor. Disse algumas palavras olhando nos olhos dela e depois ela foi embora.

Quanto à minha consulta, o médico falou que quer começar a retirar uma das minhas medicações e devo retornar lá daqui um mês para ver como eu me saí. Foi um presente, uma bênção, uma notícia maravilhosa! Motivo pra eu sair do consultório soltando fogos com um sorriso de orelha à orelha, como foi da vez em que o mesmo médico diminuiu a dosagem de uma medicação anteriormente. Significa que estou melhorando. Mas a situação daquela mulher me afetou tanto, e eu conheço tanto o calvário que ela está passando que não tive condições de me alegrar por mim, pela minha bênção. Será que é pecado não me alegrar pela bênção recebida porque há mais alguém precisando de uma?

Grata eu sou, mas alegre na hora não fiquei. Mesmo não havendo lágrimas escorrendo no meu rosto fui para casa com um nó na garganta e com o coração chorando por aquela moça, como se me visse nela. E eu já estive onde ela estava. E lembrei de Romanos 12:15, “Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram”.

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Confissões

Vivendo entre os polos

Bom, com relação aos polos congelados do globo terrestre eu acredito que foi tudo culpa do Dilúvio, mas não é desses polos que quero falar. Quero colocar pra fora algo acerca dos meus polos. Sim, eu tenho polos, dois deles, dentro da minha mente. Um é no topo de uma montanha, o outro fica em um abismo profundo e garanto que o lá de cima é quente, acelerado, falastrão, simpático com todos e cheio de energia; enquanto o lá de baixo é gélido, escuro, profundo, chorão, pessimista e quieto.

Enfim, pra quem porventra ler não ficar boiando, devo dizer que ser bipolar é como ter que matar um leão todo dia pra conseguir viver, pra se manter com vontade de viver. Confesso que às vezes até para exercitar a fé e a confiança na providência Divina e no suprimento das necessidades é preciso se esforçar. O polo negativo (ou gelado) não deixa. É como se a pessoa não mandasse mais em si, na sua mente, nas suas reações diante dos entraves do cotidiano. Uma pessoa pode ser tida como explosiva e perder o controle de seu comportamento às vezes, mas isso é mais fácil para a sociedade compreender. Mas e quem não controla suas reações por uma condição de saúde? Porque é tão difícil de aceitar?

Tudo bem que muita gente se esconde atrás dos transtornos mentais, até eu já fiz isso muitas vezes, e me envergonho ao lembrar, mesmo sabendo que o medo de melhorar e encarar a vida e a autocomiseração é uma fase da doença, existem por causa da doença e não porque a pessoa quer deliberadamente chamar atenção pra si ou dar uma de coitada todas as vezes que tem atitudes que apontam pra esse lado. Às vezes parece que até quem diz que te ama não suporta seu polo ardente seguido de  seu polo congelante com tanta rapidez. Cheguei até a comentar sobre isso no site do Dr. Paulo André Issa em um artigo sobre bipolaridade justamente hoje, quando estou passando por um momento depressivo e meio desesperançoso. Meio não, muito desesperançoso, com ideias tenebrosas. Porque, mesmo medicado, o doente mental está sujeito a períodos de crise por várias razões, pequenas e/ou grandes.

Às vezes a culpa corrói. A culpa de saber que todos que te amam ou que possam vir a te amar um dia vão ter que viver sofrendo o choque térmico que é conviver com  alguém  que sofre desse ou de qualquer outro transtorno. Às vezes não parece justo com as pessoas que você ama. Não parece justo que elas tenham que passar por isso com você. Quando se ama as pessoas se quer o melhor para elas e muitas vezes a vontade é fazer algo pra não sujeitá-las a ter que conviver com você, pois ninguém é obrigado. E se nem você se controla nas crises e nem existem super humanos com paciência ilimitada, o que fazer então? Suicídio é uma opção cogitada p or quem está absurdamente doente, mas é pecado e mais um grande et cetera. Isolamento hoje em dia é quase impossível e ainda nada viável pois gera desconfiança e preocupação justamente nas pessoas às quais você quer poupar. Fica difícil saber o que fazer às vezes.

Embora a razão e a fé digam: ” E o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém vo-la tirará.” (Jo 16:22a), alguma coisa fica gritando aqui dentro: “E a minha vida se aproxima da sepultura.(Sl 88:3). Embora a metamorfose aconteça, às vezes as borboletas parecem vespas. Talvez eu esteja precisando parar de mendigar compreensão, paciência e amor  das pessoas que me rodeiam, mesmo daquelas que eu amo e que dizem me amar. Talvez eu esteja só exausta, doente, precisando de cuidado, precisando descansar, e descansar mais em Deus também. Isso basta!

“Dá força ao cansado, e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor.” Isaías 40:29

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